A Boca da Guerra

Capítulo 117: A Pedra

O padrão azul, cinza e verde, de Onda, grama macia e terra exposta se interrompia abruptamente aos pés de uma montanha formada por rocha inexistente no resto de Deran. Dali corriam rachaduras que se abriam em desfiladeiros, gargantas parecidas com as que, ao sul, abrigaram os cem mensageiros de Fulion.

Muito mais baixa que a Onda azulada e esbelta, a Pedra era escura, sólida, robusta. Se a Onda fosse mesmo uma onda e desabasse sobre a Franária, varrendo cidades, florestas, lobos e homens, a Pedra permaneceria imóvel e firme. Assim Vivianne pensava, mesmo quando descobriu que a montanha era oca.

— Lá está o castelo — ela apontou para uma estrutura que, à primeira vista, parecia uma formação natural na face sul da montanha. À segunda vista, percebiam-se torres e a muralha, a fortaleza a desdobrar-se como uma borboleta deixando a crisálida. — A cidade começa muito mais embaixo, na base da montanha. Parte dela está abaixo do chão. Ela tem três portões: o do castelo é o principal, mas há também um portão no norte e uma passagem menor na face oeste.

Tentaram primeiro o portão mais próximo, na face norte. Estava exatamente onde os cálculos de Vivianne as levaram. Um bloco sólido feito com a mesma rocha da montanha, esculpido em alto-relevo, como o painel de mármore em Chambert. Uma árvore esbelta preenchia a parte de cima com sua copa rica.

— De acordo com meus mapas, esta árvore era pintada de dourado. Será que existia mesmo uma árvore dourada em Sátiron?

— Existe — disse Lucille. — Não é dourada como o metal, mas sim como o outono. As folhas nunca se soltam e o sol, quando cai em ângulo, dá-lhes uma tonalidade que faz pensar numa espécie de ouro mais precioso do que ouro de verdade. É linda no verão, quando tudo é verde e Buck, em contraste, é outono. Minha época favorita para vê-lo é o inverno, pois Buck fica no norte de Sátiron, onde faz frio o bastante para nevar. O dourado de suas folhas é mais vivo quando o mundo ao redor é branco e azul.

— Buck — disse Vivianne. Que nome pouco grandioso para uma árvore fantástica.

— Ele era lobo antes de se tornar árvore.

— Buck é um nome comum para lobos?

— Acho que sim, não sei. Foi Yukari quem os nomeou e ela não hesitou. Ao lobo pardo, ela deu o nome de Buck. O lobo negro de sombras chama-se Jack, e o lobo cinzento, mestre das mentes, ela nomeou London.

— Buck, Jack e London. — Vivianne tentou ver grandeza nos nomes, não conseguiu. London talvez, porque os enes alongavam os ós.

— Vamos entrar? — perguntou Lucille.

— Não sei abrir o portão. Esperava encontrar alguma pista aqui.

Não havia dica, alavanca ou dobradiça, nem era possível atravessá-lo como o painel de Chambert.

— Vamos bater — disse Lucille. Ela mesma bateu três vezes contra a rocha, gerando um som baixo e seco.

Ninguém teria ouvido, mesmo se houvesse gente lá dentro. Vivianne começou a andar em direção aos cavalos, tentar a sorte na entrada oeste. Lucille continuou plantada onde estava.

— Lucille, o que você está fazendo?

— Esperando.

— A cidade está vazia.

— Então por que a trancaram?

Vivianne abriu a boca para retrucar, mas as palavras se acovardaram e a deixaram em silêncio com o beiço pendente. Um estalo duro como descarga elétrica. O portão se moveu para cima, devagar como tartaruga cansada. Das entranhas da montanha veio um sussurro gelado e penoso, como um último suspiro.

Os cavalos empinaram as orelhas. O de Vivianne sacudiu as rédeas das mãos dela e galopou embora. Vivianne se aproximou de Lucille, calma, pezinhos, nós vamos por aqui, esqueçam os cavalos. Lucille não parece assustada, para que se apavorar assim?

