A Boca da Guerra

Capítulo 67: Olivier – Três centímetros

Olivier, conselheiro do rei Henrique de Baynard, dono do rei Henrique de Baynard, agora não passava de um homem comprido e sulcado na frente de uma porta fechada.

Como é que Thaila conseguia fazer isso? Como é que sempre encontrava uma porta para trancar, uma chave que ele não tinha? Como é que ela conseguiu emagrecer tanto? Ela se recusava a comer, mas ele a forçava. Mesmo assim Thaila definhava.

— Monstro — veio uma voz fraca do outro lado da porta. Tudo o que ela dizia era aquilo. Monstro.

Ele esparramou as mãos contra a madeira maciça.

— Eu te salvei. Sou tudo o que te resta.

E a porta respondeu silêncio.

Olivier ia derrubar aquela porta, assim como ele já tinha derrubado tantas outras. Portas, janelas, paredes: ele as derrubaria todas. Lençóis, roupas, correntes, ele rasgaria tudo. Mas cada pedaço de pano que ele rasgava, cada pedaço de madeira que ele despedaçava, Olivier se sentia mais velho.

O asco nos pequenos olhos pretos de Thaila quando ele foi à sua casa prendê-la. O movimento sutil dos lábios dela quando a mão dele encostou nela. Achou que ela iria vomitar e ele mesmo sentiu nojo daquela mão branca na pele lisa de cobre.

— Senhor — chamaram.

Olivier se afastou da porta enojada e encarou o desprezo de Erla. Até Erla! Quando foi que Erla ficou mais alta do que ele? Não, ele é que tinha diminuído, ficado encolhido e transparente feito roupa lavada vezes demais. Ela passou a dizer senhor quando Olivier trouxe Thaila para Tuen. Senhor com as gengivas vermelhas à mostra.

— Senhor, Pierre está aqui.

— Pierre? — Olivier vasculhou a mente em busca de uma memória que despertasse ao nome. Não encontrou nada, nem mesmo a mente. Os pensamentos estavam mais rarefeitos que oxigênio no topo dos Oltiens.

— Pierre da Fronteira, domador de dragões — disse Erla. — Eu já avisei o senhor. Pierre tomou conta de Tuen e também de Chambert. Eu avisei. Estou sempre avisando.

Fronteira! Para que alguém da Fronteira viria até esta bagunça que era o resto da Franária? Thaila se matando de fome do outro lado da porta e Erla falando em dragões. Thaila com nojo da mão de Olivier e Erla falando em Fronteiras.

Erla: a desaprovação dela era quase mais pesada que o desprezo de Thaila. Erla estava tão alta. Continuava a mesma mulher magnífica que foi sozinha até Debur gritar exigências a Henrique de Baynard sete anos atrás. Ela levantou a voz e disse todas as coisas que ainda iam presas na garganta de Olivier. Ele, por outro lado, vendeu para Anuré gente que um dia foi sua amiga, ele havia finalmente tocado a mão de Thaila, que agora se matava de fome atrás de três centímetros de madeira maciça.

— Eu acho que eles vão invadir se o senhor não for até a porta. — Erla tinha pupilas cinzentas. Os olhos eram castanhos, mas o buraco negro no centro da íris não era preto, era cinza.

Invadir? Sim, claro, ele iria invadir. Havia machados em algum lugar deste palacete e Olivier derrubaria aqueles três centímetros para chegar até Thaila. Olivier desceu as escadas em direção à sala de armas, mas deteve-se no saguão de entrada ao ver a porta escancarada e uma silhueta esquisita com duas cabeças emolduradas em luz.

— Olivier de Tuen — a voz da silhueta reverberou pelas colunas.

Ele se aproximou da porta, mas cada passo que ele dava era mais devagar e menor que o anterior. A silhueta foi se revelando um rapaz com olhos cor de mel e uma moça de olhos cor de gelo. Atrás deles estavam dois monstros e meio de pele derretida, dois deles armados. Do lado de fora centenas de pessoas esperavam atrás de Maurice e Gaul de Tuen. Foi Olivier quem fez aqueles homens prefeito e capitão. Eles não podiam se voltar contra ele.

— Olivier de Tuen — disse o jovem dos olhos de mel — você mantém uma mulher aqui contra a vontade dela.

— E você, quem é? — Olivier nunca tinha visto aquele tom vermelho de pele antes.

— Ela se chama Thaila — disse o jovem.

Os sulcos nas bochechas de Olivier se aprofundaram.

— Thaila me pertence — e fez que ia fechar a porta.

Ele esperava que Pierre desse um bote e estava pronto para reagir, mas não estava pronto para o que realmente aconteceu. Uma coisa caíu no chão com um baque surdo e impediu a porta de fechar. Olivier ficou olhando sem entender o que aquela muleta estava fazendo ali. Então, sem que Pierre se movesse, Olivier foi empurrado pelo ombro por uma mão alva e de repente a moça bonita de olhos azuis estava dentro do palácio.

Olivier se espantou tanto que não percebeu o espanto de Pierre e de toda Tuen. A moça, mais forte que a força da gravidade, sibilou:

— Thaila te pertence! — e passou por Olivier, limpando na calça a mão que o havia tocado.

Olivier precisou se apoiar contra a porta para não cair. Três centímetros de nojo maciço. Aquele nojo varreu o corpo de Olivier como uma ventania levantando cortinas e derramando luz dentro de um sótão empoeirado. Olivier se enxergou como há muito tempo não fazia, sentiu mais nojo de si mesmo do que das mãos derretidas dos dois soldados de Pierre, que pegaram Olivier pelos braços e lhe colocaram algemas nos pulsos. Três centímetros de ferro preto ao redor de cada punho. Ele percebeu vagamente que o Capitão Gaul de Tuen se aproximou com cinco soldados.

