A Boca da Guerra

Capítulo 75: Neville – Cão de guarda

— Fiz uma lista de nomes — Gregoire estendeu um caderninho.

Parecia que o cinzento sentado na boleia não ia aceitar, mas acabou pegando a caderneta e folheou as ideias de Gregoire.

— Quais são as chances — ele perguntou — de alguém começar a chamar trevas de, como é? Asrat. É isso?

— E por que não? — perguntou Gregoire. — Qualquer coisa é mais original do que chamar trevas de trevas.

O cinzento encarou Neville.

— Foi para isto que você me trouxe de volta?

— Chegamos — disse Gregoire. — Bem-vindos a Carlaje.

A estrada fez uma curva para o sul e a floresta até então densa se abriu numa clareira que descia até o rio. Neville não sabia o que esperava de Carlaje. Nunca tinha estado em uma cidade da Fronteira, mas imaginou que seria parecida com as cidades mais ao norte da Franária, os labirintos de Debur descendo o morro a partir de uma fortificação, as ruas mais próximas do castelo pavimentadas muito tempo atrás, depois se desfazendo em ruelas de terra cheias de becos, casebres amontoados, toldos. Ele não esperava uma cidade espalhada, com casas todas feitas da mesma pedra verde clara do Esmeralda, telhadinhos vermelhos, ruas arborizadas, nenhuma muralha.

Muralhas não servem contra os perigos de além-Sangue. Foi o que Pierre disse a Neville.

O Sangue. Carlaje ficava na beira do rio e aqui o Sangue era largo e lento como um mar adormecido de água doce. O horizonte desse mar era trevas, mas o rio em si refletia o céu com um tom de vermelho que outras águas não tinham. Na boleia da carroça, o cinzento abraçou o próprio corpo e cutucou o braço onde a haste invisível da árvore negra estava amarrada.

— Você também sente? — perguntou Gregoire. — Acho que a água ficou com um pouco da magia do dragão. Ou melhor, a água corre embora, mas neste pedaço de rio ficou a lembrança.

— O dragão que destruíu Fabec? — perguntou Neville. O dragão que matou Robert?

— Ele se chama Chelag’Ren — disse Gregoire. — É aqui onde eu moro.

As mulas pararam em frente a uma casa de dois andares, toda de pedra verde clara, telhas vermelhas, janelas de venezianas brancas. Gregoire desceu da boleia e abriu a porta enquanto Neville carregou o Vulto para dentro. A casa era ampla e bem iluminada, com uma escrivaninha, muitas estantes cheias de livros desorganizados e um quarto com duas camas.

— Pode colocar ele na cama de Pierre — disse Gregoire.

Neville depositou o mago desfalecido na cama indicada, cobriu-o e tentou imaginar um meio de alimentá-lo. Atrás de Neville, o cinzento entrou e se abraçou com força. Tremia encolhido e fincava as unhas no braço tentando arrancar o nó negro que o mantinha na superfície das trevas.

— Eu quero ir embora — ele disse.

De repente ele se calou e ergueu os olhos para o segundo andar da casa. No meio das escadas estava um homem. Tinha pele vermelha escura, cabelos cor de carvão, expressão vaga. Ele terminou de descer as escadas, pegou um livro e voltou para o segundo andar. As estantes se distorceram quando ele passou, as escadas retas se dobraram em caracol. Neville teve a sensação de estar em outro sonho daquele mago das teias de aranha.

— Quem é esse homem? — ele perguntou.

— O pai de Pierre — disse Gregoire. — Ele mora no segundo andar e estas estantes são dele. De vez em quando ele desce e pega um livro novo que ninguém sabe como veio parar aqui. Então ele o traduz e nós copiamos. Os livros chegam todos em satironês, mas as traduções podem ser em franês, anjariano, eslariano, até mesmo em caracteres de Sejo Tíen.

Neville chegou perto das estantes e reconheceu alguns dos livros que Fulion levou à biblioteca de Maëlle naquela outra vida que Neville viveu em Debur. Na biblioteca de Debur havia traduções, estes eram originais. Era daqui, desta casa, que Fulion trazia os livros para a biblioteca de Maëlle. Neville teve sensações que não soube descrever, sentimentos que a Boca havia digerido e que agora voltavam a brotar. Antes de Fabec, ele estaria maravilhado. Agora brotavam assombro e uma curiosidade mais forte até do que a que tomou conta dele no dia em que conheceu Pierre.

