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O barqueiro, com movimentos lentos e precisos, impulsiona o pequeno barco, e nos afastamos da margem. As águas do rio, agora turvas e vermelhas como sangue, estão muito agitadas. Ondas de sangue dançam ao nosso redor, criando padrões hipnóticos na superfície macabra da água.
O silêncio é quebrado apenas pelo som rítmico dos remos cortando a água tingida. A presença do barqueiro ao meu lado é estranhamente reconfortante, embora sua figura continue envolta em mistério. Sua veste longa e fluida brilha intensamente, refletindo a luz da lua escarlate e criando um contraste surreal e ao mesmo tempo terrível. O tecido parece quase celestial, movendo-se como se tivesse vida própria, ondulando em cada movimento do barco.
Seu rosto permanece oculto nas sombras, apenas visível o suficiente para perceber traços indistintos e indecifráveis. Os olhos, porém, são penetrantes, brilhando com uma luz própria que parece ver através de mim, como se pudesse ler meus pensamentos e medos mais profundos. A expressão serena e imperturbável do barqueiro contrasta com o caos ao nosso redor, aumentando a sensação de mistério e reverência.
Enquanto o barco avança pelo rio sanguinolento, sinto que estou deixando para trás qualquer vestígio de segurança que a margem firme poderia oferecer. Estou agora totalmente entregue aos desígnios desta visão, um passageiro em uma jornada desconhecida. As sombras ao redor parecem ganhar vida, murmurando sons horripilantes e promessas confusas. Cada sussurro é um eco de histórias milenares, de almas que já passaram por este caminho antes de mim.
À medida que nos afastamos, o redemoinho no centro do rio se intensifica, e posso ver formas indistintas girando em seu núcleo, como se fossem espíritos perdidos atraídos pelo vórtice. A correnteza parece ter vida própria, nos conduzindo ao desconhecido. O ar ao meu redor parece carregado de energia, e uma sensação de expectativa cresce dentro de mim.
O barqueiro finalmente fala, sua voz, ecoando como uma força no vento, reverberando nas profundezas da minha alma:
— Esta jornada não é apenas para buscar respostas, mas para encontrar a si mesmo. O que está por vir testará sua coragem e sua fé e te fará ver coisas que mudarão seus pensamentos.
Essas palavras ressoam profundamente dentro de mim, criando uma sensação, um sentimento de propósito, que começa a substituir o medo. Sinto que estou no caminho certo, mesmo que não compreenda completamente para onde estou sendo levado. A luz da lua e o brilho rubro do rio se entrelaçam, criando um caminho de mistério, mas de maneira incrível, também de esperança.
O barco continua a deslizar pelo rio ensanguentado, e eu, determinado, mantenho os olhos fixos no vórtice do redemoinho, pronto para enfrentar o desconhecido e desvendar os segredos que essa estranha jornada guarda para mim. num momento rápido, olho ao redor, para as margens do Rio, para minha bela cidade que está mergulhada na escuridão. Penso em todos os bons homens e mulheres que conheço neste lindo vale. É uma terra de gente forte, de lutas e de histórias belas e profundas. O vento parece trazer toda essa força sobre mim, murmurando:
— Você não está só nessa jornada. Todos os que ama estão com você. Todos os que amam a Deus também estão com você e certamente é Deus quem te chama nessa missão. Não temas!
À medida que entramos na área de circulação do redemoinho, o barco começa a fazer movimentos em círculos, contornando o centro em espirais cada vez menores, cada vez mais próximas, até finalmente afunilar e... Meu Deus! Se precipitar em seu interior. Agora estou completamente assustado.
Para meu pavor, descemos por uma torrente de sangue, numa espiral sem fim, sentindo o barco sendo violentamente sugado. Não vejo mais o Rio Itajaí-Açú, nem mais um pedacinho de Blumenau, nem mesmo o céu estrelado. A grande lua cheia desaparece do meu campo de visão, substituída por um turbilhão de escuridão, sons e movimentos. Apenas percebo que estou indo em grande velocidade, num lugar escuro e claustrofóbico, como se houvesse paredes próximas, comprimindo-me de todos os lados. O som das águas turvas ao redor é ensurdecedor, como se o barco estivesse dentro de uma grande cascata, aumentando minha sensação de desespero.
Independente de meu pânico, o barco segue avançando, sendo levado por essa corrente sombria e implacável. Certamente o tempo já não é meu prisioneiro. Eu é que devo ser dele, pois a angústia neste lugar parece não ter fim. A sensação de estar preso em um pesadelo enigmático é avassaladora, e a desesperança ameaça tomar conta de mim.
