Publicado originalmente no portal A Vírgula em fevereiro de 2024.
Ao mergulharmos nas entranhas da história, deparamo-nos com uma complexa teia de relações sociais, econômicas e políticas que moldaram o mundo em que vivemos. Dentro dessa tapeçaria, o machismo emerge como um fio condutor que, ao longo dos séculos, teceu-se profundamente na estrutura da sociedade, influenciando não apenas as relações de gênero, mas também os próprios fundamentos da democracia.
Para compreendermos a interconexão entre machismo e democracia, é essencial recuar até os primórdios da civilização humana, onde encontramos as raízes do patriarcado e da subjugação da mulher. Friedrich Engels, em "A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado", oferece uma análise perspicaz de como a transição de sociedades coletivistas para sociedades baseadas na propriedade privada foi acompanhada pela subordinação feminina.
Nas sociedades primitivas, onde a propriedade era comunal e os laços familiares eram matrilineares, as mulheres desfrutavam de um status relativamente igualitário em comparação aos homens. No entanto, com a ascensão da agricultura e da acumulação de excedentes, surgiu a necessidade de controlar a herança e a propriedade, o que levou à privatização dos recursos e à emergência do patriarcado.
Nesse contexto, foi crescendo o papel da mãe, filha, irmã...como propriedade do homem, uma peça fundamental na transmissão da linhagem e na garantia da herança. Seu status foi reduzido a mero objeto de troca e reprodução, privada de autonomia e direitos básicos. Essa subordinação, enraizada nas estruturas econômicas e sociais emergentes, criou as bases para a desigualdade de gênero que permeia as sociedades até os dias de hoje.
A relação entre a subjugação das mulheres e o surgimento da democracia liberal é profundamente entrelaçada. O liberalismo, com sua ênfase na propriedade privada e nos direitos individuais, surgiu em um contexto em que a exclusão das mulheres do domínio público já estava firmemente estabelecida. Os teóricos liberais, como John Locke e Thomas Hobbes, fundamentaram seus argumentos sobre a base da propriedade privada, mas essa concepção de propriedade era estritamente limitada aos homens.
Dessa forma, a própria essência da democracia liberal foi moldada por uma visão de mundo patriarcal, onde as mulheres eram consideradas cidadãs de segunda classe, sem voz nem voto no contrato social que fundamenta o Estado de Direito. A igualdade perante a lei, princípio central da democracia, foi sistematicamente negada a esse público, perpetuando assim a exclusão e a marginalização. Curiosa contradição: o que tem o ideal de igualdade em seu cerne, nasce profundamente excludente.
Essa exclusão histórica da participação feminina do espaço político e público criou um precedente pernicioso para as democracias contemporâneas. Apesar dos avanços significativos, as estruturas de poder patriarcal ainda permeiam as instituições democráticas, subvertendo o ideal de uma democracia verdadeiramente inclusiva e representativa. A perpetuação do machismo e da misoginia atualmente não é apenas um resquício de injustiças passadas, mas uma força ativa que continua a minar os fundamentos da democracia.
No século XXI, a busca pela posição igualitária entre homens e mulheres se confronta com a persistência de normas sociais machistas que marginalizam as vozes femininas e restringem sua participação em esferas decisórias. A representação política, embora tenha aumentado, ainda está longe de ser proporcional, refletindo uma disparidade que compromete a diversidade de perspectivas e a eficácia das políticas públicas. A desigualdade nas esferas de poder não apenas perpetua o ciclo de exclusão, mas também impede que a democracia atinja seu potencial pleno de equidade e justiça social.
Além disso, a misoginia e o machismo não se manifestam apenas na sub-representação política, mas também na violência de gênero, no assédio sexual e na discriminação sistêmica, que são manifestações de poder e controle que visam reafirmar a dominação masculina. Essas práticas não apenas violam os direitos humanos, mas também corroem o tecido social e democrático ao criar um ambiente de medo e exclusão.
O sistema social, profundamente arraigado em bases patriarcais, perpetua uma cultura onde normas e valores masculinos são considerados predominantes e, muitas vezes, únicos. Esta estrutura não apenas marginaliza, mas também condiciona a internalizar e reproduzir os mesmos discursos e padrões que sustentam a sua própria subjugação. Este fenômeno evidencia a complexidade da luta feminista, pois não se trata apenas de confrontar as opressões externas, mas também as internalizadas.
Mulheres, educadas sob o jugo de expectativas de gênero restritivos, frequentemente adotam e promovem ideias que reforçam sua inferioridade e submissão. Isso pode se manifestar na glorificação de papéis tradicionais femininos, na competição sob uma ótica masculina de sucesso e beleza, ou na censura daquelas que desafiam normas patriarcais.
A reprodução desses padrões é um reflexo da influência pervasiva do machismo, que valoriza as contribuições masculinas em detrimento das femininas, tanto no espaço público quanto privado. Esta dinâmica se mostra particularmente prejudicial, pois invalida a experiência da mulher e limita a capacidade delas de verem a si mesmas como agentes de mudança, tanto individual quanto coletivamente.
A democracia, para ser efetiva e verdadeira ao bem comum, deve transcender as limitações impostas pelo machismo. Isso implica não apenas garantir as mesmas condições de acesso e participação nas instituições democráticas, mas também combater as estruturas subjacentes de poder que sustentam esse desequilíbrio. A educação para a igualdade, políticas afirmativas e a promoção de uma cultura de respeito e inclusão são passos essenciais nesse processo.
A democracia plena é aquela que abraça a diversidade e assegura que todos os cidadãos possam ter acesso às mesmas oportunidades, independentemente se homem ou mulher. O desafio das sociedades contemporâneas é, portanto, construir democracias que não apenas tolerem, mas celebrem a diversidade e combatam as formas de opressão que limitam a liberdade e a justiça. Somente assim poderemos aspirar a um ideal democrático que efetivamente sirva ao bem comum, refletindo os valores de equidade, justiça e respeito mútuo que são fundamentais para o desenvolvimento humano e social.