Juntas, Vivianne e Lucille entraram no bafo gelado da cidade abandonada.

As casas no interior da montanha eram formosas, linhas macias contra o fundo anguloso da rocha montanhosa não trabalhada. Lucille esteve aqui muito tempo atrás, antes da extinção dos elfos. Na época, as construções a fizeram pensar em cachoeiras brandas tornadas pedra em plena queda; lagos polidos de pedra sabão. Nada era pintado, as cores vinham todas de lanternas de papel e vidro, milhares delas, espalhadas por sobre as casas, pelas paredes, ladeando as ruas, no teto da cidade inteira. Espelhos capturavam a luz, não só das lanternas, como também de fora da montanha. Tapeçarias e rendas amainavam a sobriedade da rocha e, apesar de ser uma cidade sob a terra, a penumbra da Pedra era bela e colorida. No passado, quando os elfos eram vivos, a cidade era agradável, aconchegante. Chamava-se outra coisa, um nome sonoro e élfico, de pronúncia fácil, que Lucille não conseguia lembrar, mas que significava ao mesmo tempo reflexo e cor. Que lindo este lugar costumava ser, sem este véu de dor, este grito mudo angustiado.

A luz do dia ficou na entrada. Pairava um grito congelado de milhares de vozes repentinamente caladas. Aos poucos os olhos de Lucille se adaptaram à escuridão e ela notou uma espécie de pólen azulado, exalando iluminação quimérica. As casas abandonadas foram ganhando forma no azul morto, janelas com jeito de olhos de caveira. A luz viva do dia não se aventurava ali. Dentro da Pedra, quatrocentos anos antes, os últimos elfos morreram. O ponto final do genocídio deu-se aqui.

O pólen azul de tempo perdido cobria ruas, casas e ar com cortinas de fina poeira. Lucille avançou, chutou sem querer uma pedrinha. O barulho rolante repercutiu pelas paredes lisas, escalou as rochas lascadas até ecoar no topo perdido no escuro. O ar empoeirado vazou para trás de Lucille conforme ela se moveu.

Lucille havia esperado um vazio, mas apesar de toda a vida ter sido varrida da cidade, ela continha outra coisa, esse desespero azul com gosto de espera. Pedra, ar e luz quimérica esperavam que algo acontecesse, tinham certeza de que algo aconteceria. Infindáveis pontinhos de bruta expectativa. Parecia haver uma entidade ali, invisível, talvez viva, inegável como o medo.

No entanto, Lucille havia passado tempo demais na companhia de Nuille para acreditar-se em perigo. Como sempre, ao ver-se sozinha num lugar de mistério ou trevas, desejava que ele estivesse ali. Por outro lado, sabia que, fossem quais fossem as possibilidades penduradas naquele ar parado, nenhuma delas estava interessada nela ou em Vivianne. Havia uma entidade dentro da Pedra esperando por um evento, uma pessoa, os dois. Lucille não sabia o que era, só sabia que não esperava por ela.

Vivianne não pensava bem assim. Seu medo era quase palpável e lembrava Lucille de si mesma quando começou a viajar com Nuille. Como tudo parecia esquisito e assustador durante aqueles primeiros passos. Nuille sempre esperava quando Lucille congelava de medo. Ele esperava tanto tempo quanto ela precisasse para superar o pavor. Ela teria preferido que ele colocasse uma mão verde no ombro dela, assim como ela fez agora com Vivianne, e lhe assegurasse de que tudo estava bem.

Claro que, se Nuille tivesse feito aquilo, Lucille jamais teria sido capaz de lidar com qualquer rasgo de magia sem ele. Mas Vivianne não precisava aprender a encarar mistérios e horrores por conta própria. Ela não viajava com um mistério.

— Sem você, não posso prosseguir — disse Lucille. — Lembre-se de que não tenho permissão para levar adiante uma história que não seja minha. Posso apenas estar ao seu lado, avançar quando você o fizer.

