A Boca da Guerra

Capítulo 19: Vivianne – Primeiro amor

Vivianne foi buscar as coisas dela no acampamento. Marcus nunca se hospedava na Pedra porque jamais abriria os portões de Lune para Adelaide novamente. Lune dava as boas vindas a Clément apenas. E Vivianne gostava de ficar na Pedra porque a Pedra ainda era em grande parte território inexplorado. Desta vez, ela pretendia ficar com Marcus no acampamento ao pé da montanha por causa da raiva que sentiu de Clément após a vila dos mortos. Mas, Você gritou, e eles eram melhores amigos outra vez.

Clément esperou na montanha, logo antes de rocha virar grama. Era abrupta a mudança na Pedra. Um passo pedra preta, o pé seguinte macio verde.

— Não gosto do jeito como Marcus olha para mim — disse o príncipe. — Eu me sinto uma minhoca.

— Minhocas são mais úteis do que Clément de Deran — disse Marcus quando Vivianne contou para ele por que o príncipe havia ficado na montanha. — Minhocas não têm medo de descer montanhas.

Vivianne voltou para a Pedra com sua mochila e uma lista de compras que Marcus lhe entregou. A Caravana de Rimbaud estava na Pedra e Marcus havia feito algumas encomendas. Mais tarde, Rimbaud iria a Lune, mas Marcus e Vivianne chegariam lá muito antes dele e Marcus podia carregar as próprias encomendas. Ele só não queria respirar o mesmo ar daquela rainha.

Para Vivianne, o dia em que Adelaide visitou Lune era mais dor do que raiva. Ela era pequena demais para perceber o perigo, para entender o significado daquela rainha pisando em Lune. Lembrava-se de um certo alívio, da sensação de segurança quando o Vulto envolveu Lune em sua sombra, mas não sabia alívio de quê, segurança contra o quê. Aquele dia para Vivianne era mais uma perda do que atrito. Até hoje ela ainda tinha mania de deixar portas abertas, o que irritava Marcus porque Lune tinha vento e as portas batiam. Ela não fazia isso de forma consciente, mas alguma coisa dentro dela evitava fechar portas porque achava que alguém estava lá fora tentando voltar para casa.

Quando Vivianne se afastou do irmão, com sua mochila e a lista de compras, ouviu Ernest, um soldado migrado de Patire, perguntar a Marcus:

— Você não tem medo que Adelaide a tome como refém?

— Se a rainha fizer alguma coisa a Vivianne — disse Marcus — ela terá de se ver com o Vulto.

Clément se ofereceu para carregar a mochila de Vivianne, afinal, ele era o anfitrião, mas Vivianne era mais forte do que ele. Sempre seria. Eles deixaram as coisas no quarto de Clément. Quando estava na Pedra, Vivianne dividia o quarto com o príncipe. Ela pediu para ele segurar a lista de compras e arrumou as coisas em uma gaveta.

— Minha mãe disse que um dia vamos nos casar — ele disse enquanto ajudava ela a tirar as roupas da mochila.

Os dois fizeram cara de nojo e depois riram até perder o fôlego. Passaram o dia brincando de se dar as mãos e os braços e fingiram fazer compras juntos para o lar.

— Elmos e botas para os soldadso — disse Vivianne.

— Pão e manteiga para o café da manhã — disse Clément.

— Nós fazemos nosso próprio pão e manteiga — disse Vivianne.

— Em Lune, talvez, não na Pedra.

— Vamos morar em Lune.

— Vamos morar na Pedra.

E assim começou a primeira briga do casal.

A Caravana de Rimbaud ocupava todo o primeiro patamar da Pedra. O castelo era feito em blocos, como um bolo de vários andares. Cada bloco tinha uma área externa do lado interno de uma muralha. Ali ficavam casas, lojas, oficinas, mas a maioria estava abandonada, resquícios de um tempo em que a Franária ainda era inteira e fazia parte de um império. Somente o último bloco estava ocupado, inclusive o castelo. A parte externa da Pedra se comunicava com o resto da cidade e castelo através de um emaranhado de túneis que Vivianne mapeou dois anos antes.

