A Boca da Guerra

Capítulo 15: Frederico – A Velha

Frederico perambulava as ruas de Beloú à noite, açoitado por pesadelos. Após três ou quatro noites sem dormir, ele finalmente desmaiava em algum canto da Mansão Real de Beloú. Então ele chutava, gritava, implorava:

— Pare. Por favor, pare.

— Afinal, com o que você sonha? — perguntou Faust.

— Um cão.

— Esse cão te ataca? Mate o bicho. Frederico, você tem de aprender a se defender. Eu treino com você todos os dias, mas você nunca usa a espada fora da Mansão. Você precisa fazer justiça. Eu não consigo reger esta cidade e lutar uma guerra com você me impedindo de disciplinar meus homens.

Frederico encostou o queixo no peito. Seria ele um peso para o irmão? Desde que se mudou para Beloú, Faust não conseguia punir seus soldados direito. Frederico achava as punições muitas vezes injustas e frequentes demais. Ele constantemente intervinha e convencia o irmão a desistir delas. Aquela maldade toda era influência do pai sobre Faust e Frederico não aguentava ver o irmão, melhor homem e melhor governante do que Fulbert de Patire, perder o respeito de seus homens por causa de atitudes que refletiam o rei com F.

Fei Fulbert de Fatire. Fezes começam com F.

Frederico saíu para o pátio e desceu a rua de paralelepípedos soltos até a praça com uma fonte seca no centro. Beloú, Vivianne um dia iria ensinar, era uma cidade típica Franesa de antes do Império. Uma das poucas sobreviventes da Era Negra (irônico, pensou Frederico, sobreviver à Era Negra só para ficar nos lábios da guerra com a quebra do Império), Beloú tinha muralhas mais grossas do que as das cidades pós Era Negra, pois a tecnologia para fazer paredes inquebráveis e finas veio de Sátiron. As casas de Beloú eram feitas com um antepassado da alvenaria atual, uma mistura de argila, pedra e serragem, que resistia bem ao tempo mas deixava as casas sempre frias.

O inverno em Beloú era cruel. Dentro das casas fazia quase tanto frio quanto nas ruas e não havia lenha o bastante para aquecer toda aquela gente. Os soldados tinham prioridade. Precisavam sobreviver para morrer na Boca. Os civis queimavam o que encontravam. Pedaços de caixas, fezes de gado.

Na Mansão havia lareiras. Nem todas convertidas. A Mansão Real de Beloú havia sido construída durante o Império. Frederico sabia disso mesmo antes de conhecer Vivianne, não apenas porque as paredes eram finas e brancas e a casa inteira mais quente, apesar das janelas grandes de vidro duplo, como porque havia lareiras convertidas. Algumas alas da Mansão ficavam fechadas, pois não eram necessárias e Faust optou por um espaço menor, mais fácil de gerenciar. Foi ele quem converteu as lareiras dos quartos, mas não se preocupou com o resto da casa.

Quando Frederico percebia que o irmão precisava de espaço para governar com sossego (palavras de Fasut), ele subia até o sótão, que ligava o quarto dele com uma das alas fechadas da Mansão. Ali ele descobriu mecanismos. Botões, alavancas, lâmpadas. Ele imaginou para quê serviam as lâmpadas, já que ficavam onde deveria haver tochas, mas nem sempre conseguia descobrir a utilidade de um botão ou uma alavanca. Abrir portas? Janelas? Dobrar o chão em dois? Fazer brotar uma mesa cheia de doces no centro de uma parede particularmente vazia?

As lareiras na ala antiga tinham botões e placas de vidro na frente. Como se fazia para colocar a lenha? E para onde ia a fumaça? Faust teve de reformar a casa para abrir chaminés. As lareiras antigas eram apenas buracos na parede.