Permaneço quieto, tentando acalmar meus pensamentos e esperando que a jornada termine. Meu desejo é sair, andar, respirar, buscar um lugar aberto e iluminado, mas a realidade é que estou à mercê desta força incompreensível contra a qual nada posso fazer. A tensão no ar é palpável, e meu coração bate descontroladamente, ecoando o caos ao meu redor.
O barqueiro, no entanto, permanece imperturbável. Seus movimentos são precisos e controlados, como se ele estivesse navegando por essas águas traiçoeiras por toda a sua vida. Por um momento o obervo. Para mim ainda é uma figura enigmática, longe de minha compreensão, mas ao mesmo tempo é reconfortante tê-lo como companheiro de jornada. Vejo seus olhos, brilhando intensamente, permanecendo fixos à frente, determinados e impenetráveis. Esses detalhes me deixam ainda mais perplexo em relação a ele, aguçando meu desejo de saber quem é, e qual seu papel nessa visão até aqui incompreensível.
Para minha alegria, em meio à escuridão e ao terror, algo começa a mudar. Uma luz fraca e distante aparece à frente, tremeluzindo como uma chama em meio à tormenta. A esperança começa a brotar dentro de mim, uma pequena fagulha de fé que se recusa a ser extinta. Concentro-me naquela luz, focando toda minha energia e desejo nela, para que venha me iluminar e me tirar dessa escuridão.
O barqueiro, que até então se mantinha em silêncio durante nossa precipitação, fala novamente, sua voz firme e serena cortando a escuridão:
— Não tema, pois a luz sempre encontra seu caminho na escuridão. Confie e deixe-se guiar por ela. Este é o início de uma nova jornada, e a esperança será sua companheira por um longo percurso. Deus te conduzirá com poder e glória!
Essas palavras ecoam em minha mente, dissipando um pouco do medo. Sinto uma nova força crescer dentro de mim, uma determinação renovada para enfrentar o que está por vir. O barco continua a descer pela torrente de sangue, mas a presença daquela luz, embora pequena, traz um conforto indescritível. Com certeza é uma luz divina que irá ordenar o caos.
À medida que nos aproximamos da luz, ela começa a crescer, iluminando o caminho à nossa frente e revelando um novo horizonte. A escuridão ao redor começa a se dissolver, dando lugar a uma claridade suave e acolhedora. A tensão diminui, e meu coração se acalma, batendo agora com uma esperança renovada.
A claridade se torna cada vez mais forte, transformando tudo ao meu redor em um véu translúcido. Em segundos, não consigo mais ver nada. O pensamento de que este é o fim atravessa minha mente. Vou me desfazer neste mar de luz, eu, o barco e o barqueiro. Mas, surpreendentemente, a luz não me afeta; ela apenas inunda tudo ao meu redor, fazendo desaparecer tanto o barco quanto o barqueiro, deixando-me com a sensação de estar flutuando em um vazio iluminado.
O ambiente é de uma clareza ofuscante, como se tudo estivesse mergulhado em pura luz. Não há formas definidas, apenas uma luminosidade suave que parece emanar de todas as direções, envolvendo-me completamente. A princípio, essa intensidade é esmagadora, mas logo percebo que a luz não é hostil; ela é acolhedora, quase materna, e traz consigo uma sensação de segurança.
O silêncio é absoluto. Não há som algum, apenas um completo e misterioso silêncio que parece preencher todo o espaço ao meu redor. É um silêncio profundo, que vai além da ausência de ruído e parece ressoar na minha própria mente. No entanto, percebo que estou me movendo. O deslocamento é lento, firme e macio, como se estivesse sendo levado por uma corrente invisível. Não há solavancos ou trepidações, apenas um movimento constante e suave que começa a me acalmar, dissipando o medo que antes me dominava.
A sensação de flutuar neste vazio iluminado é ao mesmo tempo surreal e pacífica. É como se o tempo tivesse parado, e eu estivesse suspenso em uma eternidade de tranquilidade. Cada respiração parece mais fácil, e a tensão nos meus músculos se dissolve como névoa ao sol. Aos poucos, uma paz profunda começa a me envolver, substituindo o terror que antes dominava meu coração.
À medida que me entrego a essa paz, minha mente começa a clarear. A curiosidade e a vontade de entender o que são essas visões misteriosas retornam com força total. Sinto-me renovado, determinado a desvendar esse enigma, a descobrir o significado dessas experiências sobrenaturais que parecem estar me guiando para um destino desconhecido. A luz ao meu redor, agora menos intensa, parece guiar meus pensamentos, iluminando o caminho para a compreensão e a revelação. Assim enebriado pela luz, percebo que finalmente ela se desvanece e me permite ver onde estou. A primeira sensação é perceber uma brisa suave e refrescante tocando minha face. Me vejo as margens de um rio límpido, com suas águas refletindo os raios solares. Estou sentado em uma areia branca, fofa, como se estivesse acordando numa manhã bela e preguiçosa.