— Como você consegue ficar tão calma?

— Sei que não estamos em perigo.

— Existe alguma coisa aqui. Esperando.

— Não por nós.

Vivianne apertou os lábios para que parassem de tremer. Ela forçou o pé direito a avançar um passo, seguido do esquerdo. Com os olhos dardejando em todas as direções, ela foi seguindo em frente, grata pela mão de Lucille ainda em seu ombro. Focou no mapa dentro de sua cabeça e traçou um caminho. Por sorte, uma cidade esculpida em pedra não permite muitas mudanças com o passar dos anos e a Pedra agora era praticamente a mesma que havia sido desenhada nos planos originais. Algumas áreas não apareciam no projeto inicial, passagens que levavam a andares mais fundos na terra, esculpidos quando a cidade se tornou mais populosa.

Os calabouços atuais (antigos celeiros) ficavam ao sul e estavam conectados ao castelo. Só o que os mapas carcomidos não deixavam claro (por ter se rasgado esse pedaço) era se eles tinham também conexão com a cidade. Vivianne esperava que sim. Que coisa: estava explorando uma arquitetura única e élfica, mas ao invés da felicidade alucinada que deveria estar sentindo, era medo trêmulo que enchia seus pulmões a cada inspiração. Alcançaria os calabouços e, se alcançasse, encontraria Marcus? Medos pequenos e grandes, o grito fantasma rodando lentamente por sobre sua cabeça no círculo preguiçoso de um urubu, Guerra, dragões e Vivianne ali no meio, justo ela, tão contente antigamente em passar a vida debruçada sobre mundos de papel!

Lucille apontou uma mancha vermelha na rocha. Pequena porém vívida em contraste com a pedra escura, uma estrelinha escarlate no coração da montanha.

— Flores nunca deixam de me impressionar — disse Lucille. — Desabrocham nos lugares mais inóspitos.

— Não num papel — disse Vivianne. — Ela não cresceria em cima de um mapa.

Lucille estranhou o comentário, mas concordou:

— Suponho que não.

Um poder terrível dizimou os elfos de Rênuni. Os que estavam espalhados pelo mundo foram caçados, acuados pela mesma onda de poder feroz. Na Pedra se esconderam, na Pedra pereceram. No dia em que a Terra dos Banidos surgiu, a Pedra foi inundada por fantasmas. Corpos, não houve algum. Os elfos simplesmente sumiram.

Seu grito de morte ainda ecoava nas cavernas vazias, a memória de sua existência amaldiçoava a montanha. Dormir à noite era impossível aos humanos que ali viviam por causa do grito mudo rondando suas casas, empedrando travesseiros. Nem a luz do dia acalmava a angústia dos mortos. Não existia paz na escuridão da noite nem acalento na luz do sol.

Os vivos migraram, trancaram a cidade. Sobrou só o castelo habitado apenas por humanos. Os calabouços originais eram dentro da montanha. Carcereiros e soldados se recusavam a ir onde a morte tinha voz. Os celeiros não tinham mais uso, gigantescos demais para abastecer somente o castelo, cuja população em breve murchou com o baque da Guerra. Salões amplos sem janelas, de onde o inverno nunca partia. Amiúde morriam prisioneiros ali, perdidos entre paredes tão distantes umas das outras que, no escuro, os prisioneiros temiam se afastar das grades para procurá-las e nunca mais encontrarem o caminho de volta. Nasceram rumores de que não havia outras paredes afinal de contas, mas sim um precipício e que vários corpos jaziam lá embaixo, intactos exceto pela queda, conservados pelo frio. Outros prisioneiros (e até mesmo alguns carcereiros) enlouqueceram com o eco que subia pelo corredor lúgubre, ligação com a cidade do genocídio.

O rei Clément jamais esteve nos calabouços-celeiro. Nem quando era criança e Vivianne quis explorar a Pedra (ela foi sozinha), nem quando cresceram e Vivianne, agora com noções de arquitetura, fez questão de voltar lá e medir os corredores, as paredes, o vão das portas. Nem mesmo quando Marcus foi preso Clément visitou os calabouços.

