A Boca da Guerra

Capítulo 18: Vivianne – A vila dos mortos

Vivianne entrou sozinha no túnel. Príncipe Clément implorou que ela voltasse, mas Vivianne mergulhou na escuridão. Normalmente ela segurava a mão dele e carregava uma lanterna. Os dois gostavam de explorar a Pedra juntos. Ou melhor, Vivianne gostava de explorar e Clément gostava de ir com ela. O castelo real de Deran ficava na face sul de uma montanha negra, que destoava na paisagem deraniana, ondulante e verde, com cânions azulados e águas transparentes de tão geladas. Mesmo a Onda, muito mais alta que a Pedra, tinha um tom azul esbranquiçado, frio. Dava a impressão de ser delgada, apesar de Vivianne só enxergar uma face da cordilheira. Delgada e flexível, mas ao mesmo tempo inquebrável.

— Não me deixe aqui sozinho — chamou Clément.

Vivianne estava brava com ele. Eles brigaram tanto, que ela esqueceu de pegar uma lanterna. Ao invés disso, ela agarrou uma vassoura, arrancou o cabo e foi tateando com ele o chão na frente dela.

— Se a Pedra ajudasse a defender Deran de Farheim e Inlang — ela tinha gritado — menos gente morreria.

Ela e Marcus haviam feito a ronda pelas saias da Onda com duzentos soldados. Foi a primeira vez que Vivianne acompanhou o irmão. Lune era a única coisa defendendo a Franária do norte. Mas Deran era ampla e a Onda tinha milhares de veios por onde invasores nórdicos podiam descer até as ondulações verdes entre a Pedra e Lune. Muitas vezes, durante as rondas, os soldados de Lune chegavam a um vilarejo onde só moravam cadáveres.

Clément tinha dez anos de idade. Ainda não havia sido coroado rei. Vivianne também tinha dez anos de idade. Ela era mestra de Lune assim como Marcus, seis anos mais velho. Naquela idade, Vivianne não entendia por que Clément não fazia nada. Ela não sabia a diferença entre crescer protegido pela rainha Adelaide e crescer ao lado do Vulto. Nem mesmo Clément entendia essa diferença. Aos dez anos de idade, mal se enxerga o próprio mundo, quanto mais o mundo da criança ao lado.

Anos mais tarde, Clément continuaria protegido pela mãe, mas encontraria um meio de forçar Adelaide a enviar soldados para fora da Pedra. Aos treze anos de idade, o rei vai fugir de casa pela primeira vez, forçando a mãe a vasculhar toda Deran para encontrá-lo. Não será mais necessário. Dentro de um ano, Farheim e Inlang não vão mais invadir Deran. Mesmo assim, Clément vai fugir. Talvez por isso mesmo ele fuja. Quando os dois fizerem treze anos, Vivianne vai se perguntar se seu amigo e rei teria coragem de se aventurar pelos cânios escondidos se Farheim e Inlang ainda ameaçassem Deran. Ela chega mesmo a perguntar para ele, mas Clément dirá:

— Não sei.

Esquecer a lanterna foi descuido. Mesmo aos dez anos de idade, Vivianne não cometia descuidos. Ela culpou Clément por isso também. Se a Pedra ajudasse Lune a combater Farheim e Inlang, Vivianne não teria sentido aquele cheiro.

Poucos meses antes ela ouviu Marcus e o Vulto conversando.

— Você acha que devo levá-la comigo? — perguntou o irmão de Vivianne. — As coisas lá fora às vezes são horríveis.

— Você quer protegê-la? — perguntou o Vulto.

— Ela é uma criança.

Na época desta conversa, Vivianne tinha nove anos. Eles estavam na biblioteca e não notaram Vivianne desenhando mapas de Lune no chão, atrás da estante.

— Você tem quinze anos — disse o Vulto.

Vivianne não conseguiu interpretar o tom de voz dele. Por que dizer uma coisa óbvia daquelas? O Vulto continuou:

— Você quer proteger sua irmã, no entanto esconder não é o mesmo que proteger.

— Mas expor Vivianne aos mortos — Marcus não soube terminar a frase.

Vivianne espiou o irmão pelo vão entre os livros e a estante. O que ela viu no rosto dele apertou alguma coisa dentro dela. Vivianne não era muito boa em interpretar pessoas, mas Marcus não parecia bem. Muitos anos depois ela se lembraria desse momento e continuaria sem conseguir ler a expressão dele, mas entenderia que Marcus, aos quinze anos de idade, ainda era uma criança. E que ele estava exposto aos mortos.

— Sua irmã é sua aliada — disse o Vulto. — Você pode esconder o mundo dela, mas você pode esconder Vivianne do mundo?

Marcus torceu as mãos. Ele agora tinha mãos fortes, grandes, ásperas. Mãos moldadas pela espada. Para uma menina de nove anos, ele parecia invencível.

