Publicado originalmente no portal A Vírgula em outubro de 2024.
Estudei em duas escolas na minha vida: uma escola luterana pequena, da infância até o fim do ensino fundamental, e depois no Marista, no ensino médio. Duas realidades distintas, duas formas de ver o mundo. A primeira era uma comunidade quase familiar, onde todos se conheciam e os rostos eram sempre os mesmos, a cada ano. A segunda, uma escola maior, cheia de possibilidades e novas amizades, que me preparava para os passos maiores da vida.
Esses dias, algo me fez parar para pensar: as pessoas com quem cresci também cresceram. Às vezes, estamos tão envolvidos em nossas próprias vidas, em nosso próprio amadurecimento, que não reparamos que os outros ao nosso redor também seguem essa mesma jornada. Nós nos acostumamos a ver a nós mesmos como os protagonistas, olhando para o nosso percurso e avaliando nossas escolhas, sem perceber que aqueles que um dia foram parte do mesmo caminho também seguiram, cada um à sua maneira, em direções únicas e belas.
Recentemente, pela terceira vez, contratei duas amigas do Marista como arquitetas para um trabalho em minha casa e escritório. E foi ao olhar para elas naquele momento – não apenas como profissionais, mas como pessoas que compartilham comigo essa história de crescimento – que percebi o quão pouco eu conheço da vida delas hoje. Nós convivemos tão intensamente por tantos anos, crescemos juntas no mesmo ambiente, dividimos sonhos adolescentes e medos do futuro. E agora, uma década depois, vejo mulheres adultas, seguras e reconhecidas no que fazem. Elas têm uma década de experiência, como eu, mas não são mais as mesmas que conheci nos corredores da escola.
Há algo de fascinante nesse encontro entre o passado e o presente. Ao mesmo tempo que sinto um certo distanciamento, há também um profundo orgulho. Um orgulho de ver onde cada uma dessas pessoas chegou. De ver que as sementes plantadas há tantos anos cresceram e deram frutos – em mim, nelas, em todos aqueles que compartilharam aqueles anos comigo. É bonito perceber como, mesmo distantes, crescemos juntos. Cada um traçando seu próprio caminho, mas mantendo uma conexão invisível, uma memória comum que nunca se apaga.
Penso em outras pessoas que estavam lá também. Colegas que, na minha lembrança, ainda são os adolescentes que conheci, mas que hoje são adultos com suas vidas, suas famílias, suas profissões. Será que também sentem esse misto de familiaridade e distância quando me veem? Será que também enxergam, no meu rosto, a garota que fui, enquanto se deparam com a mulher que sou?
Há uma beleza nesse processo de crescimento compartilhado. Mesmo sem estarmos presentes na vida uns dos outros, crescemos ao mesmo tempo. Como árvores plantadas lado a lado, cada uma buscando sua luz, cada uma enfrentando suas próprias tempestades, mas todas fazendo parte do mesmo jardim. E ao olhar para elas, sinto que há algo de reconfortante nisso: não estou sozinha nessa jornada. Há raízes que compartilho com outros, e, de certa forma, crescemos juntos.
O tempo passa e nos transforma, mas certas coisas permanecem: as memórias, os afetos, a alegria de ver aqueles com quem dividimos parte da nossa história florescerem. E é essa conexão invisível que nos lembra que, mesmo quando seguimos caminhos diferentes, há uma parte de nós que continua crescendo ao lado dos outros, para sempre.