Ele, no entanto, salvou a vida de Marcus.

— Não o mate — disse à mãe. — Marcus é como um irmão para mim.

— Irmão! — Adelaide era puro sarcasmo. — Deixe de ser ingênuo, Clément. Um rei não se pode dar ao luxo de confiar em ninguém, nem mesmo na família verdadeira.

Clément havia perdido a conta de quantas vezes a mãe o advertira contra amigos, especialmente os mais próximos.

— Eles são os mais perigosos. Sabe por quê? Porque confiam em você, porque tudo o que fazem afeta você e vice-versa. A vida de um depende da vida do outro. Quando os desejos se chocam contra os estilos de vida, nunca é o desejo que morre, Clément. Desejos são um tipo de fome. Não morrem: matam.

Durante suas investigações, Clément ouviu boatos, muito poucos e muito esparsos, sobre uma jovem rainha Adelaide, resplandescente e gentil, desfigurada interiormente pela morte do rei, seu marido. O pai de Clément foi assassinado, ele tinha certeza disso, mas Adelaide se recusava a contar a verdade. Quem ousasse falar sobre o assunto era mandado a Sananssau, na Boca da Guerra.

— Mãe, foi você quem traiu Marcus, não o contrário. Ele não deve pagar por um crime que você cometeu.

— Quando foi que eu o traí?

— Você abandonou Vivianne à morte.

Havia uma pitada de desprezo na voz de Clément. Um pedaço dele odiava a mãe. A rainha virou de costas para o filho. Não queria que ele visse a dor que aquela pincelada de ódio lhe causava. Estaria perdendo o filho? Depois de tudo o que fez para protegê-lo, tudo o que abandonou, ainda assim o perderia?

— Vivianne estava morta quando deixei o acampamento — disse a rainha.

— Ela estava viva — disse Clément. — Assim como Coalim. Eu não estava tão inconsciente quanto você acredita. — Era mentira, ele não viu nada além de fogo aquele dia, mas sabia que só podia estar vivo graças à magia do Vulto e a magia do Vulto estava concentrada em Vivianne.

— Marcus é perigoso. Ainda mais agora que não tem nada a perder.

Adelaide sempre temera que Marcus tentasse roubar o trono de Clément. O que Adelaide temia, o resto de Deran desejava, mas Marcus jamais faria qualquer coisa do tipo. Estava ocupado demais defendendo a Franária de Farheim e Inlang.

— O melhor a fazer seria simplesmente dar a coroa a Marcus.

— Páre com esse absurdo! Ele te mataria.

— Metade de mim já está morta, mãe, você a abandonou e deixou morrer. Marcus é tudo o que me resta.

— E quanto a mim?

— E quanto a você? — Ele coçou o braço direito, o braço queimado. A queimadura coçava demais quando não doía. A pele atrofiada era repulsiva ao toque, como pele de cão sarnento. Clément afundou as unhas no braço mordacento até encontrar sangue.

A rainha correu até ele e segurou sua mão. Começou a passar uma pomada por sobre as queimaduras. Ela era a única pessoa que tocava aquela pele sem nojo. Até Clément tinha ânsia quando se via no espelho.

— Marcus não lutará contra nós — disse. — Você diz que ele não tem nada a perder, mas a verdade é que agora não tem nada pelo que lutar. Ele deve viver. Isto é uma ordem.

Foi a primeira ordem que ele jamais deu à rainha.

Clément teve coragem para lutar pela vida, mas não pela liberdade, de seu amigo. Marcus foi mantido vivo nas masmorras. Alexis e quinhentos homens de Lune lhe faziam companhia.

