A Boca da Guerra

Capítulo 24: Manó – O julgado

Um soldado sozinho chegou a Fabec vindo de Debur. Ele tinha um corte na testa que ainda não havia terminado de cicatrizar. O soldado se chamava Manó.

Dois tipos de gente eram mandados a Fabec: os sorteados e os julgados. Os reis e rainhas anteriores a Henrique enforcavam e esquartejavam em praça pública, mas Henrique não gostava de violência, do fedor dos corpos, dos abutres. Além disso, Maëlle disse que a pena de morte tinha sido extinta por Sátiron, antes da Guerra. Então Henrique fez um discurso comovente sobre os valores satironeses, sobre evolução e humanidade. Mas ele não extinguiu a pena de morte; ele simplesmente lhe deu outro nome: A Boca da Guerra. Os condenados por crimes hediondos eram enviados a Fabec para morrer na Boca.

Manó atravessou os portões de Fabec e foi levado à Casa Quadrada, onde o capitão Neville tinha um escritório pequeno e limpo, com escrivaninha, duas cadeiras e uma janela por onde entrava um filete de luz cinza que não se dispersava, mas caía em bloco no chão de tábuas. Manó foi um dos treze recrutas que se ajoelharam no pátio do Esmeralda junto com Neville e Robert no dia em que o dragão verde de Lecoeurge ficou vermelho na Tenda dos Artistas. Manó também estava na plateia naquele dia. Ele viu o dragão mudar de cor. Não foi de repente, como um raio que rasga o céu sem mudar nada, mas também não foi lento como uma troca de roupa. O dragão mudou de cor como se Manó tivesse erguido uma lente colorida na frente de um olho e fechado o outro. O dragão foi a coisa óbvia, impossível de notar, mas o mundo inteiro ficou atrás daquela lente.

Continuava assim até hoje. Manó sabia, como todo mundo sabia, que magia tinha acontecido ali. Ele saiu da Tenda dos Artistas com pernas moles, pés que não acreditavam na solidez do chão em que pisavam. Mais de uma vez Manó se perguntou se a Terra dos Banidos não foi uma bênção, se o fim de toda aquela tecnologia feiticeira não foi um tipo de salvação. As coisas terríveis que podiam acontecer: olhe só para Leonard Acidentado. Quatrocentos anos depois do fim da feitiçaria alguém ainda levava sequelas de um acidente acontecido a um antepassado.

Manó ficou em posição de sentido. O capitão Neville estava dentro do bloco de luz cinza, as paredes atrás dele tinham descansos para tochas, mas do teto pendia um intricado lustre de ferro com buracos rosqueados para lâmpadas. Havia até uma lâmpada coberta de pó mais cinza do que a luz da Boca da Guerra.

Quando Manó entrou no escritório, percebeu surpresa no capitão. Foi uma surpresa momentânea, pela qual Manó sentiu uma pontada de gratidão. Neville não achava ele capaz de cometer um crime hediondo. Manó pensou em não mostrar a carta de Henrique, fingir que ela havia se extraviado, levada embora pelo vento, mas Neville estendeu a mão e Manó entregou o pedaço de papel com sua condenação.

No papel estava escrito apenas que Manó tinha sido julgado e condenado pela morte de treze civis. A carta dizia que a culpa era dele, mas não contava o que tinha acontecido; não contava dos panfletos que surgiram depois que Neville foi embora. Grudados em paredes e vigas, correndo as ruelas feito ratos procurando sombra. Manó pegou um deles, mas não sabia ler. Ele procurou um dos soldados letrados, Robert, que reuniu todos os guerreiros curiosos e traduziu o panfleto. As letras grandes e vermelhas diziam, ‘HENRIQUE TRAIDOR’. As pequenas contavam que o rei havia traído seu antigo capitão, revelando seus planos a Patire. Mais do que isso, o panfleto dizia quais eram esses planos. Até então, ninguém sabia direito o que havia acontecido na Batalha da Ponte, onde o pai de Neville perdeu as pernas. O panfleto contava dos planos de invasão do capitão, de construir uma ponte até Patire, mas que Fulbert sabia sua localização.

— Boatos — gritaram uns.

— Verdades — gritaram outros.

Manó não sabia dizer se o panfleto era verdadeiro ou falso. Os fatos todos encaixavam e Henrique, quando soube o que os panfletos diziam, não saiu do Esmeralda por uma semana. Percorreu o espaço entre seu quarto e sua estufa, carregando o panfleto sempre consigo, embora ele também não soubesse ler. O que significava aquele silêncio? Culpa?

Finalmente, o rei mandou trazer Maëlle, a bibliotecária, para ser interrogada. Manó foi um dos soldados enviados para escoltar a mulher do capitão sem pernas. A escolta não era necessária. Maëlle até estranhou os soldados esperando por ela do lado de fora da biblioteca.

— Vocês acharam que eu ia fugir?