— Ela pode ficar em Lune — disse o irmão.

— Vivianne é uma exploradora — advertiu o Vulto.

— Ela vive desenhando!

— Castelos e arquiteturas. Ela já desenhou Lune sob diversas perspectivas, descobriu ruínas e espaços que ninguém conhecia e está explorando pouco a pouco todos os castelos que esta biblioteca contém. Um dia os livros não serão o bastante.

— Clément não sai da Pedra — insistiu Marcus.

— Ah, sim. O futuro rei de Deran está perfeitamente seguro sob a proteção de Adelaide.

Marcus levou Vivianne na próxima ronda, logo depois do aniversário dela, quando ela completou dez anos. Vivianne estava ansiosa para explorar a Pedra, desenhar suas torres, saguões e muros. Ela esteve lá duas vezes antes e não foi o bastante para descobrir os segredos do castelo. A menina se entusiasmou com o cavalo pardo de galope fácil que a carregou pelas ondulações de Deran; se espantou com os cânions, que surgiam sem aviso, escondidos pela geografia deraniana. Cânions profundos, camuflados pela inconsitência do terreno deraniano. Então ela viu os mortos.

Não entendeu o que eles eram de imediato. Vivianne já havia visto gente morta em funerais. Limpos, deitados e pacíficos, pareciam dormir. Estes mortos gritavam. O pouco de pele que restava colada aos ossos se esticava de dor e medo. Os sulcos das caveiras, de onde corvos já haviam comido os olhos, tinham sombras de pavor.

E o cheiro. As moscas e o cheiro. Quando chegou na Pedra, Vivianne gritou com Clément até ficar rouca. Como ele ousava? Como ele ousava ficar ali na Pedra enquanto seu povo era reduzido àquele cheiro?

— Eu não sabia — disse Clément. — Eu não sabia.

— Como você pode não saber? — Vivianne se esqueceu de que, até aquela viagem, ela também não sabia.

Sozinha, ela entrou no túnel. O cheiro de pedra aos poucos apagou o cheiro de morto. O silêncio da rocha abafou as moscas e Vivianne passou a tocar o cabo de vassoura no chão com delicadeza para não fazer barulho. A escuridão era azul.

A boca do túnel ficava trezentos metros abaixo da torre mais baixa da Pedra, mas dali não se podia ver o castelo, que estava na face sul da montanha. Vivianne viu a entrada quando ela e Marcus chegaram pelo norte. Pela primeira vez desde a vila dos mortos, ela pensou em alguma coisa que não fosse mosca. Aos dez anos de idade, Vivianne ainda não tinha os conhecimentos de arquitetura que teria mais adiante, mas qualquer coisa estava errada com a Pedra. Parecia incompleta. O castelo não estava pousado na rocha negra como uma águia; ele protuberava da rocha, como uma planta.

Onde estavam as raízes?

A escuridão era azul e morte. Esta morte não tinha cheiro, mas secava as narinas e gelava o rosto. Ela tinha hálito. Esse hálito passou para dentro de Vivianne pelos fios de cabelo, esfriou a caveira, lambeu a espinha até a base. Vivianne gritou, largou o cabo de vassoura e se enrolou no chão.

A morte azul acariciou a dobra de suas orelhas, pinçou o calcanhar esquerdo de Vivianne, gelou o espaço entre as sobrancelhas. Vivianne forçou seu corpo a desenrolar e esticou o braço para sair do túnel. Ela não sabia mais em que direção era a saída. Não sabia mais se ainda havia saída. Agarrou uma parede e tentou se içar. Um pedaço de pedra se soltou da parede e ela apertou o pedaço de rocha contra a palma da mão.

De repente, o cabo de vassoura se debateu contra o chão, seguido de um grito, e um corpo quente caiu de encontro a Vivianne.

— Vivianne?

Era Clément que, tateando no escuro, tropeçou na vassoura e caíu em cima de Vivianne. Ele agarrou o braço dela e puxou-e em direção à saída. Do lado de fora do túnel, ele se dobrou em dois e se apoiou nos joelhos. Clément tremia mais do que Vivianne e respirava com dificuldade.

— Acho que mijei — disse o príncipe.

A voz de Vivianne estava uma pedra de gelo na base da garganta. Vivianne sentiu dor na palma da mão e abriu os dedos. Ela ainda apertava o pedaço de pedra que havia caído da parede do túnel. Vivianne e Clément pararam de tremer. Na mão de Vivianne estava um pedaço de rocha esculpida. Um enfeite delicado representando um sapo sentado aos pés de uma raposa em pé. As orelhas pontudas da raposa deixaram duas marcas vermelhas na mão de Vivianne, uma mini mordida.

Clément segurou a mão de Vivianne como se temesse que a pedra esculpida fosse pesada demais para ela.

— Você entrou no túnel — disse Vivianne.

— Você gritou — respondeu Clément.


Capítulo 19