A Boca da Guerra

Capítulo 23: Neville – A Boca da Guerra

Neville mandou que fizessem novas portas para a Casa Quadrada de Fabec. Ele mesmo ajudou a fazê-las, usando o pouco conhecimento que havia adquirido de observar o pai nos fundos da casa na colina.

As pessoas estranharam da mesma forma que estranhariam se Neville escovasse os dentes de um defunto. Estranharam, mas obedeceram. Neville viu nisso um sinal positivo. Fabec ainda estava viva o bastante para obedecer ordens.

Neville mandou fazer alvos e preparou uma área aos pés da muralha para treinar arqueiros. Ele mesmo treinava ali todas as manhãs. Fazia frio perto da muralha que separava Fabec da Boca da Guerra. Thaila havia dito que a névoa cinza roubava calor. Em Fabec havia mais cinza do que em Debur. Neville finalmente entendeu as cores da mãe. Ele não as percebeu em Fulion ou nos outros lugares que Maëlle havia mencionado, mas a ausência delas ocupava Fabec. Um cinza intrínseco roubava a luz das pupilas daquela gente.

Minha gente, pensou Neville.

Ele montou grupos de batedores. Ele mesmo, logo no primeiro dia, antes mesmo de o capitão anterior ser enterrado de olhos abertos, chamou o Cabeça de Couro e dois dos homens que havia trazido consigo de Debur para ir até o vale, fazer um primeiro reconhecimento de terreno.

Cabeça de Couro abriu o portão. Neville passou a chamá-lo assim, pois o homem ficou tão espantado com todas as coisas que Neville fazia, aquela onda de movimento, de ação, de decisões, de calcanhares militares batendo em ritmo sobre os mosaicos quebrados, que esqueceu-se de se apresentar, mesmo quando Neville perguntou seu nome. Há quanto tempo Fabec estava naquele estado dormente, entre a insônia e a morte?

Neville foi o primeiro a pisar do lado de fora do portão. O chão de Fabec escapava pelo vão, mas logo desaparecia sob um tapete de cinzas. A Boca da Guerra lembrava um cinzeiro gigante, só que o cheiro era mais doce, quase meloso, de flores. Neville se agaixou para pegar uma coisa esbranquiçada afundada nas cinzas. Lisa e fria, aquilo era uma tíbia. Ao invés de restos de cigarro ou de madeira queimada, ossos protuberavam do mar de cinzas, mesmo ali, nos pés da muralha, nos portões de Fabec.

— Houve uma batalha recente aqui? — perguntou Neville. Ele estudou os portões em busca de danos, as muralhas em busca de evidências.

— Não — disse Cabeça de Couro.

— Então o que fazem estes ossos aqui?

— Eles vêm. A gente aqui às vezes ouve, especialmente no escuro, as marés cinzentas.

— O que causa essas marés? — perguntou Neville.

— Trevas.

Neville jogou a tíbia no chão e bateu as mãos para se livrar do pó, mas o cinza ficou preso nas linhas de suas digitais, nas dobras dos dedos.

— Mostre-me o vale — ele disse.

Cabeça de Couro avançou e Neville caminhou ao seu lado. Os outros dois soldados vieram atrás, agarrados às lanças, joelhos dobrados, defensivos. Neville sabia que estava sendo observado. Havia mais urubus nas muralhas do que apenas os sentinelas. Gente, ele se corrigiu. Não urubus: gente.

De Fabec não era possível ver Beloú inteira, muito menos Sananssau. Na época em que as cidades foram construídas, ninguém imaginava que elas um dia seriam a linha de frente de uma guerra civil. Elas não foram feitas para manter umas às outras sob vigília. Surgiram por causa do progresso, não da guerra. Neville às vezes tentava imaginar o que foi aquele mundo imperial. Gostava de acreditar que as estradas, naquele tempo, não tinham buracos.

Junto com Cabeça de Couro, Neville percorreu o vale ao redor de Fabec. Ele sugeriu pontos de observação, onde devesse ficar pelo menos um vigia, sempre atento a movimento vindo de Beloú ou de Sananssau.

— Mesmo Sananssau? — perguntou Cabeça de Couro. — Deran nunca ataca ninguém.

— Há algum tempo Farheim e Inlang não invadem Deran — disse Neville. — É possível que eles se sintam seguros agora para participar mais ativamente na Guerra Civil. Vamos vigiar.

— Sempre? — perguntou Cabeça de Couro. — A gente aqui às vezes tem medo d—

— De tudo! — disse Neville. — Sananssau e Beloú são nossos inimigos e precisam ser vigiados. A gente aqui consegue cumprir uma ordem?

Cabeça de Couro se endireitou.

— Sim, senhor.

De onde estavam, Neville podia ver claramente Beloú, mas não Fabec. No entanto, Neville ainda se sentia observado. Uma curiosidade cinzenta pairava sobre sua cabeça, enrolando ainda mais os cabelos crespos de seu couro cabeludo. Ele se conteve para não olhar por cima do ombro, ou demonstrar qualquer sinal que pudesse ser interpretado como receio. Fabec precisava de coragem, de honra. Homens honrados jamais se deixariam decair até aquele estado, mesmo mergulhados em cinzas. Honra, se Neville conseguisse incutir um pouco naquela gente, manteria Fabec em pé.

— Construiremos um posto de vigília aqui — ele desenhou com a ponta do pé um círculo no chão. — Com uma pira que possa ser acesa como aviso de perigo.

Alguma coisa fungou no pescoço de Neville. Ele conseguiu se manter imóvel, pois não havia nada ali, nem homem, nem criatura, perto o suficiente para cheirar Neville. Se ele pulasse de susto, o “Sim, senhor” de Cabeça de Couro perderia qualquer significado, se é que tinha algum. Devagar, Neville se voltou. Nada. No vale, só havia morte e cinzas.

E trevas.


Capítulo 24