— Nós o levaremos ao calabouço.

Olivier sabia que tinha de reagir, erguer a voz, lembrar a Tuen quem mandava ali, mas Olivier estava minúsculo no sótão imundo de sua própria alma. Eles não viam? Eles tinham de ver. Tuen tinha de ver que Olivier salvou Thaila. Mas a moça dos olhos azuis disse que não; o jovem dos olhos de mel disse criminoso. Monstro. Olivier se jogou contra os soldados, gritou um grito sem nomes, sem verbos, carregado de entranhas. As pessoas de Tuen desviaram o rosto, com pena, com nojo; chamaram-no louco, chamaram-no monstro. Só Erla continuou olhando.

— Eu não sou monstro, não tenho presas — diziam os gritos sem palavras de Olivier.

O que Tuen ouviu foi:

— Eu não sou nada.

Vivianne deu ordens e foi levada até a porta trancada. Ela exigiu a chave, mas disseram que estava lá dentro com Thaila. Vivianne bateu à porta.

— Thaila, meu nome é Vivianne. Estou aqui em nome de seu pai. Venha comigo e eu vou te levar até ele.

A resposta demorou tanto para vir que Vivianne imaginou Thaila desfalecida do outro lado e já estava pensando em meios de arrombar aquela porta.

— Meu pai está morto — disse Thaila.

— Olha, eu não sei o que está acontecendo aqui. Tem um homem eslariano quase morto na Pluma pedindo socorro pela filha. O socorro está aqui.

Vivianne ficou alguns minutos em frente à porta e quase se impacientou, mas então lembrou de como ela mesma ficava paralisada quando se lembrava do dragão e de como foi preciso Líran para arrancá-la do horror. Talvez Olivier não fosse um dragão mas, de várias formas, ele podia ser pior.

Dois cliques lentos, a porta se abriu e revelou uma mulher com a pele de cobre pendurada nos ossos, cabelos pretos grossos emaranhados, pernas fracas e nuas. Ela olhou Vivianne num misto de dúvida, alívio, horror, alegria. Thaila cambaleou e Vivianne a amparou.

Estranho que a perna de Vivianne não doesse tanto agora. Foi ela pensar isso que a perna voltou a latejar com tanta força que ela mesma quase caiu no chão. Vivianne apertou os lábios e, num esforço que quase deixou ela cega de dor, amparou Thaila até a porta do palácio.

Pierre estava emoldurado pelo vão, junto com o soldade Manó de Fabec. Ele parecia dar ordens, Vivianne não viu para quem. Ela enxergou nada além dele. A única coisa que existia além da dor era Pierre no vão de luz. Ele a viu e entrou na sombra mas, que engraçado, a luz veio junto. Quando chegaram a um passo de distância, Vivianne empurrou Thaila para ele. Em troca, Pierre lhe entregou as muletas.

Pierre pegou Thaila pelos ombros e por baixo dos joelhos, Thaila se enrolou contra o peito dele, afundou o rosto no pescoço dele. Chorou. Vivianne mancou o tempo todo ao lado de Pierre. Ela entregou uma das muletas a Coalim e segurou o pé de Thaila, dizendo coisas mansas. Rostos se viravam para vê-los passar, Vivianne ouviu soluços, mãos cobriram bocas. Pierre levou Thaila até a Pluma e carregou-a escada acima.

— Por aqui — Vivianne abriu a porta do próprio quarto.

Joanna os seguiu com água limpa e sabão. Pierre colocou Thaila na cama, Vivianne apertou-lhe o braço, agradeceu. Naquele momento ela se sentia mais agradecida do que quando acordou e descobriu que Pierre tinha salvado sua vida. Ela não entendeu por que, mas decidiu pensar nisso mais tarde. Pediu que ele chamasse a Mestra Curandeira, então voltou para dentro do quarto para ajudar Joanna.

Prepararam um banho e uma sopa. Thaila já estava limpa, de cabelos lavados e uma camisola de algodão quando Pierre chegou com Marie. Vivianne então saiu do quarto para dar espaço à Mestra Curandeira e também a Thaila, que se submeteu à limpeza e à alimentação sem agir ou reagir. Fez só uma pergunta:

— Meu pai?

— No quarto ao lado — disse Joanna. — Está dormindo.

Thaila moveu os lábios mais uma vez e Vivianne pensou que ela talvez tivesse dito ou perguntado: — Vivo?

No corredor, o resto do mundo aos poucos chegou até Vivianne no som de vozes que ela não tinha ouvido quando estava cuidando de Thaila. O sofrimento daquela mulher anulava o resto do mundo, do mesmo jeito que a dor na perna de Vivianne apagou tudo exceto Pierre. Ela ainda não conseguia explicar direito o fenômeno, ainda mais porque agora a perna não doía tanto e lá estava Pierre, nítido no corredor em sombras como se uma lâmpada estivesse acesa atrás dele. As sombras tinham cor púrpura.

— Obrigada — Vivianne disse.

— Você que fez tudo — ele disse.

Porque você estava lá, ela pensou. Ela estava começando a entender o que Líran falava sobre o poder de Pierre, o poder da história. Ele era uma quebra, um rasgo no manto de trevas que cobria a Franária. Através de Pierre tudo podia acontecer.


Capítulo 68