Quando Alexis chegou à Pedra com seu pequeno exército, exigindo notícias de Marcus, a rainha garantiu que o Mestre de Lune estava vivo, mas prometeu matá-lo, a não ser que Alexis e seus homens se rendessem. Ela mandou trazer o prisioneiro à luz do dia e ameaçou decapitá-lo ali mesmo, na frente de todos eles. Clément ainda estava delirante, sob cuidados do Mestre Curandeiro da Pedra quando isto aconteceu. Longe de qualquer magia, ele demorou muito mais para recobrar a consciência e não se recuperou de todo.

Marcus riu das ameaças da rainha, disse algo muito parecido com o que Clément falou no dia em que deu sua primeira ordem à mãe, sobre já estar morto e ter sido ela a matá-lo. Ele usou palavras menos educadas que as do rei.

— Lune jamais se renderá a você. — Falou com certeza e asco.

Surpreendeu-se (desapontou-se, admirou-se) quando a espada da rainha se aproximou da sua garganta e Alexis jogou a própria espada e o escudo no chão. A chuva ensurdecedora de quinhentas espadas batendo em pedra, o trovão dos escudos que as seguiram.

Desde então, todos aqueles guerreiros estiveram trancados no escuro. Isso teria de mudar. Clément, assim como todos na Pedra, viram Farheim e Inlang atravessar Deran em direção a Patire. Ao longe, os fiapos cinzentos de fumaça onde antes existiu Sananssau. Outros fiapos menores riscavam o céu onde os invasores encontraram vilas ou fazendas.

— Em breve eles vão embora — disse Adelaide.

Clément sabia que, no fundo, a mãe percebia que um exército daquele tamanho tinha destino mais permanente do que as incursões rotineiras. Ele perguntou a um dos soldados por que Farheim e Inlang ignoraram a Pedra.

— Estão dando as costas ao inimigo — disse.

— Eles não nos vêem como ameaça — respondeu o soldado.

A Pedra jamais se colocou no caminho dos nórdicos. Farheim e Inlang tinham uma preocupação apenas: Lune. Esta não ofereceu resistência alguma: sua alma estava metade morta, metade enterrada sob a montanha. A queda de Lune afundou o coração de todo soldado deraniano. Sananssau resistiu menos que dois dias. As muralhas falhas caíram depressa. Pessoas, animais, a própria cidade viraram comida para a Boca da Guerra.

Um dia depois, outro fiapo no Sul. Também Beloú estava vazia de alma. Os soldados de Patire estavam todos em Baynard. Beloú foi uma brincadeira fácil para os guerreiros do Norte.

No dia em que Vivianne e Lucille penetraram a montanha, dois criados trouxeram o jantar para os aposentos do rei Clément. Ele não desejava fazer as refeições com a mãe. Depressa e furtivamente, eles arrumaram a mesa. Ultimamente, Clément pensou, todos vinham se movendo como animais assustados. Olhavam por cima dos ombros, giravam nos calcanhares ao som de um broche caindo. Os soldados, fixados no sul, esperavam o dia em que Farheim e Inlang voltariam para transformar a Pedra num fiapo escuro no céu.

E a única pessoa capaz de fazer qualquer coisa estava presa sob os pés de Clément.

Estamos pedindo para morrer, pensou Clément. Eles mesmos removeram o pouco de esperança que tinham.

Marcus mantinha seus homens ativos. Mandou que medissem o tamanho das celas no escuro.

— Contem os passos.

Quando mencionaram os rumores de um precipício no fundo da caverna, Marcus, que já havia começado a contar passos, respondeu:

— Descobriremos em breve. Se me ouvirem gritar é porque eu caí.

As celas eram grandes o bastante para se correr dentro. Abdominais, flexões e até mesmo prática de luta. Impressionante o que se pode aprender lutando no escuro. O que se percebe, com os ouvidos e com a pele.

Controlavam o tempo contando gotas. Havia um homem responsável por isso em cada uma das cinco cavernas. E Marcus gritava ordens através das grades. Morreriam no escuro? Provavelmente. Mas, pela espada de Nakamura, morreriam sãos.

Contanto que não olhassem para dentro da montanha.

