Publicado originalmente no portal A Vírgula em maio de 2024.
Quando me sentei para escrever esse artigo, já tinha terminado um longo dia de trabalho. Agora já é noite, mas antes das seis da manhã já tinha levantado para levar minha filha na escola, além de me preparar para ministrar três horas de aula. Depois a atenção se voltou ao escritório, onde as mais diversas demandas requereram minha atenção. Busquei criança na escola, fiz reuniões, resolvi problemas, entrei e saí de conflitos. Cada minuto do meu dia foi preenchido com uma tarefa que precisava ser realizada impreterivelmente. Provavelmente você, que lê esse artigo agora, se identifica em alguma medida e se sente sugado pelos afazeres dos “dias úteis”.
Assim, escrevi essas palavras para a coluna nessa semana com o pensamento de “como estou cansada”, “estou constantemente cansada”. Pois bem, foi o cansaço que me motivou a refletir sobre essas linhas que aqui compartilho.
O fato é que essa minha experiência não é individual. Todos vivemos em uma era de constante exaustão, uma era que o filósofo Byung-Chul Han denominou como "sociedade do cansaço". Nessa sociedade, a obrigação de produção incessante, o culto ao sucesso e a busca implacável pelo dinheiro – mesmo que seja para a sobrevivência – tornando-nos em máquinas autossuficientes de exploração. A pressão para sermos constantemente produtivos nos esgota fisicamente e drena nossa energia mental e emocional, transformando-nos em apenas sombras do que poderíamos ser em outros aspectos da vida, que não o trabalho e as obrigações do dia a dia.
O mencionado autor argumenta que a sociedade moderna evoluiu de uma disciplina externa imposta por instituições para uma forma mais insidiosa de controle: a autocoerção.
Pensemos, por exemplo, na sociedade que funcionava segundo a lógica fabril. Os trabalhadores das fábricas tinham horários rígidos e eram supervisionados de perto. Se não cumprissem suas tarefas, eram punidos ou despedidos. A disciplina era claramente imposta de fora para dentro.
Hoje, no entanto, a forma de controle mudou. Em vez de sermos constantemente vigiados e punidos por outras pessoas ou instituições, internalizamos essas expectativas e nos tornamos nossos próprios supervisores. Isso é o que Byung-Chul Han chama de autocoerção. Nós mesmos nos pressionamos para sermos produtivos, bem-sucedidos e eficientes, mesmo quando ninguém está nos observando diretamente. Essa pressão vem de dentro de nós, e muitas vezes é mais poderosa e persistente do que qualquer disciplina externa. Ao fim e ao cabo, nós nos tornamos tanto os senhores quanto os escravos de nós mesmos.
Essa incessante busca pela produtividade tem impactos profundos em nossas vidas pessoais e na nossa capacidade de engajamento político e social. O "agir democrático", ou o "agir político", requer tempo, energia e um compromisso que muitos de nós simplesmente não temos mais. Esses conceitos vão muito mais além do simples ato de votar. Eles requerem que o cidadão se engaje ativamente nas questões que envolvem o bem-comum, participe de debates públicos, participe de organizações sociais (como partidos, sindicatos, associações...). Mas estamos tão consumidos pela necessidade de nos explorarmos para alcançar metas individualistas que o coletivo se torna uma prioridade distante e inalcançável.
A democracia “adequada”, portanto, exige participação ativa, reflexão crítica e um engajamento contínuo com questões sociais e políticas. No entanto, quando estamos exauridos pela constante pressão para produzir, nos tornamos incapazes de nos envolver plenamente com esses processos. O resultado é uma sociedade apática. A maioria de nós se torna passiva e desinteressada. Quando estamos constantemente cansados e focados apenas em nossas batalhas, perdemos de vista a importância do bem coletivo. A participação política se torna um luxo que poucos podem ter.
Assim, pouco a pouco, nos tornamos uma sociedade cansada, cínica e desiludida, incapazes de acreditar que nossas ações podem fazer uma diferença real. Essa desesperança alimenta ainda mais a inércia, criando um ciclo vicioso que só pode ser quebrado a partir do conceito de “autocuidado” – que não está limitado a um dia de spa.
O verdadeiro autocuidado é um ato radical de resistência contra a sociedade do cansaço. Ele envolve reconhecer nossas próprias limitações, priorizar nosso bem-estar mental e emocional e, mais importante, recusar-se a ser uma máquina de produtividade incessante, o que nos permite uma reconexão com o outro e com o nosso senso conjunto de propósito. Isso faz com que tenhamos a energia necessária para nos engajarmos em ações políticas e sociais significativas. Em última análise, a verdadeira democracia só pode florescer quando os cidadãos estão dispostos para o engajamento público.
A jornada para alcançar esse equilíbrio é longa e cheia de desafios, mas as gerações mais novas já vêm mostrando que entenderam que a vida não é feita apenas de trabalho. Esse é um caminho que precisa valer a pena. Somos seres humanos, e nosso valor não pode ser medido apenas pelo que produzimos, mas também pela qualidade de nossas vidas e pela profundidade de nossas conexões uns com os outros.