A Boca da Guerra

Capítulo 49: Coalim e o rei Clément

Coalim sempre soube servir. Nasceu discreto, não chorava no orfanato. Sua voz raramente saía de seu esconderijo atrás da faringe, seus movimentos suaves não incomodavam o ambiente. Coalim era um móvel autônomo, uma espécie de mesa que se movia sozinha. Até o dia em que Clément disse:

— Experimente — e estendeu um garfo com um pedaço de torta.

Coalim demorou a reagir e Clément abriu a própria boca:

— Faça aaaaaaah.

Coalim obedeceu e o pedaço de torta encontrou sua língua. Ele amassou a torta entre língua e céu da boca. Era feita de creme suave, não muito doce, e frutinhas que Coalim reconheceu como as framboesas selvagens que cresciam na encosta da montanha. O rei Clément tinha olhos muito claros emoldurados em pele tão lisa que parecia não ter poros.

— Então? — perguntou o rei.

— Parece porcelana — disse Coalim.

— O creme?

Clément pegou mais uma garfada da torta e colocou na própria boca. Jogou os lábios para um lado e outro, lábios finos, macios, molhados.

— Doce — disse Coalim.

— Não doce demais, eu espero — disse o rei. Ele lambeu os cantos da boca com a ponta da língua.

— Framboesas.

— Eu as colhi nas escarpas. As escarpas são o único lugar em Deran onde se pode ficar sozinho um momento. Vivianne me ensinou a escalar, sabe?

Coalim sabia. Ele também escalava a montanha, então ficava olhando Clément subir a rocha, pensando naqueles dedos finos, no suor escorrendo pelas têmporas.

— A torta está boa — ele disse e se afastou.


Capítulo 50