Um homem ficava encostado à grade de cada cela, olhos grudados no friso de luz emoldurando a única porta que ligava os calabouços à Pedra. Aquela porta era o fim de um amplo corredor que começava nas entranhas da terra. Há quatrocentos anos ninguém entrava na montanha. Marcus sempre pensou que a superstição, e não a razão, fosse o motivo. No entanto do fundo do corredor vinha um silêncio reverberante, um grito ao contrário.

— É mais escuro naquela direção — disse Alexis, o calvo.

— Naturalmente. Não há tochas nem velas nem vida lá embaixo — disse Marcus. — Estranho seria se fosse mais claro.

Outra voz se juntou à conversa. Marcus não a reconheceu por estar deformada pelo medo.

— E se vierem nos pegar?

— E se quem vier nos pegar, soldado? — gritou Marcus. — Até agora você viu algum fantasma? Responda.

— Não, senhor.

— Então por que você acha que eles viriam agora? Para calar suas lamúrias, só pode ser.

Os outros soldados riram.

— Poupe os fantasmas dessa trabalheira — disse Marcus. — Deve ser uma caminhada e tanto subir até o castelo.

A risada aumentou em intensidade. Ultimamente o medo gotejante havia cedido espaço para um zumbido de esperança. Onze noites atrás, um rei de verdade os havia visitado em sonho.

— Mestre — chamou Alexis, responsável por vigiar a porta pelas próximas quinhentas gotas. Falou com urgência e, pela direção de sua voz, Marcus soube que ele não estava olhando a porta com friso de luz.

Marcus foi até a grade. Das entranhas da Pedra emergiram dois vultos. Brancos feito fantasmas de uma vela. Pelo silêncio que se fez em todas as celas, seus homens já haviam percebido. Marcus manteve os olhos nas aparições e os ouvidos no silêncio de seus homens, que se aglomeraram perto da grade, mais ansiosos do que temerosos. Fossem os vultos o que fossem, traziam uma promessa — de uma quebra na monotonia sem luz do calabouço, talvez até de um fim.

Os fantasmas ganharam forma conforme se aproximaram das celas. Braços, pernas, um gingado de gato. Um deles tinha voz. Disse:

— Tem alguma coisa fedendo aqui.

A voz que respondeu não veio do outro fantasma, mas da garganta de Marcus, e era para ter sido um grito, mas saiu um sussurro:

— Vivianne?

Três gotas caíram no fundo da caverna. Então, Vivianne:

— Marcus?

— Será um espírito?

— Você está vivo!

— Você está morta!

Pausa.

— Eu não estou morta — disse Vivianne.

Não, ela não estava morta. E Marcus foi inundado por imenso alívio, uma felicidade indescritível que amoleceu os joelhos e forçou-o a pendurar-se nas grades para não cair. Em seguida, ficou com raiva. Os meses de luto, a dor tão funda que dava vontade de morrer também. Com mil lobos, ele mal reagiu quando Adelaide o prendeu. E tudo isso para quê, se Vivianne estava viva?

— Você podia ter me avisado — ele gritou. — O que veio fazer aqui?

— Te resgatar, é claro.

É claro! Marcus apertou as mãos ao redor das barras. A raiva deu lugar ao medo. Vivianne estava em perigo. Contava com a irmã para tudo. Pedia-lhe conselho, confiava em seu julgamento. Mas a guerra, o perigo — pela espada de Nakamura, isso era trabalho dele. No entanto lá estava Vivianne, trilhando estradas de fantasmas e maldições, voltando do mundo dos mortos pela cidade dos mortos. E o dragão. Marcus lembrou-se do estado de Clément, deformado, delirante. Como estaria Vivianne? O que ela sofreu? Como sobreviveu?

— Atravessamos a cidade dentro da montanha — disse Vivianne.

Um murmúrio de admiração e espanto percorreu as cavernas.

— Pelo visto, estão todos vivos. — disse ela.

