A Boca da Guerra

Capítulo 14: Neville – Temos flores

No dia seguinte, antes do treino, Neville procurou o rei Henrique nos jardins do Esmeralda. Depois da torre principal, dos estábulos e celeiros, ficavam os pomares. O pai de Neville costumava treinar com o rei todas as manhãs nos gramados, entre pessegueiros. Neville desejava ter esse mesmo privilégio um dia.

No centro do jardim, entre as árvores mais jovens, Henrique havia erguido uma estufa. Neville viu a silhueta montanhosa do rei através dos vidros empoeirados e entrou. O ar ali dentro estava molhado e quente. Cheirava a frutos caídos no chão. Henrique estava sentado em frente a uma flor que Neville nunca tinha visto. Tinha pétalas brancas com veios roxos e amarelos. Do centro, surgia o que parecia ser uma outra flor da mesma cor, como a boca de um dragão. As folhas eram duras e grossas.

— É uma orquídea — disse Henrique. — Veio de Tinsa. Esta é sua primeira florada. Venha ver — e afastou a cadeira para Neville chegar perto da flor.

Neville levantou a mão, mas hesitou e pediu permissão com o olhar.

— Pode encostar — disse Henrique. — Ela não é frágil. Flores não são frágeis, tanto que elas estão aí, todos os anos, lembrando-nos que a vida segue, apesar da guerra. Onde tudo morre, elas crescem. No entanto, ninguém olha os pessegueiros em flor. Já reparou? Ninguém para. Temos flores, mas só pensamos em conquistar território.

Neville ficou hipnotizado pelos veios coloridos nas pétalas brancas, pelo formato daquela flor.

— Você gostou? — perguntou Henrique.

Neville fez que sim com a cabeça. O rei pegou um vaso de um jirau e entregou-o a Neville. No vaso havia outra orquídea com três brotos na haste.

— Leve-a para casa — disse o rei. — Observe-a florescer.

Neville tentou recusar, dizer que era precioso demais. Henrique riu aquela risada montanhosa que ele tinha e empurrou o vaso para as mãos do jovem. Quando ele fez isso, percebeu o arco que Neville carregava e perguntou o que era.

No instante em que Henrique chamou a atenção para o arco, uma sombra se moveu na estufa e só então Neville percebeu a presença esguia de Olivier de Tuen.

— Um arco satironês — disse o conselheiro. — Onde você o encontrou?

Neville estendeu o arco para o rei.

— Não consigo puxar a corda.

Henrique de Baynard, com toda a força de seus músculos montanhosos, não conseguiu puxar a corda do arco de Neville. O rei devolveu a arma, coçando a juba loira. Olivier colocou-se ao lado do rei e murmurou:

— Não precisa se envergonhar. Guerreiros de verdade usam a espada. Arcos são para covardes.

Só depois que Olivier disse para Henrique não se envergonhar foi que Henrique corou e baixou o rosto. Neville notou que não havia ocorrido ao rei ter vergonha até que Olivier lhe dissesse para não ter. Ele se perguntou se Olivier percebia isso.

À noite, quando Neville colocou a orquídea sobre a mesa e contou aos pais o que Olivier havia dito, Maëlle disse:

— Então Sátiron foi uma nação de covardes. Yukari Nakamura foi covarde.

— Calma, mãe.

O capitão sem pernas se sentava à mesa com a família. Se alimentava sem que mulher ou filho precisassem levar a comida até sua boca. Ainda não havia reencontrado a voz, mas seus olhos diziam mais do que apenas Por quê...? Neville ainda não sabia o que eles diziam. Pareciam ainda indecisos, mas que decisão precisavam tomar? O que acontecia dentro da cabeça do capitão sem pernas?

Junto com eles estava a livreira Fulion. Quando ela não estava em uma de suas jornadas, Fulion morava na biblioteca, mas o teto estava em reforma e Maëlle ofereceu-lhe hospedagem até que a obra terminasse. Fulion tinha cheiro de terra, vento, cavalo e couro.

— Fulion tem cores — disse Maëlle ao filho, dias antes. — Daquelas que eu vi na beira da Fronteira.

Neville estendeu o arco a Fulion.

— Acha que consegue vender? — perguntou.

A livreira pousou os talheres ao lado do prato. Pela primeira vez, Neville pensou ver as cores de que Maëlle tanto falava. Na verdade, ele ouviu as cores na voz baixa de Fulion, que raspou os ouvidos dele do mesmo jeito que vento forte arrasta a terra do chão.

— Qualquer outro arco, eu levaria — ela disse. — Nunca um arco que chegou até você por magia. Magia não se discute.

Maëlle se ergueu e foi pegar um baú branco de poeira do topo do armário do quarto, rasgando algumas teias de aranha ao movê-lo. Dentro do baú havia livros. Maëlle retirou alguns e finalmente encontrou o que procurava.

— Está escrito em satironês — ela disse — mas as imagens devem ajudar.

Neville abriu o livro, um guia técnico para arqueiros sobre como montar e desmontar um arco, como fabricar flechas adequadas para um arco longo satironês, posicionamento.

— Você vai aprender a usá-lo. — disse Maëlle. — Comece trabalhando os músculos das costas.

À mesa, o capitão sem pernas estendeu a mão e quase tocou um dos brotos de orquídea, mas retrocedeu antes de pele encontrar pétala. Na janela, repousava outra orquídea, mais antiga, sem botões.


Capítulo 15