A Boca da Guerra

Capítulo 116: As cartas

O fascínio que Vivianne sentia pelas arquiteturas humanas, Marcus tinha pelas belezas da natureza. O irmão pragmático se tornava quase poético quando falava nas lonjuras rachadas de Deran, no terreno acidentado que causava a ilusão de uma planície regular, mas que escondia em suas dobras vales inteiros, fendas, cachoeiras. Vivianne achava tudo aquilo desconfortável, especialmente da perspectiva de viajante. Impossível cavalgar naqueles campos acidentados. Lucille e ela mantinham o cavalo a passo, de vez em quando trotavam. Marcus, por outro lado, achava excitante o modo como o verde rasteiro era de repente interrompido por um degrau de rocha escura.

— É que nem um quebra-cabeças montado por criança impaciente — ele disse. — Ao invés de procurar o lugar certo das peças, a criança forçou o encaixe onde queria. — Ele demonstrou num quebra-cabeças de verdade, empurrando com o dedão uma peça no lugar errado. A parte empurrada se afundou e deformou um pouco a peça ao lado, enquanto o outro lado da primeira peça espetou o ar com afiada indignação.

— Isto está errado — disse Vivianne.

— Quando eu faço, sim, mas a natureza, quando inventa essas coisas, transforma a irregularidade em maravilha.

Vivianne concordava. Por isso mesmo admirava tanto a arte humana. Homens têm de trabalhar muito para construir qualquer coisinha, quanto mais uma maravilha. A arte, a técnica, a paciência necessárias para levantar um castelo, quando para a natureza era tão simples moldar gigantes azuis como a Onda.

Uma folha de papel voou da sela de Lucille, quase bateu no rosto de Vivianne. Outras folhas seguiram a primeira, numa revoada de borboletas brancas, planando, dançando, provocando Lucille, que pulou do cavalo para recolhê-las.

A revoada de folhas e Lucille dançando entre elas, saltitando e esticando o braço para recapturar uma a uma pareceu tão bonito a Vivianne, que ela ficou admirando. Lucille agia sem desepero. Movia-se com a eficiência de um pastor cercando seu rebanho. Só depois de ela ter colocado os papéis de volta em seu estojo de couro e amarrado o fitilho que segurava tudo no lugar, foi que ocorreu a Vivianne ajudar.

— Desculpe — ela disse. — Estava distraída.

Lucille sorriu.

— Eles não teriam deixado você pegá-los — disse Lucille. Interpretou a tensão no queixo de Vivianne como confusão, tentou explicar que os papéis eram como pombos-correio, que iriam para certo lugar quando Lucille terminasse de escrever neles, e que não deixavam ninguém mais manuseá-los.

O verdadeiro motivo da tensão de Vivianne era o sorriso cheio de dentes de Lucille.

— Você é parente de Pierre?

Lucille estava de costas para o vento. Algumas mechas se soltaram da trança e desenharam caracóis pelo rosto rosado. Ela montou no cavalo, a boca relaxada porém selada, como aquelas estátuas satironesas cheias de segredos.

— Eu os uso para escrever cartas.

— Para quem? — perguntou Vivianne.

— Meu pai.

— Você nunca escreve para a sua mãe?

— Não conheci minha mãe.

— Sinto muito.

Agora entendo porque às vezes mistérios são tão silenciosos. Sei como é ter medo de revelar certas coisas. Ter espiado segredos e futuros inexplorados e não poder revelá-los a alguém.

— Cartas.

Lucille parou de escrever e descansou os olhos no céu coberto de sardas brancas e um sorriso prateado de viés quase tocando a Onda. O Norte era uma mancha negra, a silhueta da Onda. Lá no topo estava Nuille. Vivianne se virou no chão e Lucille soube, pela mudança na respiração, que a outra estava acordada. Talvez Vivianne se admirasse com o espetáculo de luz lá no alto, talvez observasse Lucille.

Muitas vezes Lucille acordou no meio da noite e se deparou com Nuille atento às estrelas. Sobre o que ele pensava? Queria tanto que conversasse com ela, amainasse seus medos, a sensação de vazio que tornava ocos seus ossos. Por acaso Vivianne sentia o mesmo?

— Você sabia que a lua tem ancestrais?

Vivianne não respondeu, mas sua respiração abrandou ainda mais.

— O sol também, assim como isto — Lucille deu dois tapinhas no chão. — Na minha primeira aventura com Nuille, eu conheci um ancestral de nosso mundo. Na época eu não entendia o que estava vendo, ou mesmo que nós havíamos ido para o passado. Não esperava que Nuille me levasse tão longe. Ou talvez esperasse, talvez soubesse. Muitas vezes nos recusamos a saber o que sabemos, não é verdade? Porque admitir que eu sabia é admitir que eu desejava ir para onde voltar estivesse além do meu alcance. — Lucille acariciou a carta em seu colo. O papel parecia ter brilho próprio, iluminado pela prata da lua. — Será que ele as lê? Que elas o fazem feliz? É possível que o entristeçam. Me pergunto se ele ainda me reconhece nas coisas que escrevo. Me pergunto também se, caso eu tivesse a chance de voltar atrás, escolheria não ter visto a ancestral da lua. — Ou você. Lucille dobrou a carta. — É melhor dormir.

A Onda não era a única montanha a esconder estrelas naquela noite. A silhueta da Pedra já se insinuava no Oeste.


Capítulo 117