A Boca da Guerra

Capítulo 125: Uma excelente pessoa, afinal de contas

A tenda real de Deran já estava em pé quando Vivianne chegou. Coalim não fez um som ao seu lado e, quando ela fez sinal para que um soldado erguesse a aba da tenda de Clément, Coalim parou de respirar.

Vivianne esperava as almofadas douradas, os tapetes fofos, cheiro de comida no ar. A tenda real estava quase nua de móveis, com um saco de dormir enrolado no canto, a armadura real ajeitada no outro. No centro, fazendo carranca, esperava a rainha.

— Adelaide — disse Vivianne. — Onde está Clément?

A rainha lançou-lhe um olhar furioso. Teve de prender o filho, ou ele viria pessoalmente para a batalha. Clément, que desmaiava quando precisava limpar as tripas de um peixe, incitou a Pedra a se rebelar, se Adelaide não os liderasse contra os inimigos da Franária.

Muito bem, se era guerra o que queriam, era guerra o que ela lhes daria. Clément, no entanto, ela jamais arriscaria perder. Ele se recusou a ficar em casa, então ela o trancou. Os soldados, quando entenderam que ela finalmente levaria a Pedra ao auxílio de Lune, preferiram a rainha a Clément como líder a Clément.

— A luta ainda não terminou — disse Vivianne. — Farheim e Inlang ainda estão em território franês. Vamos planejar nossos próxumos passos com Pierre. Venha.

— Pierre — sibilou Adelaide.

Leonard Acidentado organizou o funeral depois da batalha. Levaria dias para enterrar todos aqueles mortos e houve quem protestou não querer enterrar os corpos nórdicos, mas Leonard insistiu.

— Temos um problema — disse um soldado negro de Patire. Chamava-se Léon.

Ele apontou para um cavalo malhado de branco e preto.

— O cavalo é um problema? — perguntou Leonard.

— Ele não deixa ninguém chegar perto de um corpo. Uma mulher.

O cavalo Mancha relinchou e resfolegou.

— Deixe ele estar — disse Leonard. — Deixe ele em paz com a morta que ele ama.

Reuniram-se na tenda de Pierre: Bojet, debruçado sobre um mapa, Germon, reclinado na cadeira, perguntanto-se a utilidade de se estudar um mapa agora; Neville, em pé de braços cruzados atrás de Pierre, Vivianne e Coalim de frente para Adelaide, que encarava Pierre com expressão nada amigável. O caolho Luc ficou em pé perto da entrada.

Pierre falou:

— Precisamos encontrar o que restou dos invasores e derrotá-los, mas eu não vou com vocês. Tenho minha própria missão.

— Que missão? — perguntou Neville.

— Encontrar Chelag’Ren.

— De jeito nenhum — gritou Bojet. — Já uma vez uma vez o perdemos para o dragão. Fregósbor, já de mãos cheias, pode não conseguir te salvar desta vez. Que será de nós se você não voltar?

— O que será da Franária se Chelag’Ren não voltar para nós? — perguntou Pierre. — Vocês sobreviverão sem mim. Nada está seguro enquanto Chelag’Ren estiver afogado em trevas.

— Neste caso, irei com você — disse Germon. Bojet imediatamente se uniu ao amigo.

— Iremos todos juntos.

Pierre precisou de muito tempo, paciência e persuasão para convencê-los a deixá-lo ir sozinho à Boca da Guerra. A única pessoa feliz ao fim da reunião era Adelaide. Com que, então, esse tal Pierre era suicida. Reunificou a Franária e teria a bondade de morrer para que Clément ficasse com o trono. Pierre era uma excelente pessoa, afinal de contas.

Vivianne ficou para trás quando os outros saíram da tenda. Ela sabia que não podia impedi-lo de partir, assim como nunca pudera segurar o Vulto. Inclinou-se, apenas, beijou-lhe o rosto.

— Volte.

Fregósbor já estava de joelhos ao lado de sem mestre, se não, teria caído de costas com o movimento súbito. O Vulto se levantou, farrapos pretos flutuando ao seu redor.

Gregoire, a mão ainda enrolada numa atadura, embora o corte já não atrapalhasse seus movimentos, abriu com violência as duas abas da tenda de Pierre. Desejou que fosse uma porta porque a lona era menos dramática.

— Está maluco? Você viu o que aquele dragão fez a Líran e ao mago negro.

Aquele dragão é nosso amigo.

— Você continua insistindo nisso. Não importa o que ele seja: o que importa é o que você é e que continue sendo. Quero dizer, que continue vivo. Você consegue fazer um poeta falar tudo errado. Às vezes, eu te odeio. — Levantou a mão ferida. — Mas acho que já deixei bem claro que prefiro você vivo.

Pierre riu.

— Nunca me cansarei de sua eloquência, Gregoire. Não desista de escrever seu livro.

— Vou escrever um estudo sobre a loucura. Acha mesmo que será bem sucedido onde dois mistérios falharam?

Pierre segurou a garrafinha de tinta dentro de seu bolso. Sentiu um elo com o poder contido ali; as linhas na palma de sua mão se soltavam da pele e atravessavam o vidrinho, unindo-se à tinta preta.

— Líran sempre me disse que eu tenho o poder da História, uma linha de destino anexada a mim. Creio que é hora de descobrir o verdadeiro significado desse poder.

Gregoire abriu a boca para novo argumento. Boquiaberto ficou. Passou por ele uma assombração, rasgos de tecido negro dançando sem vento. O Vulto parou na frente de Pierre. Um punho de couro negro emergiu dos farrapos de seu manto. Pierre estendeu a mão e o Vulto colocou na palma aberta uma avelã.

Rederico trouxe informações sobre a movimentação do exército inimigo. Adelaide passou por ele, parou, virou nos calcanhares e apontou para o peito de Rederico. Ele estava segurando a Velha no colo e a Velha rosnou para Adelaide.

— Você é Frederico, o Fraco!

— Fui. Agora sou Rederico, o Raco.

Adelaide sacudiu a cabeça.

— Você é o novo rei de Patire.

— Ex-rei de Patire. Abdiquei em nome de Pierre.

— Você abdicou? Por quê?

— Rei Rederico não soa bem.

Rederico deu as costas a Adelaide e foi procurar silêncio. Menior tinha tombado na batalha. O último membro de sua família estava entre aqueles corpos todos que Leonard recolhia.


Capítulo 126