A Boca da Guerra

Capítulo 47: Maëlle e o Eslariano – Encruzilhada

Na divisa entre Deran e Baynard, o Eslariano parou de andar e secou o suor do rosto.

— Você não está forte o bastante para viajar sozinho — disse Maëlle.

— Não importa.

— Deixe-me ir com você.

— Não. Se Thaila estiver em Debur, preciso que você a encontre. Por favor, salve minha filha. É culpa minha. Eu devia... Eu devia...

Maëlle colocou a mão no ombro dele.

— Nós dois perdemos nossos filhos — ela disse — mas não podemos nos culpar.

— Você não entende. A culpa é minha. Eu fui egoísta, sou igual ao Olivier.

— Impossível. Ele roubou sua filha!

— Eu também — disse o Eslariano.

Maëlle colocou a mão na testa dele, mas ele não estava com febre.

— Não estou delirando — ele disse. — Na Eslarina, uma criança não pode crescer sem a influência de alguém de seu próprio sexo. Por lei, um menino tem de ter pelo menos um homem na família e uma menina precisa de pelo menos uma mulher.

O Eslariano secou mais uma vez o suor da testa.

— Minha esposa morreu e eu não tenho irmãs. Eles iam tirar Thaila de mim. Eu raptei minha própria filha e fugi. Não tinha dinheiro para chegar ao Anjário, mesmo assim escolhi trazer minha filha para esta Franária quebrada, para esta Guerra.

Ele continuou com a boca aberta, querendo falar mais, mas ao invés disso começou a chorar.

Em que mundo onde temos de raptar nossas próprias filhas para poder ficar com elas? Pensou Maëlle.

— Nós vamos encontrar Thaila — ela disse. Eles dois já tinham perdido gente demais. Chega.

Eles se despediram. Maëlle seguiu leste em direção a Debur, o Eslariano foi para o sul, para Tuen.


Capítulo 48