O primeiro patamar era o mais amplo e dava mais espaço para a feira de Rimbaud. Os mercadores e artistas se abrigavam nas casas abandonadas e, pelo espaço de tempo que estavam ali, cobriam tudo de cor e barulho. Sempre havia um murmúrio subindo da feira como um perfume. Vivianne gostava mais da feira na Pedra. Lune não tinha todo aquele espaço, os túneis, os arcos de pedra, os trilhos abandonados, os esqueletos de iluminação agora pretejados pela fumaça das tochas que substituíram a feitiçaria.

Normalmente, em menos de uma hora Vivianne teria resolvido todas as encomendas de Marcus. A Caravana tinha lógica e Vivianne enxergava lógica. Mas hoje ela estava com Clément e Clément adorava se perder nas cores, nos sons, nos temperos, nos sabores estrangeiros que a Caravana trazia a Deran. Clément explorava sabores com a mesma paixão que Vivianne explorava arquiteturas, mas sem a mesma eficiência. Ele perdia tempo com coisas que já tinha visto, não reconhecia o que já havia explorado na última visita da caravana, se demorava em qualquer coisinha nova. Os temperos mais estranhos eram os que mais chamavam a atenção.

Por vezes, Vivianne deixava ele perdido em um aroma e ia tratar de algo que estava na lista de Marcus. O melhor, ela deixou para o fim. Havia uma parte da feira só com livros e mapas. Carroças que se desdobravam em estantes e estantes com livros e curiosidades em papel. A Caravana trazia plantas de castelos de todos os países, até mesmo de outros continentes. Vivianne deixou Clément em uma tenda de pimentas e foi até seu canto favorito da feira. Passou por um palhaço sem braços divulgando a Tenda dos Artistas. Vivianne não gostava de palhaçadas e não via graça em um homem sem braços. Ela pôs as mãos nos bolsos e se desviou dele.

O canto literário da Caravana de Rimbaud sempre se isolava do resto da feira, formando um oásis de silêncio no centro das cores. Ali, os mercadores não abanavam suas mercadorias no nariz dos clientes, nem ninguém cantava ou chamava ou pechinchava. Ali, os vendedores se sentavam atrás de montanhas de livros e geralmente nem levantavam os olhos do que estavam lendo quando alguém se aproximava. Os compradores também se moviam em silêncio, se comunicavam por olhares mais do que por palavras.

Um cavalo bufou e Vivianne estranhou. Geralmente os animais da caravana ficavam em locais especiais, sempre longe das mercadorias. O cavalo que bufou não fazia parte da caravana. Era branco e preto e Vivianne se lembrava bem dele porque uma vez ele tinha mordido Marcus no cotovelo. Ele pertencia a uma mulher de rosto seco e cabelos moldados pelo vento. A mulher trabalhava com livros e conduzia muitos negócios com a caravana, mas não era membro da caravana. Vivianne não sabia onde ela morava ou mesmo se morava em algum lugar.

— Quieto, Mancha — disse a mulher ao cavalo, amaciando a ordem com um carinho da mão no focinho preto.

Ela voltou a conversar com um mercador cujas estantes estavam abarrotadas com pergaminhos. Vivianne passou bem longe do cavalo Mancha em direção a um mercador especializado em arquitetura. Uma lufada de vento eriçou as cores da caravana e arrancou um pergaminho da estante na frente do cavalo. A mulher livreira tentou agarrar o papel no ar, mas ele esvoaçou ao redor dela como um pássaro, se jogou ao chão e deslizou em direção a Vivianne.

A menina tirou as mãos do bolso para tentar segurar o pergaminho. Ela não foi rápida o suficiente, o pedaço de papel já estava se afastando quando ela tirou as mãos do bolso, mas no bolso de Vivianne estava uma pedra: o sapo e a raposa que ela pegou dentro do túnel. Quando ela tirou as mãos do bolso, a pedra caíu bem em cima do pergaminho, pregando ele ao chão. Vivianne pegou a pedra com uma mão e o papel com a outra.

