A Boca da Guerra

Capítulo 36: Neville – Silêncio branco

A marcha até as minas de Anuré foi mais fácil e mais sinistra do que seguir as trilhas tortuosas da Fronteira. Neville e seus homens tiveram de se abrigar na floresta, encostados a troncos maciços, contra duas tormentas que o inverno colocou em seu caminho. Ainda assim, nenhum homem morreu. As trevas que tornavam mais fatais as lâminas dos baynardianos, protegia eles contra as tormentas, sufocava a natureza.

Os soldados de Anuré, como os de Lencon, despencaram como pétalas de flor em tempestade. Já há algum tempo Neville enxergava as mortes como pétalas, porque choviam e, de certa forma, eram lindas. Entre morte e cinza, ao menos a morte fazia sentido. Anuré não fez sentido. Pétalas vermelhas tornaram a rocha escorregadia, então veio o silêncio. O silêncio raso de Maëlle saindo das minas, engolindo com a vista todos os soldados mortos espalhados pela rocha cinza como capachos descartados. Ela não enxergava flores. O silêncio abatido do Eslariano, com as mãos fortes de fazer pão mastigadas pela rocha de Anuré. O silêncio branco com que o Eslariano e Maëlle se recusaram a seguir Neville e deixar para trás os outros quarenta e três escravos.

— Vão morrer pelo caminho — disse Neville. Era desculpa. Sete anos antes, Neville não teria pensado em abandonar aquelas pessoas. Robert estava certo: Neville estava doente da alma.

O Eslariano puxou para fora das minas outro escravo, um esqueleto coberto de pele gasta. O esqueleto arregalou os olhos e Neville sentiu outro silêncio chocar-se com o esqueleto arregalado: o de seus próprios soldados vendo pela primeira vez uma crueldade sem sangue, que esmagou devagar aquele homem e comeu a carne que devia existir entre a pele e o osso. A morte dilacerada de soldados na Boca da Guerra era rotina, aquele esqueleto vivo era terror.

Neville encontrou as carroças que transportaram os escravos de Lencon a Anuré e usou-as para trasportar os desessete mais fracos, entre eles o esqueleto. Os outros, inclusive o Eslariano e Maëlle, tiveram de marchar.

O silêncio entre Neville, o Eslariano e Maëlle. Quase uma barreira geográfica de culpa entre os dois rebeldes e aquele que ainda servia Henrique de Baynard. Culpa de Neville por ter-se ausentado durante sete anos; culpa de Maëlle e do padeiro por terem, de certa forma, traído Neville com seu silêncio sobre a revolução. Um queria proteger os dois que queriam salvar o um.

Durante a marcha foi nascendo um novo tipo de silêncio intrigado, desnorteado, triste, mas de uma tristeza inexplicável, nascida da sensação de se ter perdido algo sem saber bem o quê. A razão desse silêncio eram os escravos: uns de Patire, outros de Baynard, alguns até de Deran.

— Eu não entendo — disse Manó. — Anuré fica em Patire. Devia ter prisioneiros só de Patire.

— Deran e Baynard vendem seus prisioneiros para Patire — disse Maëlle.

E a voz ossuda do Esqueleto serrilhou:

— Na escravidão somos todos franeses.

O silêncio que se seguiu também era franês.


Capítulo 37