Sentiu uma vontade enorme de rir. Nunca havia estado tão distante, ou tanto tempo longe de casa. Imaginar que seu mundo e sua vida entrariam tão facilmente em colapso. Agora segurando a mão de Marcus através da grade (ele a apalpou inteira, procurando ferimentos, queimaduras), pela primeira vez desde que deixara Lune naquele dia tão longínquo — quando foi? Cem anos atrás? — Vivianne encontrou um pedaço de seu lar. Marcus estava trancado no escuro. Fraco, possivelmente doente, mas vivo; a voz do irmão encontrou novamente os ouvidos da irmã, e Vivianne não se sentiu mais tão desamparada, como beija-flor em furacão.

— Você pode nos soltar? — perguntou Marcus.

Vivianne não tinha chaves. Que raiva de si mesmo, quanta incompetência! Vir tão longe, enfrentar tantos fantasmas e não se lembrar de trazer chaves. Uma fechadura se colocava entre ela e Marcus. Vivianne, filha adotiva do Vulto, que sobreviveu ao fogo de um dragão, enfrentou a morte viva dentro da montanha e, acima de tudo, beijou Nuille, nada podia fazer contra aquela fechadura. Não havia pensado a respeito. Entrar na cidade morta parecia tão grande feito, mas de que adiantam grandes feitos sem desfecho? Uma coisa tão pequena, a fechadura. Por causa dela tudo estava perdido.

Toda a alegria que ela sentiu ao encontrar Marcus evaporou com aquele:

— Você pode nos soltar?

Eu voltarei, ela pensou. Encontrarei algum instrumento, alguma ferramente, e voltarei. A ideia de perambular por aqueles túneis azulados mortos, não apenas uma, mas duas vezes, transformou o sangue de Vivianne em água fria.

Virou-se para Lucille. Lucille estava visível. Alguma coisa a delineava, não exatamente luz, qualquer coisa que remetia a mistério, como a chama que tornavam púrpuras as pupilas de Líran. Lucille estava atenta à porta de ligação entre calabouço e castelo. Parecia aguardar.

Vivianne estudou o friso de luz nas frestas da porta, chamativo na escuridão. Nada aconteceu. Estaria Lucille realmente esperando, ou seria esse o jeito dela, ficar assim imóvel, fixando o nariz em qualquer coisa? Chegou a acreditar na segunda opção, pois por vários minutos nada aconteceu. Então, um CLANG, não tão alto quanto soou aos ouvidos de Vivianne, e a fresta de luz aumentou, virou retângulo. No meio do retângulo, a silhueta de um homem. Luz e sombra se encompridaram pelo chão do corredor. Os prisioneiros levantaram mãos e braços, desviaram rostos, como se o próprio sol tivesse descido até o calabouço da Pedra.

— Preciso de uma tocha — disse a silhueta na porta. — Está muito escuro.

Alguém deve ter entregue uma tocha ao homem, pois a porta brilhou mais forte. Então a luz avançou e milhares de sombras começaram a dançar. Sombras de pedra, de rachaduras no chão, debatendo-se feito lagartixas na luz da tocha. Iluminou-se também o rosto do homem.

— Clément.

Clément derrubou a tocha. A chama protestou frenética aos seus pés.

— Vivianne? Você veio me assombrar?

— Estou viva, Clément. Você tem a chave? Dê-me aqui.

Ela foi brusca, até rude. Clément havia permitido que Adelaide trancasse Marcus no escuro. Ele estendeu a chave e Vivianne viu o braço queimado, em muito pior estado do que o de Coalim ou qualquer queimadura de Bojet e Germon. Ela deteve-se ali, perante aquela carne viva com dedos.

— Pelo menos não tivemos de amputar — disse Clément. — Embora às vezes eu deseje que sim.

A tocha arranhou o ar entre eles. Clément viu a expressão de dó no rosto de Vivianne, ela percebeu as lágrimas escorrendo pelo dele.

— Sinto muito — ele disse. — Por tudo o que fiz, mas principalmente por tudo o que não fiz.

Ela pegou as chaves e disse, não como quem acusa, mas como quem entende:

— Você não deveria ser rei.