A mulher do rosto seco (como era mesmo o nome dela?) já estava ao seu lado e o cavalo Mancha espiava por cima do ombro dela. Vivianne estendeu o pergaminho, mas a mulher pegou o pulso da mão direita de Vivianne e virou-o para ver o sapo e a raposa. Ela soltou a mão de Vivianne e se afastou em direção ao mercador.

— A menina vai ficar com o pergaminho — a livreira tinha voz rouca. — Eu vou pagar. Quanto é?

— Eu não quero isto — disse Vivianne.

— Não faz diferença — disse a livreira.

— Fulion — disse Vivianne. — Seu nome é Fulion.

Fulion entregou dinheiro ao mercador, que começou a contar o troco. Vivianne protestou um pouco mais, então desenrolou a pontinha do pergaminho. Ali havia um nome e diversos caracteres em uma língua de símbolos diferentes dos franeses. Vivianne conhecia aqueles símbolos. Eram os mesmos que decoravam as armaduras e escudos dos soldados de Inlang.

— Isto aqui foi feito em Inlang.

Fulion examinou o canto do papel com os caracteres estrangeiros.

— Foi.

— Eu não quero nada que venha de lá ou de Farheim.

— Não faz diferença o que você quer ou não — disse Fulion. Ela apontou para a pedra de Vivianne. — Está decidido. O pergaminho é seu.

Vivianne tentou empurrar o papel para Fulion, mas Mancha avançou e quase mordeu a mão dela. Depois, Vivianne tentou devolver o pergaminho para o mercador, que de de ombros, sacudiu a cabeça e voltou a ler. Vivianne então jogou o papel para o vento. Foi o vento que trouxe o mapa maldito para ela, que o vento se livrasse dele.

Naquela noite, quando Vivianne e Clément se recolheram, encontraram o pergaminho no chão do quarto.

— Olha — disse Clément. — Deve ter sido trazido pelo vento.

Vivianne deixou o pergaminho para fora quando arrumou sua mochila na hora de voltar para Lune. Na noite seguinte, quando pararam para acampar, ela percebeu que alguém tinha colocado o pergaminho junto com as coisas dela. Uma boa pessoa, talvez Clément, que pensou que ela estava esquecendo alguma coisa.

Ela tentou jogar fora, mas sempre um soldado trazia de volta. Aquilo não era um pergaminho, era uma maldição. Vindo de Inlang, o que mais poderia ser?

Em Lune, ela tentou jogar o pergaminho ao fogo. O pergaminho fez uma trajetória elíptica até a lareira mas, no instante em que o fogo já esticava as línguas para o papel, o pergaminho deu um pinote no ar, voou por cima da cabeça de Vivianne e foi parar na mão do Vulto. Vivianne se aquietou, o fogo se encolheu.

— O que é isto? — perguntou o Vulto.

Ela contou.

— Você tem uma chance de ver o mundo através dos olhos de seu inimigo — disse o Vulto com sua voz de sombras. Ele devolveu o pergaminho para ela e se sentou ao fogo com um livro no colo.

Vivianne levou o pergaminho inimigo até o quarto, colocou-o no pé da cama e sentou-se à cabeceira, abraçada aos joelhos. Farheim e Inlang significavam vilas de mortos, vidas sem mães, pais que não voltavam.

Os poucos traços que Vivianne havia visto no pedacinho de pergaminho que ela desenrolou na Pedra tinham uma delicadeza que quase nenhum livro de Lune apresentava.

Farheim e Inlang eram o motivo de ela não cnoseguir fechar as portas de sua vida.

E se fosse lindo o que o pergaminho escondia? E se fosse o desenho mais bonito que Vivianne viu na vida? E se ela gostasse tanto daquele traço, que tentasse imitar? E se ela começasse a desenhar igual ao povo que matou seus pais?

