Publicado originalmente no portal A Vírgula em fevereiro de 2024.
A recente fala do presidente Lula na Cúpula da União Africana, em entrevista concedida na Etiópia, gerou reações intensas, inclusive do primeiro-ministro israelense, porque Lula comparou a ação das forças armadas contra o Hamas (vitimando muitas mulheres e crianças) com o holocausto nazista.
Netanyahu, enquanto era ovacionado por seu público, bradava que o presidente brasileiro deveria ter vergonha de sua fala antissemita, dizendo que o que Israel faz é se defender dos terroristas palestinos.
No Brasil, a reação não demorou. A bancada mais conservadora do Congresso, alinhada com os interesses da base neopentecostal, como não era de se estranhar, já fala em protocolo de pedido de impeachment do presidente (que todos sabemos que não vai vingar, já que é mais para "inglês ver" e dar uma satisfação para a base dos deputados...), e há opiniões para todos os lados na imprensa.
Dito isso, para avançar na discussão que pretendo fazer na coluna de hoje, é evidente que precisamos traçar algumas correlações e fazer uma regressão histórica para entender como chegamos até aqui e, para isso, começaremos com o termo que o primeiro-ministro israelense acusa o presidente de ser: antissemita.
O antissemitismo pode ser remontado desde o primeiro século da nossa era, a partir da perseguição do Império Romano aos judeus, razão pela qual ocorreu a diáspora judaica, levando esse povo a imigrar para outras áreas da Europa e ali se estabelecerem sem, contudo, se integrarem completamente aos povos que ali já viviam, diferenciando-se quanto à cultura, costumes e religião, sendo vistos em alguns lugares como "invasores".
Com o passar do tempo, e com o nascimento de uma nova classe – a burguesia –, os judeus foram enriquecendo e galgando novos espaços nas sociedades modernas, mas sem, ao mesmo tempo, ganhar um poder social (cargos públicos, influência nas decisões políticas etc.), intensificando uma visão de que os judeus estavam "usurpando" riquezas locais.
O discurso antissemita (milenar) na Europa ganhou um espaço de destaque na agenda do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães num momento em que a Alemanha passava por uma intensa crise econômica e de fragilidade institucional, de forma que o discurso conservador nacionalista se propagou a ponto de defender o ideal da “raça ariana” pura, culminando no extermínio de diversos grupos na Alemanha (comunistas, homossexuais, negros etc.) e, de forma especial, dos judeus, que continuavam enriquecendo mesmo enquanto o povo alemão sofria as consequências da crise.
A partir desse momento, sob inúmeras justificativas inventadas pelo governo nazista, os judeus foram vistos como inimigos, desumanizados, e se sucedeu um dos maiores genocídios da história.
Após a Segunda Guerra Mundial, com a derrota da Alemanha nazista, se consolidou um movimento intenso que já havia nas comunidades judaicas para que retornassem à região de qual saíram após a diáspora, que correspondia à Palestina, de sorte que foi criado, em 1948 pela ONU, o Estado de Israel.
De lá para cá, a disputa territorial, política, econômica e ideológica naquela área do globo matou milhares de pessoas, de ambos os lados da luta, mas o fato é que o Estado de Israel expandiu muitas vezes a área que foi demarcada pela ONU em meados do século XX (especialmente após a Guerra dos Seis Dias) e, obviamente, gerou reações políticas e militares por parte dos palestinos, inclusive do grupo denominado Hamas.
O Hamas, por sua vez, numa explicação brevíssima, se trata de um braço de uma organização muçulmana egípcia que se dedicava inicialmente à filantropia, que na Palestina se transformou, no fim do século XX, em um partido político – que tem um discurso nacionalista, a favor da luta armada contra a ocupação israelense, e especialmente ligado à religião islâmica – e que negou o pacto de Oslo quanto à decisão de renunciar à luta armada e realizar negociações pacíficas com Israel.
O Hamas disputou e ganhou a maioria das cadeiras legislativas no ano de 2006 contra o partido Fatah, o que gerou uma forte reação das potências europeias, dos Estados Unidos e, obviamente, de Israel (em razão, entre outras coisas, da defesa da luta armada contra a ocupação israelense), o que levou a uma separação do governo da Autoridade Palestina entre a Cisjordânia (Fatah) e a Faixa de Gaza, controlada pelo Hamas.
O discurso extremista no Hamas, inclinado à resposta com ataques a alvos civis, foi ganhando força à medida que a ocupação dos colonos e dos militares israelenses era cada vez mais brutal e violenta, em conflitos contínuos que culminaram no momento atual da guerra, em que um ataque criminoso contra Israel fez com que houvesse uma resposta em grandes proporções, em um saldo de quase trinta mil mortes palestinas desde o início do conflito mais recente. A justificativa da ação israelense para uma resposta tão intensa é a luta contra o Hamas, ao qual nomearam de terrorista.
Aqui é preciso fazer uma reflexão sobre a escolha da palavra “terrorista” para designar o Hamas. Obviamente que as suas ações, especialmente contra civis israelenses, são totalmente condenáveis, bárbaras, repudiáveis e merecedoras de punição dos responsáveis. No entanto, a designação dessas pessoas como terroristas abre um perigoso espaço: o terrorista é o inimigo máximo, ele ameaça a sobrevivência e precisa ser exterminado. O terrorista deixa de ter a qualidade de ser humano para ser um alvo, uma coisa, um mal que precisa ser eliminado a qualquer custo, independente da idade e do sexo.