— Eu sei.

Vivianne destrancou as celas. Homens magros gotejaram para o corredor com passos felinos e olhos de coruja.

— Não sei como tirá-los daqui — disse Clément. — Eu tenho a chave, mas o castelo está guardado por soldados fiéis à minha mãe.

— Existe um outro caminho — a voz de Vivianne o alcançou por detrás de quinhentas corujas.

Num instante, todos os olhos se apagaram. Os soldados se viraram para Vivianne no túnel da cidade morta.

— Duas fileiras — disse Marcus. — Marchar.

De dois em dois eles desapareceram na garganta rochosa. Nenhum deles queria ir naquela direção, mas se eles não seguissem a Mestra de Lune, que havia sobrevivido a um dragão, teriam de seguir um rei que tinha chaves mas era incapaz de abrir portas.

Uma dor dilacerante atingiu o braço de Clément, repentina e terrível, matou a voz do rei ainda no pulmão. Foi Lucille quem agarrou seu braço.

— Você está parado por quê? — ela disse. — Todos os seus medos já se realizaram. A Franária precisa da Pedra.

Tão depressa quanto havia chegado, a dor sumiu, e a menina mistério esvoaçou caverna afora. Ela não foi engolida pela escuridão como os quinhentos soldados de Marcus. Permaneceu vividamente turva, da mesma forma que o relâmpago fica por vários minutos preso na retina.

Quinhentos soldados seguiram as duas flâmulas de esperança que fluoresciam nas entranhas rochosas da Pedra. Que tipo de mistério as mantinha acesas onde tudo o mais era treva? Uma treva diferente da comandada por Guerra, mas ainda assim treva.

O corredor levou os soldados para a morte gritante que habitava a montanha. A fuligem azul os envolveu, prendeu-se aos seus cabelos e roupas. Muitos teriam dado as costas àquela luz assustadora, voltado correndo às celas sem luz, mas Marcus marchava determinado ao lado de sua irmã, que havia cruzado tudo aquilo por eles. Lucille havia se reunido a Vivianne na frente da fila. Ninguém sabia quem ela era, mas sentiam poder ao seu redor. Ela lhes garantiu que a morte na montanha não procurava por eles.

Lucille podia dizer-lhes o que quisesse, que os próprios lobos de Sátiron os protegiam, os soldados não relaxariam. Mortais temem todas as mortes, assim como quem não sabe nadar teme todas as águas. No entanto eles se sentiram seguros de que aquelas águas não desejavam afogá-los e, portanto, não formariam tempestade.

Vivianne não havia antecipado a calma que sentiria ao cruzar a montanha pela segunda vez. Toda aquela preocupação com a chave e nem era tão ruim passear pela Pedra. Gostaria de explorar aqueles cantos obscuros, quase tão empolgantes quanto as passagens secretas de Chambert. Estudou os homens por cima do ombro. Pensar que quinhentos soldados pudessem fazer tanto silêncio.

A primeira vez que Vivianne entrou na montanha atrás de Lucille, o medo anuviou sua mente. Agora, após longas horas de nada ter acontecido, de o encontro com Clément ter sido a coisa mais extraordinária daquela empreitada, a indiferença de Lucille finalmente a contaminou. O medo regrediu, outras sensações afloraram. Uma vontade grande de chorar aquela morte atormentada, prisioneira como Marcus. Morte que não deveria ter acontecido.

As trevas que rondavam a Pedra pertenciam àquela morte. Ela mesma chorava o genocídio de que foi desfecho. Havia sido forçada a engolir os elfos todos. Algumas mortes são perversas, a maioria, indesejada, mas raramente existe uma morte que não quer acontecer. Mais ampla que muitas outras mortes, esta preferia não ter existido. Por quatrocentos anos vinha chorando essas lágrimas empoeiradas, lamentando fantasmas que deviam ser vidas.

Vivianne absorveu aquela melancolia. Atrás de si, o medo reinava. Ao seu lado, Lucille sorriu-lhe.


Capítulo 118