Frederico não gostava de sair da Mansão. Às vezes, quando o pesadelo o atormentava e ele pertambulava na névoa noturna, alguma coisa o observava por cima da muralha. No começo, Frederico achou que era sua imaginação, o pesadelo tingindo a neblina com trevas. Mas os dias escorriam e mais e mais Frederico sentia o peso de alguém a observá-lo. Fosse lá o que fosse, não gostava de Frederico. Das muralhas vazava um desprezo, uma raiva muito parecida com a que emanava do rei de Patire. Tornava mais nítidas as mãos do pesadelo do príncipe, mais dolorido o branco dos olhos da cadelinha, mais vermelhas as veias, mais gelada a pele.

Fazia sol no dia em que Frederico pensou em Fulbert e fezes. O príncipe decidiu se aventurar fora da Mansão, virar tornozelos nos paralelepípedos mordidos pelo tempo. Mais tarde, quanto Vivianne lhe contou a idade de Beloú, Frederico pensou que aqueles paralelepípedos deviam ser ainda os originais, colocados ali há pelo menos setecentos anos. As pessoas se acostumavam a chutar dedões e furar calcanhares.

Nesse mesmo dia, quando Frederico chegou à praça e estava prestes a se sentar na beira da fonte seca, uma velha tropeçou e caiu de peito no chão, espalhando livros e papiros para todo lado. Frederico ajudou a velha a se levantar e recolheu os papéis para ela.

— Obrigada, menino, obrigada. Vou recompensá-lo.

— Não preciso de recompensa.

— Vou dá-la mesmo assim.

— Não é necessário.

A Velha mirou os olhos vivos nos dele. — É extremamente necessário. — As palavras vieram pausadas, como passos calculados de lobo que encurrala coelho. As rugas da Velha tinham sombra azulada e ela parecia ter mais cores do que Beloú amarronzada ao seu redor.

Frederico ergueu as mãos, na defensiva.

— Não quero recompensa.

As rugas no rosto da velha se desembaraçaram, e os olhos se abriram um pouco mais, deixando escapar uma emoção. Pena?

—Tome. — Ela estendeu um pergaminho.

— Vai me dar um pergaminho? — perguntou Frederico, aceitando o pedaço de papel.

— Não o documento: o conteúdo.

— Vai me deixar ler?

— Qualquer um pode ler, menino. Você, eu vou ensinar a entender. Leia.

— Não sei ler.

A Velha massageou as têmporas.

— Suponho — ela disse — que terei de te ensinar.

— Não faço questão — ele estendeu o pergaminho de volta.

— Eu faço.

— Você pretende me ensinar a ler aqui, no meio da rua?

— Eu tenho um lugar — disse a Velha.

— Onde?

— Longe de Beloú.

Frederico recolheu novamente o pergaminho. Se a velha lhe desse um teto, ele deixaria de ser um peso ao irmão. Se livraria também de fosse lá o que fosse que o odiava por detrás da muralha. Por outro lado, aquilo se parecia demais com uma armadilha: a insistência da Velha, o fato de ela ter tropeçado bem na frente dele e não parecer nada machucada. As cores — ela tinha tantas que a fonte, a cidade, cada pedaço de paralelepípedo, até as pessoas pareciam cinzentas e sem contraste perto da Velha.

— Se você quer capturar um príncipe de Patire, está pegando o príncipe errado — ele disse. — Eu sou só Frederico.

— Diga-me, Só Frederico, há quantos anos a Franária está em guerra?

— Uns quatrocentos.

— E há quantos anos a luta só acontece na Boca da Guerra?

— Não sei. Trezentos?

— Quase trezentos anos de guerra restrita à Boca — disse a Velha — mas, dois anos atrás, Baynard tentou invadir Patire fora da Boca da Guerra. A Batalha da Ponte deveria ter sido um massacre, o início de mais uma era sangrenta para a Guerra Civil da Franária. Graças a você, ela terminou com a morte de um cavalo e de duas pernas, nada mais. Desde que você se mudou para Beloú, Faust não aplica uma punição injusta. Você está enganado, Só Frederico. É você o príncipe de Patire que eu procuro.

— Quem é você?

— Vá pegar suas coisas, menino, e arranje um cavalo. Montei residência na Floresta de Leoneren.

— Leoneren fica a quatro dias daqui.

— Três, no meu ritmo. Encontre-me aqui em meia hora.


Capítulo 16