Em seguida, Henrique mandou chamar Olivier de Tuen. Ele esperou treze dias com Maëlle no Esmeralda, mas Olivier enviou uma mensagem escrita ao rei. Manó não sabia o que a mensagem dizia, pois Henrique não sabia ler e não pediu que ninguém lesse para ele. Ao menos não na frente de Manó nem de ninguém que Manó conhecesse.

O próprio Henrique interrogou Maëlle, mas não em público. A sala do trono do Esmeralda quase nunca era usada. Na verdade, ela era um relógio: um vão redondo e úmido no centro do castelo, com janelas finas e altas ao redor de toda a circunferência, capturando a trajetória do sol, cujos raios fatiados marcavam no chão a hora certa. A pedra desse relógio não era a mesa rocha verde trazida de Sátiron. A torre do relógio era mais antiga do que o Império e o Esmeralda foi construído ao redor dela, preservando tudo e com o cuidado de não fazer sombra. No centro desta torre colocaram um trono e lá se sentou Henrique no dia em que Maëlle foi interrogada. Manó e outros dois guardas a escoltavam.

Manó já havia testemunhado Olivier de Tuen interrogando prisioneiros. O manejo das palavras, a nuance no tom de voz, a complexidade e ambiguidade de cada frase. Manó se perdia em tudo aquilo e o interrogado também. Manó tinha a impressão de que o julgamento já havia acontecido dentro da cabeça de Olivier. Se ele tivesse julgado o prisioneiro inocente, o interrogatório levaria a isso. Se Olivier achasse que a pessoa era culpada, ele usava aquelas palavras mais afiadas que espadas e até o prisioneiro saía de lá acreditando na própria culpa.

Henrique perguntou apenas:

— Foi você?

E Maëlle disse:

— Não.

— Sabe quem foi?

— Não.

— Quem pode ter uma impressora? As máquinas todas morreram com Sátiron.

— Basta uma placa de madeira com as letras em alto relevo e muita paciência para imprimir tantos panfletos.

— O que devo fazer? — perguntou o rei.

Manó teve pouco contato com a bibliotecária porque não teve nenhum contato com livros, mas o pouco que ele havia visto dela foi diferente do que ele viu naquele dia, ela listrada em sol e sombra na frente de Henrique. Ela parecia... murcha.

— Você precisa falar com seu povo, Henrique. Eles precisam saber que sua gente importa mais do que suas flores. Você precisa prestar atenção.

Henrique escorregou um pouco no trono, apoiou a testa na mão. Maëlle continuou presa no Esmeralda por mais alguns dias, caso Olivier aparecesse, mas Henrique deixou-a em um dos quartos, não no calabouço. Manó não disse nada disso a Neville. O que ele contou foi sobre a outra mulher, a que trouxe a cadeira.

Pela estrada de Tuen veio a chuva e, com ela, uma mulher mais negra do que Maëlle. Sua pele tinha um tom azulado, seus cabelos crespos estavam cortados rentes ao crânio, os lábios protuberantes abriam-se para uma garganta vermelha de vingança. Ela entrou em Debur puxando uma cadeira pelo encosto, que deixou duas linhas desenhadas na estrada de terra. A chuva, ao invés de desfazer as linhas, escureceu-as.

A mulher passou na frente da padaria do Eslariano, que veio até a porta ver que barulho era aquele ra-ta-tac ra-ta-tac nos paralelepípedos de Debur. Até os portões do Esmeralda a mulher arrastou a cadeira. Ra-ta-tac ra-ta-tac. Então, ela apoiou os quatro pés da cadeira no chão e subiu.

— Meus filhos — gritou a mulher. — Henrique de Baynard, rei de flores, mas não de gente, onde estão meus filhos? Você os mandou para as trevas, é lá que estão. Sorteados para a morte. Um sorteio — ela gritou. — Um sorteio! E para quê? Para nada. Meus filhos morreram por flores. Mande suas flores para a Boca da Guerra. Vá você para a Boca da Guerra.

A mulher negra gritou e gritou. A chuva cinza, a mulher negra, a garganta vermelha. Pessoas pararam para ouvi-la. Ela gritava para o alto e para o rei, não para o povo, ainda assim as pessoas se juntaram aos pés da cadeira. Quando a chuva acabou, o espaço entre a padaria e o Esmeralda estava lotado.

Manó, de cima do muro, mandou que chamassem Henrique para apaziguar os ânimos. O rei não veio.

— Por quê? — perguntou Manó.

— Ele não disse — respondeu o soldado.

Manó tentou ele mesmo acalmar aquela mulher.

— Vão embora — fez o soldado. — Dispersem.

A mulher negra sobre a cadeira voltou a gritar. Que força tinha aquela garganta!

— Mortos por sorteio — ela disse. — Alimentando a Boca para Henrique plantar flores. Filhos meus, adubo nos jardins do Esmeralda.

Um homem ergueu o braço e gritou também:

— Minha irmã morreu em Fabec.

— Meu pai.

— Meu menino. Minha menina.

