A Boca da Guerra

Capítulo 102

Encontrei Neville em Tuen. Ele estava junto à vala de todos os corpos, tão silencioso e imóvel quanto a árvore que ele encarava. No centro do túmulo ela fincou raiz e as folhas verdes pulsavam fosforescentes com o júbilo de toda aquela morte. Deve ter chegado com a escuridão, farejando sangue. Eu tive vontade de dizer:

— Viu como eu disse a verdade? Ela medra de morte, essa árvore negra. — Ao invés disso eu chamei — Neville. Meu meio-irmão acordou.

O motivo de eu ter ido a Tuen foi menos procurar Neville do que me afastar de Pierre. Primeiro ele se torna pupilo de um dragão, depois passeia pela Terra dos Banidos com um lobo de Sátiron, então acorda em Chambert com um mago ao seu lado mais antigo do que Chelag’Ren.

Fregósbor não sabia meu nome.

— Diários de Gregoire

Ah, que vergonha que eu tenho hoje daquele ciúme! Eu devia ter voltado à Fronteira, ao invés disso eu... Bem. A História sabe o que eu fiz.

— Diário revisitado

O exército deburiano se espichou pela estrada. Comprida lagarta com quase mil pares de pernas, uma centena de cavalos de guerra, três dúzias de carroças de carga. A cabeça, homem colossal de juba loira, ergueu a mão e a lagarta brecou aos poucos, conforme a ordem ia passando para o rabo.

Um cavalo se destacou do corpo da lagarta, cavalgou pela beira da estrada até o rei, um pouco virado em sua sela, um ombro inclinado para cima, olhar desconfiado de esguelha em direção aos destroços de Tuen. Do outro lado da estrada já se via a poeira levantada por Patire.

O cavaleiro era Maëlle e o rei lhe perguntou:

— O que faremos?

— Acampamos.

— Fulbert está aqui.

— Nós também.


Capítulo 103