Publicado originalmente no portal A Vírgula em julho de 2024.
Na última semana, fomos confrontados com mais uma notícia aterradora que desnuda o desprezo da sociedade pela dignidade das mulheres. Um homem que engravidou uma menina de 13 anos, impedida de realizar um aborto, está sendo investigado por estupro de vulnerável. Mas como se não bastasse, ainda força a sua presença nos procedimentos e consultas. A vítima é colocada ao lado do agressor. O crime é perpetuado indefinidamente, mas com o aval do Estado. ( https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2024/07/22/homem-que-engravidou-menina-de-13-anos-impedida-de-fazer-aborto-e-investigado-por-estupro-de-vulneravel.ghtml )
Este caso é apenas mais um capítulo de uma história que se repete com uma frequência insuportável: a revitimização de mulheres e meninas pela justiça e pela sociedade.
O que poderia ser mais claro do que a vulnerabilidade de uma criança de 13 anos? Qual justiça pode encontrar razão em obrigar essa menina a manter uma gravidez fruto de um crime? E ainda permitir que o "pai" do bebê a acompanhe, desrespeitando o sigilo médico e o desejo expresso da menina? Esse não é apenas um caso isolado de incompetência judicial ou de insensibilidade. É uma manifestação de um sistema que despreza a dignidade das mulheres e das meninas, transformando suas vidas em campos de batalha política onde direitos básicos são negados diariamente em nome de uma suposta moralidade.
Escrevi recentemente sobre a necessidade de separar o que é de César e o que é de Deus, em um artigo publicado há algumas semanas (https://avirgula.com/a-cesar-o-que-e-de-cesar-a-deus-o-que-e-de-deus/). Mas parece que, para a justiça brasileira, o que é das mulheres não é de ninguém. As mulheres precisam lutar, a cada dia, pelo mínimo de igualdade e reconhecimento de direitos que os homens não precisam mover um dedo para obter.
Na minha profissão, a advocacia, a violação da dignidade das colegas é quase uma rotina. Recentemente, uma advogada gestante teve prioridade negada em uma sustentação oral no TRT-4. Em Manaus, uma advogada foi comparada a uma cadela por um promotor durante um julgamento, além de um desembargador, que declarou que as mulheres estão "loucas atrás de homens" durante um julgamento.
(https://www.migalhas.com.br/quentes/410262/advogada-gestante-tem-negada-prioridade-em-sustentacao-no-trt-4 https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2023/09/13/advogada-diz-que-foi-comparada-a-cadela-por-promotor-durante-julgamento-em-manaus-video.ghtml#
https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2024/07/22/desembargador-que-disse-mulheres-estao-loucas-atras-de-homens-ganha-em-media-r-90-mil.htm )
Em todos os setores da sociedade, as mulheres são forçadas a lutar pelo mínimo. Até quando buscamos atendimento médico, nossos sintomas frequentemente são desconsiderados e tratados como "crise de ansiedade", somatização ou depressão. Muitos profissionais de saúde negligenciam a gravidade das queixas femininas, tratando-as com superficialidade. Até mesmo a dor das mulheres é banalizada; nossas queixas de dor são frequentemente subestimadas, resultando em diagnósticos tardios e tratamentos inadequados.
Essa desvalorização da experiência feminina se estende a todos os aspectos da vida. No trabalho, enfrentamos barreiras invisíveis que dificultam nossa ascensão profissional. Somos questionadas sobre nossa capacidade de liderança, muitas vezes mais criticadas e menos remuneradas do que nossos colegas homens. Nossos sucessos são frequentemente atribuídos à sorte ou à benevolência de superiores, e não ao nosso mérito e competência.
No cotidiano, somos alvos de assédio e violência, forçadas a desenvolver estratégias de autoproteção. É surreal que desde a infância tenhamos que aprender a nos comportar de maneira a evitar o assédio, uma carga que os homens raramente compreendem ou experimentam.
Em suma, a degradação da mulher é um espectro que vai do banal ao horrível, do dia a dia à exceção. Cada interação, cada experiência é uma lembrança constante de que, para nós, nada é garantido, nada é fácil. Vivemos em uma sociedade que em vez de valorizar e respeitar a experiência feminina, constantemente a minimiza e a desrespeita.
A cada dia, somos confrontadas com a dura realidade de que a justiça é um privilégio, não um direito. Somos lembradas de que, para nós, mulheres, cada conquista é uma batalha, cada reconhecimento é um milagre.
A sociedade brasileira precisa urgentemente se olhar no espelho e reconhecer o quão distante estamos de uma verdadeira igualdade de gênero. Os casos de violação de direitos que ocorrem diariamente, nas mais diversas esferas, são um testemunho gritante da necessidade de mudança. Não podemos continuar a permitir que a dignidade das mulheres seja pisoteada. Não podemos aceitar que meninas sejam obrigadas a carregar o peso de crimes que não cometeram.
A realidade é esta: vivemos em um país onde a dignidade das mulheres é sistematicamente negada. Onde a justiça, em vez de ser um refúgio, se torna um carrasco. E enquanto essa situação persistir, a luta por igualdade será interminável e extenuante. É uma luta que exige não apenas palavras, mas ações concretas e uma mudança profunda na forma como a sociedade vê e trata as mulheres. E essa mudança precisa começar agora.