E é aqui que se forma o problema que foi relatado pelo presidente Lula. Israel, para reagir a ataques injustos contra seus cidadãos, está fazendo um genocídio contra a população palestina, sob a justificativa de que eles são terroristas e que ameaçam a sua sobrevivência e, nesse processo, desumaniza a própria identidade palestina, o que justificaria, assim, os ataques contra mulheres e crianças em uma guerra assimétrica, com clara superioridade israelense.
É nesse ponto que a fala do presidente Lula faz o maior sentido de todos, já que tem ganhado força também em Israel uma agenda de direita e os judeus, que sofreram um horror inimaginável no período do governo de Hitler na Alemanha, que foram vítimas de um genocídio originado da desumanização, taxados como inimigos do Estado Alemão, e como ameaças à sobrevivência daquele povo, que foram alvos de uma política de extrema-direita altamente conservadora e nacionalista, agora perpetram as mesmas armas contra seus inimigos. Daí a comparação. Os palestinos estão sendo vítimas de uma política que, outrora, fez os judeus passarem por um dos maiores horrores da história.
A reação do primeiro-ministro israelense e seu discurso inflamado contra a fala de Lula é um retrato de como convenientemente os atuais dirigentes de Israel falham em reconhecer que usam as mesmas armas que contra o povo judeu foram usadas outrora. Quem provavelmente deveria ter vergonha é ele, já que tem se mantido no poder, à despeito dos inúmeros processos em que é acusado de corrupção, às expensas de uma guerra que tem um alto custo de vidas de ambos os lados.
Mas o título da coluna é “Apocalipse, nazismo, Palestina e Lula”. Sobre nazismo, Palestina e Lula já falamos. Então onde o livro bíblico de Apocalipse se encaixa em toda essa narrativa?
Pois bem. A resposta política interna à fala de Lula partiu, obviamente, das camadas mais à direita do espectro político, coincidindo, vez ou outra, com os neopentecostais, que algumas vezes empunham a bandeira de Israel em passeatas, sacadas de prédios e em fotos de perfis de redes sociais.
Há tempos no Brasil se faz uma generalização pouco precisa de chamar todos os não-católicos de evangélicos... e o termo “pegou”. Admitindo essa generalização, mas dirigindo a questão à essas denominações neopentecostais de cariz ultraconservador, é comum questionar: de onde vem esse apoio de uma parcela de “evangélicos” ao povo que não acredita no evangelho?
Fazendo um parêntese e correndo o risco de dizer o óbvio, mas para deixar cristalino aqui: evangélico (mesmo o neopentecostal) é aquele que crê no evangelho, ou seja, que Jesus é o filho de Deus, enviado por Ele para a salvação da humanidade. Os judeus não creem que Jesus é o filho de Deus e ainda se postam à espera do Messias.
Retomando...há algumas teorias sobre o assunto, mas aparentemente o que faz essa liga improvável é o Apocalipse bíblico. Ironicamente, as denominações evangélicas mais conservadoras (leia-se algumas neopentecostais) se dedicam especialmente a replicar o Antigo Testamento (aqui existem um sem-número de questões teológicas sobre como a vinda de Jesus cria uma nova aliança com os crentes distinta daquela do Antigo Testamento, mas tais questões fogem do tema principal, sendo necessário apenas dizer que elas existem), contudo sem perder a característica cristã mais óbvia: crer em Cristo.
No Antigo Testamento, o povo escolhido era o de Israel, os descendentes diretos de Abraão, e os que herdariam o reino dos céus. E, apesar da diferença quanto à vinda do messias, o apocalipse – e a consequente vinda de Jesus à terra (para os cristãos, a segunda) – uniria ambos os povos e o povo escolhido seria restaurado à sua glória. Para esses “evangélicos”, o fim está próximo e a criação do Estado de Israel já é o primeiro sinal disso.
O fato é que esse discurso está alinhado com uma ideologia conservadora dentro da política brasileira, o que carrega uma contradição e uma coincidência. A contradição reside no fato de que foi justamente uma política conservadora, nacionalista e discriminatória de extrema-direita que vitimou os judeus na Segunda Guerra Mundial. Essa agenda odiava a diversidade e criava um governo da maioria para a maioria (essa fala lembra alguma coisa?). Já a coincidência está no fato de que Israel mesma agora engendra essa política, a despeito de todas as considerações já feitas sobre o paradoxo disso.
Diante dessa reflexão sobre a contradição e a coincidência de uma política conservadora que, historicamente, alimentou as chamas de tragédias humanitárias, torna-se evidente a necessidade urgente de repensar os caminhos que escolhemos para moldar nossas sociedades. A história nos ensina que a exclusão e a intolerância, sob qualquer bandeira que se apresentem, pavimentam o caminho para consequências desastrosas. Portanto, é imperativo que busquemos alternativas que se afastem das sombras do passado, voltando nossos esforços para a construção de um futuro mais inclusivo e justo.
Nesse contexto, emerge como solução uma abordagem política que transcenda a mera formalidade democrática, que muitas vezes se limita a refletir a vontade da maioria, ignorando as minorias e a riqueza que a diversidade traz. Uma política verdadeiramente democrática reconhece que a essência de uma sociedade justa e equitativa reside na valorização de cada indivíduo, não apenas como membro de uma maioria ou minoria, mas como ser humano dotado de dignidade inalienável. Assim, a adoção de políticas que estejam alinhadas com os direitos humanos e que promovam ativamente a inclusão e o respeito à diversidade não é apenas desejável, mas uma necessidade imperiosa para evitar a repetição de erros históricos.