A Boca da Guerra

Capítulo 127: Águia

Thaila encontrou Neville na sombra da árvore negra que, enraizada onde tantos haviam morrido, tremelicava as folhinhas quase fosforescentes, deliciada com tanta morte. Thaila alcançou Neville e viu o fogo além-céu. Uma estrela vermelha, então branca, então nada.

— Acabou — disse Neville. A textura metálica das trevas se dissiparam, restava ainda um pouco de seu cheiro, uma pitada de mel nas forças correntes da Franária.

Rederico viu a morte de Guerra do topo da locomotiva do Eliana, com Velha abanando o rabo ao seu lado. A cadelinha levantou o focinho e uivou como um lobo de Sátiron.

Clément viu o fim da janela de seu quarto, na Pedra.

— Creio — disse aos soldados — que é seguro deixar-me sair agora. Preparem seus cavalos, vamos ao encontro de minha mãe.

O pai de Pierre lia em sua casa, na Fronteira. Saiu para a rua no momento da explosão. No topo da Onda, Lucille festejou a morte de Guerra. Aos poucos, porém, seu riso morreu e ela sentiu uma tristeza profunda por uma entidade que, como qualquer outra, só queria viver. Lucille gradualmente aprendia a enxergar o mundo de uma perspectiva diferente da humana, uma perspectiva de mistério.

Atrás dela, Nuille ficou em pé.

Pierre não voltou da Boca da Guerra. Vivianne apontou Gregoire e três soldados aleatórios:

— Vamos procurá-lo.

Mal terminou de falar, Vivianne ouviu o som de asas.

Gregoire examinou o céu, desconfiado. Seria Chelag’Ren?

Uma silhueta de asas abertas se desenhou contra o sol, desceu, devagar, em círculos, e pousou sobre a estrada. Uma águia. Vasta, plumas viçosas e brilhantes. Depositou Pierre gentilmente aos pés de Vivianne e levantou voo, leve e livre.

Vivianne e Gregoire se ajoelharam, ele porque as pernas falharam, ela para colocar a mão no peito de Pierre.

— Está vivo.

Fregósbor foi colocando no lugar vários ossos de Pierre. A cada clec e croc, Gregoire se encolhia um pouco mais, Vivianne sentia menos sangue chegar ao cérebro.

— Dêem-lhe tempo — disse Fregósbor. — Os ferimentos não são graves, mas ele precisa de descanso.

Ele então voltou para sua própria tenda, onde Marcus e Líran teimavam em não acordar e Sáeril continuava em farrapos, uma tempestade de magia, fiapos de mistério. Vivianne queria ficar ao lado de sua família e de Líran, mas Fregósbor não permitiu.

— Tive de erguer uma barreira mágica ao redor desta tenda para proteger o resto do acampamento do estado tempestuoso de Sáeril. Fique longe. Prometo que será a primeira a saber quando algo mudar.

Vivianne voltou frustrada para a tenda de Pierre, sentou-se ao lado de Gregoire, também frustrado à sua maneira, com o irmão arriscando tudo, fazendo tudo, teimando em quase morrer o tempo todo, e Gregoire, ali, apenas mais um coadjuvante na história de Pierre. Pano de fundo, grama, nuvem no céu, Gregoire, tudo igual. Começou a escrever.

Coalim e Leonard apareceram com Marie de Chambert, que examinou o ferido, disse que Fregósbor havia feito tudo o que se podia fazer, deu algumas dicas de como deixar o enfermo mais confortável, e voltou para fora de braço dado com Leonard.

— E agora? — Coalim perguntou a Vivianne. Gregoire havia saído para buscar comida.

— Suponho que seja preciso reconstruir — disse Vivianne.

— E quanto a Clément?

Vivianne demorou um momento para entender a pergunta. Havia se esquecido completamente da posição de Clément. Ele era, afinal, rei de Deran.

— Clément não é ameaça para Pierre.

— Adelaide é — disse Coalim. — Ela jamais desistirá do trono. Espero que Pierre não tenha de matar Clément — A voz rachou no ‘matar’.

Vivianne segurou a mão do amigo.

— Pierre não matará ninguém à toa. — Recostou a cabeça no encosto da cadeira. Achava que merecia, que todos eles mereciam, um longo descanso. Tentou imaginar o toque esfarelado de mapas antigos sob a ponta de seus dedos. Redesenhou um a um seus mapas falecidos nas páginas de sua mente. Sem querer, os dedos imaginários de Vivianne abandonaram mapas e começaram a percorrer pele. Os traços de seus desenhos mentais se moldaram na imagem de Pierre sozinho na curva, espada erguida, cavalo em pé sobre as patas traseiras. Vivianne seguiu os traços precisos em direção ao sono.


Capítulo 128