— Se Pierre é seu irmão, este homem é seu pai? — perguntou Neville.

— Meu pai morreu antes de Pierre nascer. Esse homem e a estante surgiram na beira do rio numa noite logo após o dragão se banhar. Ele estava com frio e perdido, agarrado à estante que boiava. Minha mãe o acolheu, o resto é história.

O Vulto suspirou e a força desse suspiro derrubou da estante um livro que abriu-se no chão expondo a ilustração rebuscada de uma locomotiva de guerra satironesa. O cinzento se ajoelhou ao lado do livro e passou a ponta do dedo pelo papel áspero.

— Este trem — ele disse — se chama Eliana, mas ele está morto. Me deixe morrer, Neville. Você já matou meu irmão.

Mas Neville havia ido muito longe para resgatar aquele homem de cílios compridos. O Vulto havia arriscado sua vida para salvar eles dois.

— Sinto muito — ele disse. Virou-se para Gregoire. — Eu preciso ir a Tuen.

— Vamos encontrar alguém que te leve.

Gregoire guiou Neville por Carlaje, mas a Fronteira estava ocupada preparando armas, alimentos, carroças e cavalos. Preparando-se para invadir o norte, pensou Neville. Se a Fronteira subisse até Baynard, se tomasse Patire e abraçasse Deran, se a Fronteira chegasse com seu mistério e sua magia, se ela matasse todos os reis, será que a Franária conseguiria se erguer? As trevas da Boca sucumbiriam às trevas da Terra dos Banidos?

Enquanto Gregoire perguntava por toda Carlaje quem poderia ir até Tuen, Neville se deixou perder observando a treva de além-Sangue. A Terra dos Banidos estava ali há quatrocentos anos, mas tinha olhos milenares.

Olhos?

Os pelos se arrepiaram nos braços de Neville. A Terra dos Banidos olhou bem dentro das pupilas dele com olhos que eram garras e puxavam por trás do globo ocular, sugando. Então ele entrou numa sombra. As garras dos Banidos se retraíram e hesitaram. Neville estendeu a mão sombra e encontrou um tronco. A árvore negra estava ao seu lado, a copa dobrada de tal forma que todas as folhas fosforescentes brilhavam em direção à Terra dos Banidos.

Neville não tinha um cão de guarda, ele tinha uma árvore de guarda.

Ninguém em Carlaje podia levar Neville até Tuen.

— Me ensine o caminho — ele disse a Gregoire.

— Não é tão simples assim. Não é só uma questão de direção e seguir trilhas. A Fronteira não é a Terra dos Banidos, mas ela tem humores.

— Eu já caminhei antes pela Fronteira e sobrevivi.

— Mas você não sobreviveu sozinho — disse Gregoire. — Pierre estava com você o tempo todo.

— Você pode mostrar o caminho.

— Eu? Eu nunca saí da Fronteira!

Gregoire nunca quis sair da Fronteira. Tudo o que ele queria era escrever livros bonitos com rimas, perto do rio, longe de dragões. Mas a mãe dele faleceu anos antes e a casa, antes térrea, ganhou uma escada por onde aquele homem de pele vermelha subia e descia murmurando em satironês, anjariano e tantas outras línguas que Gregoire nem conhecia. Quando Pierre estava lá, a casa era mais concreta. Desde que ele foi embora, todos os dias ela mudava um pouquinho, como uma criatura em repouso mudando de posição, se espreguiçando, se ajeitando. O lugar mais seguro para Gregoire era a carroça e até a carroça tinha sido invadia por magia e trevas.

— E aquela casa? — perguntou Neville.

A casa que ele apontou ficava um pouco afastada e não havia uma rua que levasse até ela. Só mato.

— Ali mora um mensageiro veterano — disse Gregoire. — Um dia ele se recolheu dentro daquela casa e disse que não enxergava mais caminhos.

— O que aconteceu? — perguntou Neville.

— Enlouqueceu. Disse que perdeu a família, mas ele nunca teve família.

Neville atravessou o matagal e bateu três vezes na porta. Se um louco era tudo o que lhe restava, um louco ele seguiria.


Capítulo 76