Publicado originalmente no portal A Vírgula em julho de 2024.
A recente divulgação pela Folha de São Paulo do vídeo completo do rapaz que faleceu após um peeling de fenol, incluindo o momento em que começou a passar mal e as tentativas de ressuscitação, me fez pensar profundamente sobre a curiosidade mórbida que temos enquanto seres humanos. Sabem aquele impulso de passar devagar perto de um acidente de carro?
Não são casos pontuais ou isolados... é mais um exemplo de como a mídia, ávida por audiência, explora tragédias humanas para alavancar engajamento e lucro e como nós cedemos a esse ímpeto que em nada nos acrescenta em nenhum nível, muito menos enquanto sociedade.
O fascínio por cenas de sofrimento alheio revela um lado obscuro da curiosidade humana. Essa morbidez, que nos leva a consumir avidamente notícias e vídeos de tragédias, desumaniza as vítimas, transformando momentos de dor extrema em meros espetáculos.
As famílias, já devastadas pela perda, são submetidas a um sofrimento adicional ao verem seus entes queridos expostos de forma tão crua e insensível. Esse fenômeno nos obriga a questionar o que nos leva a consumir esse tipo de conteúdo e a refletir sobre o impacto que ele tem nas vidas daqueles que já estão vulneráveis.
E como se não bastasse, nós, ainda por cima, normalizamos a exposição da tragédia como forma de entretenimento. Vivemos em uma era onde o sofrimento alheio se tornou uma mercadoria, consumida de forma quase compulsiva. A morte e a dor, que deveriam ser tratadas com respeito e sobriedade, são transformadas em peças de teatro, perdendo seu caráter humano e ganhando uma aura de show.
A mídia, ciente desse apetite insaciável por histórias chocantes, capitaliza sobre essa curiosidade. A exposição de tragédias é frequentemente justificada como um dever de informar, mas, na verdade, se trata de uma estratégia deliberada para atrair audiência e, consequentemente, lucro.
Essa prática se tornou tão comum que mal podemos imaginar uma imprensa que não se apoie nesse tipo de conteúdo para se manter relevante. Parece que, sem o horror, a violência, o crime e a morte, o jornalismo perderia sua eficácia, como se a tragédia fosse a condição sine qua non para a existência da imprensa moderna.
Essa aceitação tácita da exploração do sofrimento humano como ferramenta de engajamento é preocupante. Parece que estamos dormindo ou anestesiados, pois temos aceitado que o jornalismo dependa de tragédias para gerar audiência.
Ou pior, sequer dos damos conta de que estamos contribuindo para um ciclo vicioso de desumanização. O consumo de tais conteúdos nos torna cúmplices de um sistema que prioriza o lucro sobre a dignidade humana, transformando momentos de dor extrema em oportunidades comerciais.
Nossa passividade diante desse problema é alarmante. É como se fôssemos incapazes de sentir a indignação necessária para provocar uma mudança, como se tivéssemos visto tragédias demais. Estamos mergulhados em um estado de apatia, em que a exposição incessante à dor alheia já não nos choca.
E quando há indignação, quando há ação, não é para mudar o status quo, é apenas para criar mais espetáculo, seja com linchamentos no mundo material ou no virtual... a nossa insatisfação quase nunca é direcionada para o lugar correto. E interessa que assim seja. A morte e violência podem continuar a ser explorados financeiramente indefinidamente.
Vivemos em uma era marcada pela falta de paixão pelo ser humano. A sociedade do século XXI parece ter perdido a capacidade de se indignar verdadeiramente, de sentir a urgência de mudar o que está errado. Esse estado de dormência moral nos impede de reagir às injustiças e à exploração do sofrimento humano. Nos contentamos em consumir, sem questionar, sem desafiar, sem exigir um jornalismo que respeite a dignidade humana e que valorize a ética acima do lucro.
A questão que continua a martelar na minha cabeça é o como. Como podemos fazer isso quando somos apenas figurantes do espetáculo?