A Boca da Guerra

Capítulo 74: Líran – Tempestade de aço

A fumaça funerária acortinou a madrugada entre Tuen e Chambert. Líran se lembrou do primeiro humano que ela encontrou. Onde estava Frederico? Líran achou que a história já teria puxado ele para cá, juntado ele aos outros cacos da Franária que Pierre estava colando, mas ele não aparecia. Líran tossiu e percebeu que estava sozinha no meio da fumaça. Então Vivianne puxou ela pelo braço para perto dos queimados, onde havia ar puro.

— Não sei de onde você vem — disse Vivianne — nem que tipo de criatura você era antes, mas gente humana morre se não respirar ar.

— Foi sem querer — disse Líran.

— A maioria das pessoas morre assim mesmo — disse Germon — sem querer.

Morrer era fácil demais para o gosto de Líran.

— Onde está Pierre? — perguntou Vivianne.

Foi Líran quem viu primeiro. Ela apontou e Tuen inteira virou para Chambert e para a figura solitária que cruzava o portão do castelo.

Luc estava de costas para a estrada. O cheiro de fumaça alcançava o topo das muralhas de Chambert, mas ele se recusava a olhar.

— Vem vindo alguém — disse Leonard.

E daí? Luc achava que tinha morrido por dentro fazia tempo, mas descobriu que ainda podia morrer mais um pouco.

— É Pierre — Leonard abriu o portão.

Luc desceu da muralha. Não queria saber de Pierre. Também não queria saber de Jean, que subia as escadas de dois em dois.

Jean seguiu o cheiro de Pierre, os olhos cegos, só o cheiro acachapante de Pierre abrindo os portões de Chambert. Jean procurou o movimento, agarrou a criatura causadora daqueles portões abertos e jogou ela da muralha.

Luc nas escadas. Passou por ele um corpo que tentou se agarrar aos muros de Chambert feito inseto. Uma espécie de sobressalto unânime parou Chambert. A pedra áspera arrancou pele das mãos de Leonard, duas faixas de sangue pintaram o muro na vertical. A queda durou três segundos (Luc contou sem saber para quê). O silêncio após o baque durou muito mais tempo. Lá no alto, Jean movia as engrenagens do portão, que fechou a boca de Chambert com dentes de ferro.

Pierre já estava do lado de dentro.

Jean desceu da muralha. O cheiro. O cheiro! Onde estava Leonard? Por que tudo era confuso?

Luc viu do lado de fora de Chambert gente se jogando contra os portões, estendendo as mãos para Pierre, que avançou até onde jazia o corpo inerte de Leonard.

— Ele ainda vive — disse Pierre para Luc, congelado no fim da escada.

Cabeças silenciosas surgiram no topo das muralhas, nas janelas, nas portas de Chambert. Nos portões, Tuen se espremia. Jean ricocheteou o corpo, saltou da muralha até o chão.

— Leonard está vivo — Pierre reptiu.

Ele olhou direto para Luc, ali em pé sobre o corpo inerte todo torto no chão. O caolho desceu os últimos degraus. A espada enferrujada de Jean soltou um sussurro metálico ao sair da bainha. Ele correu até Luc, um rosnar entalado na garganta. O caolho cheirava a Pierre.

Luc virou-se lento demais. Ele mesmo sabia que deveria estar já com a espada na mão, mas o cérebro não se comunicava com os músculos, e Luc teve uma visão, uma certeza: ia morrer ali, pelas mãos de um porco, ao lado de Leonard ainda vivo.

Um segundo suspiro metálico, uma lâmina mais ágil que bote de cobra. A espada de Jean foi desviada e a espada de Pierre por um instante formou um x com a ferrugem, uma tesoura gigante sob a garganta de Luc. O caolho, pasmo, apalpou o próprio peito. Quente, com um coração batendo embaixo.

Então ele viu, Chambert viu, Tuen viu: uma tempestade de lâminas, relâmpagos de metal, trovão de sangue enferrujado. Pierre era uma tormenta armada. Então aquilo era a espada de Nakamura; então aquilo era lutar como um mistério. Bushido não era honra; bushido era morte.

A espada de Pierre fez curva no ar, parecia feita de ar, forçando a de Jean a dançar no seu ritmo. Jean se movia com velocidade felina, agilidade lânguida de predador, uma pantera com garras emferrujadas, mas Pierre era tromenta, Pierre era mistério e trevas. Ele cravou a espada entre as costelas de Jean, cujas mãos amoleceram. A lâmina de ferrugem tombou.

Jean caiu de joelhos e despareceu. No seu lugar estava um gato sem rabo. Ele cambaleou, saltou sobre o peito de Leonard, encostou o focinho na face desfalecida e começou a lamber os olhos do Acidentado.

Pierre baixou a espada.

— Luc — ele disse — Fulbert já deve ter atravessado a Boca. Para chegar a Debur ele primeiro precisa liquidar Tuen. Nossa única chance é unir Chambert e Tuen sob o comando da Fronteira. Junte-se a nós ou saia da frente. Qual é a sua escolha?

Luc abaixou-se e pegou Leonard nos braços. O gato veio junto.

— Chambert é tudo o que me resta. — Ele ergueu a cabeça para as muralhas cheias de olhos. — E ela te pertence.


Capítulo 75