A Boca da Guerra

Capítulo 118: Como assim, não existe mais?

Marcus havia se esquecido de como cores eram agradáveis. Os campos estavam aborrecidamente parados, aguardando um temporal que engordava no céu. O próprio cinza tempestuoso das nuvens brilhava quase insuportável a olhos que estavam cegos há meses. Uma brisa calma rastejou pela relva, veio beijar as faces dos soldados libertados, que escancaravam as bocas em caretas risonhas.

Emanava um cheiro sórdido daqueles quinhentos homens. Vivianne fez esforço para não cobrir o nariz, mas manteve-se a vários passos de distância e procurou colocar-se em posição favorável ao vento. Que visão, aquele bando de vira-latas, barbados, cabeludos, magros. Porém não quebrados. Riam e seu riso alegrou Vivianne. Teve orgulho de seu irmão, que manteve os soldados firmes onde muitos teriam enlouquecido.

— Parece satisfeita, irmã. Nossos homens estão bem. Sugiro irmos a Sananssau para nos recuperar um pouco antes de voltar a Lune.

Não havia ocorrido a Vivianne que as masmorras permaneceram surdas às notícias da invasão.

— A cidade de Sananssau não existe mais — ela disse. — Precisamos ir à floresta de Sananssau, encontrar o que resta de Deran.

— Como assim, não existe mais? Espere, vamos organizar a marcha, então você me conta tudo. Quero saber também onde esteve esse tempo todo.

Marcus organizou o exército de mendigos, ele mesmo uma criatura asquerosa. Lucille encontrou os dois cavalos pastando perto dali. Recuperou-os e ofereceu-os aos dois homens que lhe pareceram mais enfraquecidos. Havia outros cinco com aspecto triste. Ficou definido que esses sete revezariam as montarias.

A floresta de Sananssau ficava a um dia de distância. Vivianne achou que aqueles homens fossem precisar de mais tempo, mas eles mantiveram a marcha firme, mesmo durante a noite. Marcus conhecia bem o suficiente a geografia de Deran para guiá-los ao luar. Sabia também que caminhos seguir para que não pudessem ser vistos da Pedra.

— Eles têm vigias, mas de lá não se enxergam os vales.

A primeira notícia que Vivianne deu ao irmão foi a queda de Lune. Se começasse pelo pior, seria mais fácil aceitar o resto, pensou. Contou-lhe sobre Farheim e Inlang e sobre como ela havia chamado Nuille.

— Sim — disse Marcus. — Já ouvi o nome antes.

Então Vivianne contou sobre Chambert, o dragão, Pierre e Líran. Falou sobre como encontraram o mago Fregósbor e como Pierre enfrentou Chelag’Ren. Frederico de Patire e Neville de Baynard, o caolho Luc, a morte de Maurice e Jean.

— Você parece admirar esse Pierre — interrompeu Marcus.

Pierre? Vivianne só estava contando tudo o que aconteceu desde que tinha deixado Lune para encontrar Clément de Deran.

— Você mencionou Pierre mais vezes do que qualquer outro, até mais do que a si mesma — disse Marcus. — E sua voz muda toda vez que fala sobre ele.

Vivianne não tinha percebido isso. A verdade é que Pierre estava em tudo. Quando ela pensava nele, a imagem aparecia com aquela aura de luz que ela viu pela primeira vez no palácio de Olivier, no dia em que eles resgataram Thaila. Vivianne tentou colocar essa aura em Coalim, Bojet, Germon, Frederico, até em Marcus, mas a luz se recusava. Só Pierre brilhava para ela.

— Você gosta dele — disse Marcus. Foi uma afirmação em tom de pergunta.

Será? Vivianne não sabia dizer. Talvez a dificuldade que ela tinha em compreender outros seres humanos abrangesse ela mesma. Talvez ela não soubesse ler os próprios sentimentos, mas Marcus tinha razão: Pensar em Pierre dava gosto, desenhar Pierre vinha naturalmente, lembrar-se dele era sempre bom.

Hm.

Fosse como fosse, Pierre estava em Chambert, Vivianne e Marcis estavam em Deran com quinhentos soldados imundos e famintos. Os soldados de Fulion já deveriam estar em Sananssau com suprimentos e armas, mas talvez Fulion ainda não tivesse encontrado um jeito de penetrar a barreira inimiga e avisar o Sul sobra a invasão. Menior ainda não tinha voltado de Vaguilar.

Marcus deixou Vivianne terminar a história sem interrompê-la outra vez. Fosse como fosse, havia coisas mais importantes do que sentimentos em jogo ali.

— Espanta-me Adelaide ter continuado a nos alimentar nas atuais circunstâncias — disse. — A Pedra sempre esteve preparada para as piores situações, mas alimentar quinhentos prisioneiros é peso para qualquer fortaleza.

— Só pode ser interferência de Clément — disse Vivianne.

— Clément é um fraco.

— Pode não ter força para desfazer o que foi feito, mas é bom o bastante para impedir a piora de uma situação.

— Precisaremos de muito mais do que isso se quisermos uma chance contra trinta mil invasores.


Capítulo 119