Vivianne encostou o rosto nos joelhos e chorou. Seu choro não tinha voz, só suspiro. Ele não durou muito porque Vivianne não gostava de chorar. Ela entendia que seu corpo às vezes precisava liberar pressão, mas nada mudava quando ela chorava. Então ela dava espaço para as lágrimas, mas não se demorava nelas. Logo, ela levantou a cabeça e encontrou Marcus em pé ao pé da cama.

— A porta estava aberta — ele disse. — Você quer me contar?

Ela sacudiu a cabeça numa negativa.

— Você quer que eu vá embora?

Nova negativa. Marcus deu a volta na cama e foi se sentar na cabeceira com a irmã. Ele colocou o braço em volta dela. Vivianne sentiu o desconforto dele pelo modo como os músculos do peito e da barriga se retesaram. Marcus podia lidar com mortos e guerras, mas detestava tristezas. Ele nunca revelava as dele e tentava redirecionar as de Vivianne para o Vulto, mas se o Vulto não estava lá, ele não se desviava. Não deixava a irmã sem amparo.

— Eu estava lavando as roupas da viagem — ele disse — e encontrei isto no bolso da sua calça.

Ele estendeu para ela o pedaço de pedra esculpida com a raposa e o sapo. Vivianne abriu a mão e ele entregou a pedra para ela. O frio que escorreu pelas linhas da palma de Vivianne era vermelho cor de raposa. Um frio que fez cócegas e deu vontade de abrir todas as portas de Lune. Que estranha aquela pedra. Quem teria esculpido aquilo dentro de uma caverna?

Marcus percebeu que a irmã não precisava mais dele e se retirou. Ele deixou a porta aberta por uma fresta e seus passos perderam volume no corredor.

— É culpa sua — Vivianne disse para a pedra. Ela apontou o pergaminho — Você trouxe isto até mim.

O sapo, apesar de menor, pesava mais do que a raposa, mas a raposa parecia olhar diretamente para Vivianne. A escultura era delicada e detalhada. Os pelos pareciam reais e o sapo tinha o corpo liso. Qualquer coisa no ângulo das orelhas da raposa, na intensidade do focinho fez Vivianne apertar a pedra contra o peito.

— Você trouxe isto até mim — ela disse e esticou a mão para o pé da cama.

O pergaminho era um mapa. Com traços suaves de espessuras variadas, criando texturas ao mesmo tempo realistas e fantasmagóricas, a Onda se desdobrou sobre a cama de Vivianne. Ela reconheceu as nuances da rocha que dava para ver da janela de seu quarto em Lune e também as escarpas mais quebradiças da Onda perto da Pedra. Tudo aquilo, Vivianne conhecia. Mas o mapa revelava também a face norte da Onda. Vivianne apertou ainda mais a pedra contra o peito.

O norte da Onda era reto. Um abismo de cinco mil metros de altura, uma parede lisa inescalável, ou ao menos impossível de ser vencida a cavalo. Caminhos artificiais haviam sido içados ao longo do paredão e só assim era possível chegar ao lado de cá da cordilheira. No sul, havia diversas passagens para Farheim e Inlang descerem, mas no norte só havia três pequenas estradas que possibilitavam soldados e cavalos chegar ao topo.

Vivianne correu para o corredor, cruzou a biblioteca, desceu as escadas, atravessou Lune numa onda de portas abertas até a lavanderia onde o irmão esfregava as roupas.

— O que houve? — perguntou Marcus.

Vivianne mostrou o mapa para ele, apontou os três pontos de invasão. Marcus secou as mãos, pegou o mapa e foi procurar seu capitão. No dia seguinte, ele enviou vigias até os três pontos no topo da Onda. Mais tarde, ele construíu torres. A partir daquele moment, Farheim e Inlang não vieram mais a Deran.

As roupas que Marcus abandonou na lavanderia encolheram um pouco, mas ainda deu para usar. O mapa da Onda, em traços de Inlang, foi o primeiro amor de Vivianne.


Capítulo 20

Depois de muita procura, encontrei a Vivianne que eu quero desenhar.Depois de muita procura, encontrei a Vivianne que quero desenhar.