Onde foi parar a noite e sua majestosa lua de prata? No céu, o rei sol está sozinho. As estrelas se foram, seu brilho foi ofuscado. Aqui, na margem deste rio cristalino, onde as águas guardam segredos intocáveis, vejo uma elevação que o contorna, não muito alta, coberta de grama verde e flores. Flores de todas as cores, exalando perfumes que mesclam aromas doces e frescos, enchem o ar com uma fragrância quase mágica.
Além desta elevação, revelam-se construções magníficas, como se fossem feitas de vidro e cristais que refletem a luz do sol nascente, criando um espetáculo de cores cintilantes. As fachadas reluzem como se fossem feitas de diamantes, e as torres se erguem imponentes, tocando o céu com graça e leveza. Nunca vi algo tão impressionante, tão belo, mas ao mesmo tempo tão acolhedor. As construções emitem uma aura de serenidade, quase como se transmitissem boas-vindas silenciosas a todos que se aproximam.
Cada detalhe das construções é meticulosamente elaborado, com janelas de vitrais coloridos que brilham como arco-íris sob a luz do sol. As portas são misteriosamente esculpidas, adornadas com símbolos e padrões que parecem contar a história do lugar. Caminhos de pedras lisas e brilhantes serpenteiam pelo cenário, convidando o visitante a explorar cada canto deste lugar encantador.
A perplexidade toma conta de mim. Cada passo que dou parece ecoar nessa vasta paisagem, onde o ar é puro e carregado de aconchego e paz. Estou tão extasiado, observando os grandes prédios, que demoro a perceber que lá, na parte superior da margem, na elevação, atrás dos arbustos e flores, há muitos olhos a me acompanhar. São olhares curiosos, cheios de expectativa, agitados. Eles me observam em silêncio, como se aguardassem minha próxima ação, como se eu fosse uma peça importante em um grande quebra-cabeça.
Sinto uma mistura de curiosidade e receio. Quem ou o que poderia estar por trás desses olhos? Seriam os guardiões desse reino magnífico, prontos para compartilhar seus segredos, ou apenas espectadores silenciosos de uma história ainda por se desenrolar? Cada movimento meu é seguido atentamente por esses olhos enigmáticos, que parecem estar em todos os lugares e em nenhum ao mesmo tempo. A sensação de ser observado é intensa, mas não ameaçadora, despertando em mim uma curiosidade insaciável e uma vontade de descobrir mais sobre este mundo misterioso.
Crianças... muitas crianças é o que vejo ao chegar aos pés da elevação. Uma multidão de olhos curiosos. Logo imagino que ali seja uma escola e que certamente deve ser o horário da recreação, pois o pátio está lotado. Sem pensar duas vezes, vou na direção delas. Subo o contorno elevado na curva do rio e me aproximo do local.
O pátio é um jardim encantador, um verdadeiro paraíso para as crianças. Há balanços pendurados em árvores frondosas, escorregadores de madeira polida e uma fonte que lança jatos d'água brilhantes sob a luz do sol. Risadas e gritos de alegria ecoam pelo ar, misturando-se ao suave zumbido dos insetos e ao canto dos pássaros.
As crianças correm livremente, brincando de pega-pega e esconde-esconde entre os arbustos floridos e os canteiros coloridos. Elas estão vestidas com roupas simples, mas radiantes, refletindo a alegria pura e despreocupada da infância. Devido a minha presença, muitas param suas brincadeiras e me olham com curiosidade, enquanto outras parecem não se importar comigo, e seguem gritando, correndo, pulando..
Procuro encontrar um adulto na escola, ou o que seja esse local. Estou com muitas dúvidas e muitas perguntas para fazer. Afinal, que lugar é este e como fui parar ali? Não só o que é essa espécie de escola, mas o que é toda essa cidade de construções explendidas? E como eu posso voltar para Blumenau, para meu tranquilo bairro, minha casa? E o que tudo isso significa? Porque fui trazido até aqui? Afinal me interessa saber o propósito desse movimento.
Finalmente, vejo um adulto ao longe, próximo a um grupo de crianças que parecem estar ouvindo uma história. É uma mulher de aparência gentil, com um sorriso acolhedor e olhos que brilham com sabedoria e compreensão. Ela parece ser a cuidadora ou professora do local. Caminho em sua direção, meu coração batendo rápido com a expectativa de obter respostas.
Quando me aproximo, ela levanta os olhos e me dá as boas-vindas com um aceno amigável. As crianças ao seu redor param de ouvir a história e me olham com aquela curiosidade típica dos pequenos. Sinto um misto de alívio e nervosismo enquanto me preparo para fazer minhas perguntas.
