A Boca da Guerra

Capítulo 130: Traição

A geografia de Deran era aliada de Adelaide, que a conhecia tão bem quanto Vivianne conhecia seus mapas arquitetônicos. O terreno dava a ilusão de ser uma planície reta, mas na verdade ondulava e quem se mantivesse nas terras baixas permaneceria praticamente invisível à distância.

Dois dos pedaços de exército nórdico já haviam se reunido e preparavam-se para novo ataque. Adelaide os pegou de surpresa. A batalha foi longa, exaustiva, desesperada. Os guerreiros nórdicos eram fortes e terríveis, mas os franeses não ficavam atrás. Após quatrocentos anos matando-se uns aos outros, foi com gosto que eles alimentaram suas espadas com sangue de Farheim e Inlang. Estavam unidos sob a bandeira de Chambert: uma águia vermelha num fundo branco.

Do topo da Onda, Nuille e Lucille assistiram à vitória franesa. Lucille, apesar de contente, sofreu pela morte de todos aqueles nórdicos. Não concordava com os métodos deles, mas sabia que eles tentavam apenas sobreviver. Nuille tocou-lhe o ombro, apontou para o oeste, onde Luc, junto com Bojet e Germon, venciam sua própria batalha. Eles foram mais misericordiosos que Adelaide. Deixaram os soldados que se renderam retornarem à Onda e ao Norte. Sabiam, Vivianne havia contado, que nenhum inimigo da Franária poderia cruzar aquelas montanhas de novo. Adelaide também sabia. Mesmo assim, seus adversários morreram todos.

Aquela noite, no acampamento de Adelaide, os soldados festejaram a vitória da Franária.

Em sua tenda, Adelaide dispensou o ajudante após tirar a armadura. Mergulhou as mãos numa bacia com água fria, lavou o rosto. Não houve sinal, indício ou barulho, mas Adelaide soube que não estava sozinha. Virou-se, já sacando a espada. Tropeçou na respiração.

Em pé, perto da entrada, estava um homem. Apesar de vinte anos em Anuré o terem deformado a ponto de a própria filha não o reconhecer, Adelaide sabia perfeitamente bem quem era aquele esqueleto em sua tenda.

— Eu sabia que você voltaria — disse Adelaide. — Até hoje ainda sonho com você.

— Você me traiu — ele disse. — Me fez matar seu marido e me traiu. Durante vinte anos me perguntei por quê, então chego aqui e descubro que você tem um filho. Achou que eu o mataria também.

— Sei que o faria.

— Eu te daria outro. Dez outros.

— Filhos não são iguais a maridos — disse Adelaide. — Não se pode substituí-los.

Esqueleto ficou alguns segundos em silêncio.

— Entendo — disse. — Mas não perdoo.

Sua espada se chocou contra a dela. Com a festa e os gritos de vitória lá fora, ninguém ouviu o duelo na tenda real. No dia seguinte encontraram a rainha e Esqueleto juntos no centro da tenda, emoldurados por um visco vermelho, sangue de dois corpos. A espada dele atravessava o peito dela e a dela, o peito dele. A mão de Esqueleto morreu rija segurando o punho da própria espada. A de Adelaide endureceu sobre a mão tensa do homem que ela amou e mandou a Anuré.


Capítulo 131