De repente, a multidão inteira começou a gritar. Já não se ouviam palavras, apenas um urro de mil vozes, todas gritando por mortos sorteados. Do outro lado da praça, o Eslariano fechou a porta e as janelas da padaria. Manó enviou outro soldado em busca do rei. Henrique precisava ser visto, precisava responder alguma coisa, qualquer coisa. Você precisa falar com seu povo, Maëlle disse e tinha razão. Mas o rei não veio.

Já não se via mais cadeira na praça, apenas uma mulher imponente, negra como a imperatriz de Sátiron, flutuando acima de todas as cabeças, uivando mortes com a placidez de uma profetiza.

— Mandei virem os arqueiros — Manó contou a Neville.

O Esmeralda, no passado, não tinha arqueiros. Foi Neville quem insistiu em que se treinasse um grupo, com arcos menores do que o dele, mais fáceis de manejar. Já que a autoridade real não aparecia, Manó iria apaziguar o povo com autoridade militar. A morte sempre acalma as pessoas.

A multidão, ao ver os arcos, calou-se um instante, mas logo voltou a gritar ainda mais alto, com mais raiva. Manó, no topo do portão, gritou de volta, mas nada se ouviu. Ele podia muito bem estar só mexendo a boca, sem dizer nada, que não faria diferença. Sua voz era uma gota contra a onda indignada de todos os que haviam perdido alguém para o sorteio de Henrique.

Alguém jogou uma pedra, que bateu contra o muro de pedra verde. Logo, milhares de pedras choveram contra o muro. Manó e os arqueiros estavam a salvo no topo, onde as pedras não alcançavam. Ele continuou gesticulando, ora de palma aberta, pedindo calma, ora com os punhos. Os arqueiros armaram os arcos, mas Manó fez sinal para que não atirassem.

A mulher da cadeira desamarrou a tira de pano que usava como cinta, dobrou-a em dois, segurando as pontas soltas com uma das mãos. Então, alojou uma pedra na dobra, rodou a cinta no ar e soltou uma das pontas. A pedra bateu na testa de Manó, que caiu de costas atrás da amurada.

— Foi então que aconteceu — disse Manó. — Não sei quem soltou a primeira flecha. Não faz diferença. Uma vez que a primeira flecha estava no ar, outras seguiram.

Quando deu por si, Manó ordenou que os arqueiros parassem. Na praça, já não havia ninguém. Manó desceu para ver se algum dos atingidos pelas flechas ainda vivia, se podia ser salvo. Do outro lado da praça, o Eslariano e a filha olhavam pela janela. Entre eles, havia treze mortos e uma cadeira. Manó se ajoelhou ao lado de um corpo ao pé da cadeira e virou-o para ver o rosto. Não era a mulher de Tuen.

— O que foi que eu fiz? — ele perguntou. Então, para Neville, — Eu me responsabilizei pelas mortes.

— Você estava no comando — disse Neville. — A responsabilidade é sua.

Houve uma pausa. Uma gota escorreu pela rosto de Manó. Suor ou sangue do ferimento na testa?

— O rei — disse Neville.

Manó não sabia exatamente o que o capitão estava perguntando. No dia seguinte ao do julgamente, Robert foi até a cela de Manó. Um novo panfleto havia inundado as ruelas de Debur e Robert leu para ele:

MANÓ É JULGADO E CONDENADO, MAS ONDE ESTAVA O REI HENRIQUE?

Estaria Neville se perguntando a mesma coisa? Manó disse apenas:

— O rei.

Outros tinham visitado Manó na prisão. Muitos. Manó não sabia que tinha tantos amigos, provavelmente não tinha. Provavelmente era Henrique quem tinha inimigos.

Neville se levantou e Manó enrijeceu os braços ao longo do corpo.

— Fabec não é a pena de morte — disse o capitão. — Você vai viver, você vai lutar e expiar seu crime.

— Eu vou resistir — murmurou Manó.

Neville ergueu as sobrancelhas à escolha da palavra resistir, mas dispentou Manó sem discutir. Uma das pessoas que visitou o soldado na prisão foi Thaila, filha do padeiro Eslariano. Manó pensou ter visto uma mancha vermelha na blusa dela. Podia ser geleia de morango, podia ser tinta. Ela escondeu a mancha com a jaqueta.

— Resista — ela disse. — Viva.

Manó saíu, Neville fechou a porta e voltou a se sentar à escrivaninha.

— O rei — havia dito Manó. O tom de voz lembrou o pai de Neville dizendo aquelas mesmas palavras anos atrás. Neville não soube interpretar aquele rei do pai e teve medo de interpretar este rei de Manó. Ele se perguntou quem tinha começado com os panfletos. Sua mãe, depois de todo aquele discurso sobre bushido? Robert e Thaila? Não fazia diferença. O caminho que eles escolhessem era deles para seguir. Neville pertencia a Fabec.


Capítulo 25


Olá a todos. Este provavelmente será o último capítulo que vou publicar em 2017. Vou tentar colocar mais um antes do Natal, mas as coisas estão um pouco corridas - nem tive tempo de fazer uma ilustração para este capítulo, por isso estou usando esta imagem do Nuille pulando do nariz da Lucille. Esses dois têm um papel pequeno neste livro, mas eu adoro eles.