A Boca da Guerra

Capítulo 50: Lecoeurge – Dragões na Pluma

A multidão na Pluma se movia em correntezas. Lecoeurge notou um padrão no movimento e, seguindo o padrão, encontrou o olho do furacão. Pierre. Líran passou por Lecoeurge como brisa púrpura e, de repente, estava li em pé sobre uma mesa, atiçando o fogo com a voz, adensando o vinho. Ela perguntou se eles gostariam de ouvir uma história e todos responderam em lilaz. Então Líran moldou o silêncio em lenda.

A voz púrpura transportou Lecoeurge para um tempo em que os elfos ainda eram vivos. Um deles se chamava Luikin. Tinha cabelos cor de lua, olhos cor de mar tropical. Lecoeurge viu Luikin em pé na sombra de uma árvore antiga. A seus pés se estendia Rênuni, e Luikin olhava o reino dos elfos e o mar além dele sem perceber sua beleza. Luikin queria poder.

Lecoeurge se encolheu quando Líran descreveu o peso do poder que Luikin desejava. Ao mesmo tempo, ele entendeu. Com aquele tipo de poder, Lecoeurge conquistaria a Franária, o mundo. Teria braços.

O elfo Luikin não era mago nem mistério, então ele se voltou à feitiçaria. Isso foi mil anos antes de Sátiron, antes da invenção da feitiçaria satironesa, que não precisava matar, que não precisava usurpar. A feitiçaria de Luikin foi crua, rude, cruel. Ele assassinou um unicórnio, roubou-lhe o chifre. A voz púrpura desenhou a textura mágica na mão de Lecoeurge. A sensação carregou Lecoeurge para um tempo em que ele tinha braços e podia sentir nos dedos a textura de seu chapéu roxo feito à mão em Sejo Tíen.

Dragões invadiram a lembrança de Lecoeurge. O elfo Luikin havia criado uma revoada de dragões de trevas. Eles tomaram o céu, esconderam o sol. Teve início a Era Negra. No entanto, Lecoeurge não teve medo. Ele havia se lembrado do sabor do feltro na palma da mão e continuou vivendo a memória do dia em que o ganhou, da doçura dos dedos que lhe deram o chapéu, os mesmos dedos que colheram a primeira margarida a enfeitar a lateral do chapéu.

Tão doces.

Líran continuou sua história. Na crista da onda de treva e horror, sentava-se o elfo. Seu cabelo tinha a cor do esquecimento, seus olhos eram azuis como o desespero. Ele estava perdendo sua cor, dissolvendo-se nas trevas, mais leve que cinzas ao vento. Dormir para ele já não significava descanso, muito menos sonhos. Cada vez que Luikin acordava, ele estava um pouco mais transparente.

A voz de Líran era um nevoeiro.

Houve um distúrbio. O mar de trevas se arrepiou. Luikin acordou. Seus dragões haviam fugido, uma montanha que ele não lembrava ter visto tapava o céu. Havia um elfo. Olhos escuros, cabelos cor de noite. Lecoeurge levou um susto. Reconheceu o Vulto de Lune na voz de Líran. Pela primeira vez ele viu seu rosto, tal como foi. Como podia a voz de Líran revelar o que não existia?

(E no entanto não estavam ali seus braços, suas mãos e as outras mãos que seu chapéu amou?)

Luikin descarregou em Sáeril todo o poder que tinha, mas Luikin era apenas feiticeiro, enquanto Sáeril era magia verdadeira. Luikin riscava um fósforo, Sáeril era o fogo. Mas Sáeril nada fez, não precisou. A montanha que Luikin não lembrava de ter visto se moveu. Lecoeurge abriu a boca horrorizada. Viu as garras gigantescas que pegaram Luikin com delicadeza assustadora. Asas do tamanho de montanhas se abriram. O que restava do céu sumiu. De cada asa nasceu um furacão e o dragão negro desapareceu. Era dia.

Sáeril caçou os dragões de Luikin. Lutou contra as trevas com todo o seu poder. Então um dia Yukari Nakamura trouxe Sátiron para o seu lado. Foi o fim da Era Negra.

Líran sentou-se. Deixou o silêncio escoar no rastro de sua voz. Então um homem bateu com o copo na mesa.

— Eles voltaram — gritou. — Os dragões de Luikin estão de volta. Já destruíram Fabec. É uma nova Era Negra que começa.

A Pluma começou a dançar de um lado a outro feito água carregada em balde, mas Pierre subiu no balcão e a Pluma se aquietou.

— Vocês acham que o dragão é o problema da Franária? — ele puxou a espada da bainha. Um movimento lento, estranhamente ameaçador. — Nós marcamos fronteiras onde nenhuma existia. — Deu dois golpes no barril de cerveja ao seu lado. Líquido borbulhante correu pela rachadura. — A Franária está ferida e as trevas a infectam como pus. Cure a ferida e o pus desaparece. Enquanto isso, a Franária morre.

E o barril continuou a sangrar.

Lecoeurge perdeu a textura do chapéu e as mãos que num dia de primavera colheram a primeira margarida.

Líran se afastou em direção à escada. Examinava as próprias mãos com estranheza e só então Lecoeurge percebeu que ela havia se transformado. A pele negra havia dado lugar a uma pele pálida, esverdeada na luz das velas, o contorno do rosto estava mais esguio, o queixo mais fino, os cabelos pareciam macios como folhas de samambaia. As orelhas pequenas afinaram e os olhos escureceram como a parte debaixo de uma vitória régia.

Pierre e Joanna se colocaram entre ela e a multidão que, ainda arrebatada em púrpura, não havia notado a mudança.

— O que aconteceu com seu corpo? — perguntou Pierre.

— Sou mortal — disse Líran, — mas ainda não sei que tipo de mortal.

— Elfos são mortais? — perguntou Joanna.

— Tanto eram que morreram — disse Pierre.

— Todos não — Lecoeurge disse. — Sáeril Quepentorne ainda vive.

— Mas deixou de ser elfo — disse Líran. Ela subiu e se fechou em seu quarto. No dia seguinte, ela voltou a ser negra.


Capítulo 51