Publicado originalmente no portal A Vírgula em maio de 2024.
“Quem é rico? Quem nada cobiça”
“Tudo obedece ao dinheiro”
“Nada detém o avarento”
“Dinheiro permite tudo”
“Variado é o domínio do dinheiro”
“O fruto do trabalho é a glória”
Encontrei algumas frases em um belo painel na igreja do ouro, em Salvador. Eles compõem uma história com uma série de ensinamentos sobre a inveja, a morte, a vida e o dinheiro. Todas as frases da epígrafe desse artigo são os ensinamentos dos últimos painéis que estão no pátio.
Essas palavras, embora enraizadas em contextos religiosos, refletem profundamente a essência do capitalismo como o conhecemos hoje. Desde tempos bíblicos, a relação entre riqueza e moralidade tem sido complexa e, para os olhos que não sabem ler a bíblia como um todo, frequentemente parece contraditória. A Bíblia, por exemplo, em Provérbios 10:4 diz que "as mãos preguiçosas empobrecem, mas as mãos diligentes trazem riqueza." No entanto, é também no Evangelho de Mateus (19:24) que encontramos a advertência de que "é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus".
É óbvio que não pretendo aqui fazer qualquer discussão teológica sobre o sentido ou o contexto dessas passagens bíblicas. Mas essa aparente dualidade apresenta um pano de fundo ideal para discutir como o dinheiro e o trabalho foram sacralizados no decorrer do desenvolvimento do capitalismo.
O capitalismo, como modelo econômico, prometeu eficiência, crescimento e inovação. E, de fato, produziu riqueza em escalas sem precedentes.. Contudo, essa riqueza não foi distribuída de maneira equitativa. Harari já nos advertia, em Sapiens, que essa distribuição da riqueza produzida foi justificada por diversas ficções, como sendo natural, e que “alguns entendiam ser determinada por Deus, e outros viam como uma representação das leis imutáveis da natureza. A natureza, assim se afirmava, recompensava o mérito com a riqueza, enquanto punia a indolência.” (Sapiens, p. 202)
Segundo o relatório da Oxfam de 2020, na última década, os super-ricos concentraram cerca de metade de toda riqueza gerada no mundo. O 1% mais rico do mundo ficou com quase 2/3 de toda riqueza gerada desde 2020 – cerca de US$ 42 trilhões -, seis vezes mais dinheiro que 90% da população global (7 bilhões de pessoas) conseguiu no mesmo período. O que esses números significam? Tal desequilíbrio revela uma falha intrínseca do sistema: a capacidade de gerar riqueza não garante sua justa distribuição.
A acumulação de capital, que permite a alguns "fazer dinheiro" em um ritmo que nunca detém sua avidez e, conquanto faça sua caridade e dê a sua “esmola” ao mundo, já está a não ser visto como avarento, sem, contudo, lidar com a desigualdade em si, o que tem consequências sociais profundas.
De outro lado, a luta pela sobrevivência torna-se cada vez mais árdua para a grande massa, que vê o fruto do seu trabalho muitas vezes não trazer mais do que a mera subsistência, em contraste com a "glória" prometida.
Conforme Avelãs Nunes argumenta, o capitalismo tem enfrentado várias crises ao longo da história, mas sempre encontrou maneiras de se adaptar e sobreviver. Suas "máscaras", como as reformas regulatórias ou inovações financeiras, muitas vezes prometem correções, mas acabam por perpetuar a lógica de acumulação e desigualdade.
Este ciclo vicioso sugere que, embora o capitalismo seja adaptável, ele pode estar fundamentalmente quebrado em termos de proporcionar um bem-estar equitativo. Este diagnóstico não oferece soluções fáceis ou imediatas. Em vez disso, exige de nós uma reflexão crítica sobre o verdadeiro custo de um sistema que mede o sucesso principalmente pela acumulação de riqueza, em detrimento da qualidade de vida para todos.
Nas paredes da Igreja do Ouro, em Salvador, as frases que reverberam sobre dinheiro e moralidade refletem mais do que meros ensinamentos religiosos; elas ecoam a realidade incontestável de nosso tempo: no capitalismo, o dinheiro não apenas fala — ele governa. ‘Money Rules’ não é apenas um título; é uma constatação, uma lei não escrita que define as regras do jogo econômico e social.
A medida da riqueza transcende a mera acumulação de capital, impondo-se como o verdadeiro árbitro do poder, do status e até da moralidade. Enquanto navegamos neste mar de desigualdades que nossa sociedade venera e perpetua, as palavras esculpidas na pedra sagrada daquela igreja servem como um lembrete sombrio: no altar do capitalismo, é o dinheiro que santifica e condena, absolve e corrompe, promete e falha. Em um mundo governado por tais regras, nossa reflexão crítica é mais do que necessária — é uma resistência.