A Boca da Guerra

Capítulo 13: Neville – Na Tenda dos Artistas

— Você ouviu o que Henrique disse? — Robert perguntou, já na porta da padaria. — Somos irmãos. Eu e Neville somos reis!

— Irmão de rei não é rei — disse Thaila.

— É o quê, então?

— Não sei. Acho que príncipe.

As orelhas de Robert se moveram para cima, atiçando os cabelos cor de palha.

— Henrique é um bom rei! — disse. — O melhor da Franária. Baynard é o lugar mais seguro para se morar.

— Não podemos ter essa certeza — disse Maëlle, que se juntou a eles dentro da padaria do Eslariano.

— Claro que podemos — insistiu Robert. — Deran tem as invasões nórdicas, Patire tem Fulbert. Temos sorte de morar em Baynard.

— Ninguém sabe como é viver na Fronteira — disse Maëlle.

Robert cambaleou e segurou-se no braço de Thaila para não cair.

— Não fale disso aqui! Pode atrair um mistério.

— Você é muito supersticioso — disse Neville. — Minha mãe está falando da Fronteira, não da Terra dos Banidos.

— Shhh! É tudo a mesma coisa.

A Caravana de Rimbaud já tinha se apossado da cidade. As vozes da feira chegavam à padaria entrelaçadas umas nas outras, fundindo num murmúrio incompreensível sem sílabas tônicas.

O Eslariano serviu-lhes pão de centeio, tomates frescos, queijo de cabra, azeitonas. Ao fim da refeição entregou três ingressos para a filha.

— Entradas para a Tenda dos Artistas — disse. — Hoje é o último dia de sua infância. Aproveitem.

Os três amigos se juntaram à multidão e entraram na enorme tenda redonda com três mastros altos de madeira e ferro. Por fora o toldo era branco com símbolos amarelos, mas dentro a tenda era azul com móbiles de estrelas prateadas e nuvens brancas penduradas no teto. Homens e mulheres vestidos de verde guiaram os espectadores pelas arquibancadas. Em poucos minutos Neville estava sentado ao lado de um velhinho, com Thaila do lado esquerdo, seguida de Robert.

Um homem alto pintado de azul caminhou até o centro do picadeiro, ergueu uma espada, colocou a ponta dentro da boca, empurrou lentamente a lâmina pela goela. Robert cobriu o rosto com as mãos, inclinando-se para mais perto de Thaila quando o artista azul puxou a espada de volta, ergueu-a e saudou a plateia.

Havia cães que davam cambalhotas em cima de cavalos de pelo brilhante; papagaios que filosofavam, dançarinos e cantores, malabaristas com gatos, e havia Lecoeurge. Hoje ele usava peruca vermelha, mas o chapéu continuava o mesmo, bem cuidado e bem escovado, só mudava a margarida no topo, que Lecoeurge insistia que fosse de verdade e não de papel. A Tenda dos Artistas quase se rasgou com a vibração dos gritos que a platéia extasiada soltou com a entrada do palhaço e seu dragão verde.

Todos os anos palhaço e dragão encenavam uma história diferente. A deste ano era sobre um dragão que fugia, dando piruetas com toda a graça de uma lagarta dançando balé. Lecoeurge o perseguia. Por quê? Para quê? Neville nunca soube.

— A cor está errada — disse o velho sentado ao seu lado. Sua voz não era profunda nem forte, nada impressionante, exceto pelo fato de que, quando soou, o dragão verde de Lecoeurge ficou vermelho como fogo.

O palhaço tropeçou, a plateia soluçou, mas Lecoeurge logo retomou o passo e deu uma cambalhota fingindo o susto que havia realmente levado. A plateia se acalmou, mas não riu. Magia havia acontecido.

— Não tive a intenção — disse o velho. Ele tinha mais rugas do que rosto e uma juba branca que fazia sua cabeça parecer um sol albino. Impossível discernir sobrancelha de cabelo e barba.

— Quem é você? — perguntou Neville.

O velho levantou as mãos desalentadas. — Eu esperava que me conhecesse.

— Você me conhece?

— Não, mas esta não é a primeira vez que eu sonho a seu respeito.

Neville quis se afastar do velho, mas havia uma barreira entre eles e o resto do mundo, como se estivessem dentro de uma garrafa de vidro que distorcia e abafava plateia e espetáculo.

— Eu sonhei que eu era a Franária — disse o velho enrugado. — Minha morte me alcançava. Minhas asas de águia estavam cortadas e eu não podia voar. Sozinha eu não conseguiria me salvar, nem ao meu povo. Pedi socorro. Fiz mais do que isso: convoquei uma história. Por isso agora eu procuro, mas não sei o que fará essa história acontecer. Um herói?

— Vi você nesse sonho — continuou o velho. — Você era mais alto e tinha um arco. Eu tenho a impressão de que não é você que a águia procura.

No picadeiro, Lecoeurge saltou e jogou as pernas para o alto. O dragão, agora vermelho, seguiu-o no ar, mas Neville via tudo borrado; as cores demoravam a seguir seus donos, deixando uma trilha no ar igual a uma pincelada.

— Você e eu estamos à beira de alguma coisa — disse o velho. — Acredito que a águia esteja conosco.

— À beira de quê?

— De tudo em meu caso. Mas você talvez se encontre em uma beirada diferente. — Ele enterrou os dedos no branco caos de seus cabelos. — Se ao menos eu me lembrasse, mas só posso ser eu mesmo em sonhos, e sonhos não passam de fragmentos, espasmos de uma memória despedaçada. Eu me sinto como os restos de um navio no fundo do oceano, vagamente ciente da agitação que se forma na superfície. Você é uma das ondas, mas não é a tempestade.

— Que tempestade?

— Eu não sei. Ela ainda não nos alcançou, mas você, eu, a águia, o príncipe e o dragão estamos todos à sua espera.

O velho endireitou as costas e ouviu com atenção.

— Ouço Yukari trazendo chá. Hora de despertar. Até breve, meu jovem. Quem sabe da próxima vez que nos encontrarmos você saberá quem sou.

A arquibancada estava vazia; a Tenda dos Artistas, em silêncio. Thaila e Robert examinavam Neville, preocupados.

— Você está bem? — perguntou Thaila.

— Estou. Acho que estou.

— Ficou quieto de repente, sem responder.

— O que é isso? — Robert apontou para uma vara comprida e preta na mão do amigo.

Neville se levantou. A vara de teixo era um pouco mais alta do que ele, resistente, porém flexível. Na outra mão de Neville estava enrolado um fio.

— É um arco — disse Thaila.

— Desse tamanho? — perguntou Robert.

— É um arco satironês. Meu pai me mostrou ilustrações. Yukari Nakamura sempre incluía um pelotão de arqueiros em suas táticas militares. Precisa colocar a linha.

Foi necessário os três agirem em conjunto para vergar o teixo e montar o arco. Neville tentou puxar a corda, que não se moveu.

— Meu pai disse que leva anos para aprender a usar — disse Thaila.

— Leve amanhã no treino — disse Robert. — O rei Henrique é muito forte, vai puxar a corda com facilidade.


Capítulo 14