A Boca da Guerra

Capítulo 25: Frederico – Aspirações de uma Velha sem voz

— A chave grande — disse Frederico, debruçado sobre a haste de conexão entre as duas máquinas da locomotiva.

Menior pegou a chave da caixa de ferramentas e colocou na mão estendida de Frederico. Menior e Frederico se encontraram por acidente, pois o príncipe chegou três dias antes do que havia combinado com a Velha. Três coisas o impeliram a sair de Beloú antes do tempo:

1. Faust precisava de espaço;

2. Frederico teve a ideia de usar sua antiga armadura, aquela que um dia foi grande demais para ele, para substituir a parte enferrujada na carcaça da caldeira;

3. aquela coisa cinza que habitava o outro lado da muralha e não deixava Frederico dormir.

Menior parecia indeciso se dizia coisas na frente de Frederico. Ele passava a mão pela careca, então alisava a barba crespa. Frederico fingiu estar concentrado no Eliana, mas as orelhas ficaram antenadas no cavaleiro negro.

— Continue — disse a Velha a Menior. — Você dizia que o rei Henrique parou de mandar soldados a Fabec.

Na pausa que se seguiu, Frederico imaginou Menior passando a mão pela careca.

— Deixe que ele ouça — disse a Velha. — Já é hora de Frederico saber o que anda acontecendo pela Franária.

Frederico continou consertando peças, mas fazia os movimentos bem devagar, para que o barulho não o impedisse de ouvir Menior.

— A revolução em Debur continua — disse o cavaleiro barbudo, que Frederico secretamente chamava “Mensageiro”, igual aos Mensageiros de Sátiron.

— Já é o terceiro ano — disse a Velha.

— Henrique está apavorado e mandou o exército para as ruas de Debur.

Frederico saiu de debaixo da locomotiva.

— O rei mandou o exército contra o próprio povo? — perguntou.

— E o exército se dividiu — continuou Menior. — Parte continua fiel ao capitão Neville, mesmo na ausência dele. Parte obedece ao rei. E tem uma terceira parcela que não sabe exatamente o que fazer. Debur é palco de escaramuças, emboscadas de pequenas milícias. E Henrique continua empoleirado no Esmeralda.

Frederico se levantou. Menior e a Velha discutiam a Franária como se não fizessem parte dela. Ele queria que os dois fizessem alguma coisa, que terminassem a guerra e reunificassem a Franária. Eles tinham poder, eles tinham cor.

— O que vocês vão fazer a respeito? — ele perguntou.

— Nós estamos educando você — disse a Velha.

— Eu?

A Velha abraçou o livro azul de Sátiron.

— Frederico, você é tão grande — ela disse. — A verdade é que é grande demais. Nós tentando salvar a Franária e você reconstruindo uma locomotiva Stanton. Talvez um dia você encontre Sátiron. Enquanto isso, a Franária definha.

Frederico ficou abalado. O que a Velha queria dele? Se não fosse para sonhar, para quê apresentar-lhe a uma locomotiva Stanton, segunda geração? Para que alimentar seu coração com tantos livros? Ele quis interrogar a Velha, mas ela adormeceu abraçada ao livro azul, o favorito e o único que ela não sabia ler.

— O que ela quis dizer com isso? — ele perguntou a Menior.

— Meu papel é só relatar — disse o mensageiro, entregando a Frederico um novo livro sobre engenharia.

— O papel de ninguém é só relatar — disse o príncipe.

Menior congelou, o livro ainda no ar.

— Se você relatar e eu não entender — disse Frederico — então o seu papel é explicar. A comunicação não acontece quando a mensagem é entregue; a comunicação acontece quando a mensagem é apreendida.

— Ela viu em você uma oportunidade — disse o mensageiro após um instante. — Você quebrou a constante de reis, soldados, morte. Ela pensou que, se você fosse devidamente educado, poderia mudar o futuro de Patire e possivelmente da Franária.

Frederico, mudar qualquer coisa? Ele, uma oportunidade? Tudo o que ele desejava era passar o resto da vida estudando o Eliana. Pegou o livro de Menior e estendeu-lhe um pedaço de papel.

— Você pode entregar a lista a Rimbaud quando cruzar com a caravana? Diga-lhe para me trazer esses materiais na próxima vez que for a Beloú.

— O que é este desenho? — Menior apontou para uma espécie de cilindro com abertura para um cano.

— Acho que se chama cruzeta — disse Frederico — e deve ligar o pistão a esta grande parte de metal que faz girar a roda principal de tração.

— Como se chama a grande haste de metal?

— Não sei. O último livro que você me trouxe está em anjariano.

Menior partiu e Frederico ajoelhou-se ao lado da Velha. Então, ela tinha um plano para ele. Achou que, por ser um príncipe de Patire, Frederico tinha alguma voz no futuro da Guerra.

— Eu não tenho voz, — ele disse, — só pesadelos.


Capítulo 26