— Aqui é o Jardim das Crianças, diz a mulher, com uma voz suave. — Você deve estar cheio de perguntas. Venha, sente-se conosco, e eu tentarei responder tudo o que puder.
Enquanto me sento ao lado das crianças, a sensação de espanto e deslumbramento ainda me envolve, mas agora misturada com um fio de esperança. Talvez neste lugar acolhedor e intrigante eu encontre as respostas que procuro e descubra como voltar para minha vida tranquila em Blumenau. Um pouco apressado eu digo à mulher:
— Oi senhora... Me chamo Júlio. Gostaria de saber não só que escola é essa. Gostaria de saber que cidade é essa.
Ela gentilmente me responde e sua resposta me surpreende:
— Desculpe Sr. Júlio. Quando eu falei que aqui é o Jardim das Crianças, me referia a toda a cidade. Tudo é o Jardim das Crianças. Por favor, aguarde um pouco que alguém vai lhe ajudar a entender tudo.
E antes que eu possa continuar com minhas perguntas a senhora se retira rapidamente.
Próximo à mesa onde estou estabelecido, várias crianças estão brincando, a maioria sem sequer me perceber. Mas um dos meninos, de cerca de 13 ou 14 anos, com cabelos castanhos despenteados e olhos curiosos, se aproxima timidamente. Ele veste uma roupa bem modesta, mas bonita, uma beleza singela, e seus olhos brilham com a curiosidade típica de um jovem cheio de perguntas.
— Oi, moço... Você é novo aqui? Qual o seu nome? — pergunta ele, com uma mistura de timidez e ousadia.
Acho interessante ele vir até mim e perguntar. Como estou cheio de dúvidas, respondo a ele, mas já fazendo minhas próprias perguntas.
— Oi, rapaz... Eu me chamo Júlio, e na verdade não sei exatamente como vim parar aqui. Não é incrível? Na verdade não tenho a menor ideia de onde estou.
Com tantas questões na mente, não consigo me controlar e sigo perguntando.
— Vocês estudam nesse colégio? Qual é o nome dele? E seus pais, eles estão a....
Antes de terminar a frase, sou abruptamente interrompido por alguém que me agarra pelo braço com força, tirando-me da cadeira de forma brusca e repentina. Sem tempo para reagir, sou levado para longe das crianças por um homem forte, que me arrasta com firmeza e determinação. Sua presença impõe respeito e seu toque transmite uma energia inegável, tornando impossível qualquer resistência da minha parte.
Com uma voz firme e autoritária, o homem diz:
— Por favor, tenha paciência. Você seguiu a precipitação da lua de prata até aqui e agora precisa entender certas coisas antes de sair questionando a tudo e a todos.
Assim que sou liberado das mãos do homem, viro-me rapidamente para ver quem é. E então, para minha surpresa, percebo que é o barqueiro. Reconheço suas vestes brilhantes, que refletem a luz de maneira quase mágica. No entanto, agora posso ver claramente seu rosto. Ele é um homem de aparência sábia, já de idade avançada, com uma barba branca espessa e cabelos longos igualmente brancos. Seus traços são marcados pelo tempo, mas há uma dignidade e serenidade nele que são inconfundíveis.
Seus olhos, contudo, são o que mais me impressiona. Brilham com uma vivacidade inesperada, uma luz interna que transmite uma sensação de autoridade misturada com compreensão profunda. A intensidade de seu olhar parece penetrar minha alma, como se ele pudesse ver cada um dos meus pensamentos e sentimentos mais íntimos.
Por um momento, fico sem palavras, ainda tentando processar a situação. A figura enigmática do barqueiro, que antes parecia distante e misteriosa, agora está diante de mim, revelando-se como um guia e mentor. A certeza e a sabedoria em seus olhos me trazem um estranho consolo, e sinto que estou prestes a embarcar em uma nova fase desta jornada, onde respostas e revelações finalmente começarão a surgir.
— Você é o Barqueiro? Falo olhando em seus olhos. — Como veio até aqui? E que lugar é este?
Ele faz um gesto pedindo paciência, vira-se de costas e conversa com as crianças, dirigindo-se ao menino com quem eu estava tentando conversar.
— Guilherme! — diz ele, com uma voz que mescla firmeza e gentileza. — Por favor, vá com seus irmãos para o almoço, já passou do horário. Eu fico com o visitante e lhe mostro o lugar. Depois conversarei com você e com os outros sobre ele.
Com isso, as crianças começam a se dispersar lentamente, ainda lançando olhares curiosos na minha direção. O barqueiro me olha novamente, agora com um ar mais suave. Apesar de minha confusão e impaciência, sinto que ele é alguém em quem posso confiar para guiar-me neste estranho e encantador lugar.