Poucas experiências produziram tantas tentativas de explicação quanto o sofrimento. Há quem procure um sentido para ele, quem tente diminuir o poder que exerce sobre a vida e quem investigue se é possível conviver com aquilo que não pode ser evitado. A filosofia voltou muitas vezes a esse problema porque a dor cria uma situação difícil para o pensamento: podemos compreender intelectualmente que sofrer faz parte da existência e, ainda assim, desejar profundamente que determinada experiência nunca tivesse acontecido.
Também queremos saber o que fazer depois que ela acontece. Procuramos uma explicação, alguma maneira de incorporá-la à própria história ou uma mudança que torne suportável aquilo que não conseguimos desfazer. É nesse ponto que ideias filosóficas sobre sofrimento podem ser úteis, desde que não sejam transformadas na promessa de que toda dor possui uma finalidade ou de que sofrer necessariamente nos torna pessoas melhores.
Nietzsche, os estoicos, Viktor Frankl e o pensamento budista abordaram o sofrimento a partir de lugares bastante diferentes. Aproximá-los não significa que tenham chegado às mesmas respostas. O interesse está justamente em perceber o que cada perspectiva faz diante de um problema que permanece reconhecível apesar da distância histórica entre elas.
Nietzsche e o que fazemos com aquilo que dói
Uma frase frequentemente atribuída a Friedrich Nietzsche circula há anos em textos sobre sofrimento: “É preciso doer como nunca, para não doer nunca mais”. A autoria dessa formulação é duvidosa, e por isso ela não é uma boa base para interpretar seu pensamento.
A relação de Nietzsche com o sofrimento é mais complexa do que a ideia de que precisamos sofrer intensamente para nos tornarmos fortes. Em diferentes momentos de sua obra, ele questiona uma existência organizada em torno da eliminação de tudo aquilo que provoca desconforto e examina o que pode surgir da maneira como alguém responde às dificuldades que encontra. Isso não transforma a dor em método de aperfeiçoamento.
A diferença é importante porque existe uma tendência a olhar retrospectivamente para experiências difíceis e atribuir a elas o mérito por tudo aquilo que construímos depois. Uma doença pode alterar prioridades, uma perda pode mudar nossa relação com o tempo, uma separação pode nos obrigar a rever escolhas que pareciam definitivas. O fato de alguma transformação ter acontecido depois não permite concluir que aquela experiência precisava acontecer.
Podemos aprender porque sofremos. Também podemos aprender apesar do sofrimento. Em alguns casos, saímos de uma experiência com recursos que antes não possuíamos; em outros, permanecem medo, exaustão, prejuízos e consequências que exigirão muito tempo para serem elaboradas. A dor, sozinha, não possui qualquer compromisso com nosso amadurecimento.
Talvez uma leitura mais interessante de Nietzsche esteja justamente em perguntar o que fazemos com aquilo que não escolhemos viver. O sofrimento já aconteceu. A partir daí, a maneira como ele será incorporado à nossa história ainda pode mudar.
Os estoicos e os limites do nosso controle
O estoicismo costuma aparecer atualmente acompanhado de uma instrução bastante sedutora: preocupe-se apenas com aquilo que você pode controlar. Na prática, descobrir onde termina esse controle é bem menos simples.
Entre os estoicos, encontramos repetidamente a preocupação com a maneira como nos relacionamos com acontecimentos que não obedecem à nossa vontade. Sêneca escreveu sobre a brevidade da vida, a morte, as perdas, o medo e a instabilidade das circunstâncias humanas. Epicteto tornou especialmente conhecida a distinção entre aquilo que depende de nós e aquilo que não depende.
Essa perspectiva pode ser confundida com indiferença ou com uma exigência de controle emocional. Se alguma coisa aconteceu e não podemos modificá-la, bastaria aceitá-la e seguir adiante. Mas uma pessoa não deixa de sofrer apenas porque compreendeu racionalmente que determinado acontecimento estava fora de seu controle.
A morte de alguém continua sendo uma perda. Uma doença continua modificando o cotidiano. Uma dor física não desaparece quando chegamos à conclusão filosófica de que preferiríamos não senti-la.
O que essa tradição permite investigar é outra parte da experiência: quanto do nosso sofrimento passa também pela tentativa de exigir da realidade um desfecho que ela já não pode oferecer?
Isso aparece em situações muito comuns. Repetimos mentalmente uma conversa procurando a frase que deveríamos ter dito. Reconstruímos uma decisão antiga usando informações que só adquirimos depois. Passamos horas imaginando como determinada situação poderia ter acontecido de outro modo.
Nada disso significa que deveríamos simplesmente deixar de pensar no passado. Revisitar uma experiência pode ajudar a compreendê-la e até orientar decisões futuras. O problema surge quando a mente continua negociando com uma realidade que já aconteceu.
Os estoicos colocam um limite incômodo nessa negociação. Não é tudo que pode ser reparado, recuperado ou controlado. Reconhecer isso não elimina a dor, mas modifica a tarefa que temos diante dela.
Frankl e a necessidade de encontrar sentido
Viktor Frankl acrescenta outra questão: o que acontece quando não podemos retirar o sofrimento da nossa vida?
Psiquiatra austríaco e sobrevivente dos campos de concentração nazistas, Frankl desenvolveu a logoterapia e dedicou grande parte de seu trabalho à questão do sentido. Em "Em busca de sentido", sua obra mais conhecida, experiências vividas nos campos aparecem ao lado de reflexões sobre aquilo que pode sustentar uma pessoa diante de condições extremas.
Suas ideias são frequentemente resumidas dizendo que precisamos “encontrar o propósito do sofrimento”. Essa formulação pode produzir uma interpretação problemática, como se cada doença, perda ou violência trouxesse uma lição particular que caberia à pessoa descobrir.
O sofrimento não precisa possuir um propósito para que alguém encontre sentido enquanto o atravessa. Essa diferença muda bastante a leitura.
Uma pessoa pode descobrir razões para continuar vivendo durante uma doença sem concluir que precisava adoecer. Pode reorganizar a vida depois de uma perda sem considerar aquela morte necessária para sua transformação. Pode construir algo importante depois de uma experiência traumática e continuar desejando que ela nunca tivesse ocorrido.
Encontrar sentido é uma atividade humana. Fazemos isso o tempo inteiro quando contamos nossa história, estabelecemos vínculos, cuidamos de alguém, trabalhamos por alguma coisa, criamos projetos ou decidimos o que merece continuar ocupando espaço em nossa vida.
Diante de um sofrimento inevitável, essa capacidade pode adquirir uma importância enorme. Diante de um sofrimento evitável, porém, procurar sentido não deveria substituir a tentativa de interrompê-lo. Não precisamos permanecer numa situação dolorosa apenas para descobrir o que ela tem a ensinar.
O sofrimento no pensamento budista
O budismo parte de uma investigação diferente. Em vez de perguntar apenas como suportar acontecimentos dolorosos, examina a própria condição de insatisfação presente na experiência humana.
O conceito de dukkha costuma ser traduzido como sofrimento, embora essa tradução não dê conta de todas as suas nuances. Ele também pode se aproximar de insatisfação, desconforto e da dificuldade de encontrar estabilidade duradoura em uma realidade marcada pela mudança.
As Quatro Nobres Verdades colocam dukkha no centro da investigação budista, juntamente com suas origens, sua cessação e o caminho relacionado a essa cessação. Dentro dessa tradição, apego, aversão e ignorância participam da maneira como nos relacionamos com aquilo que vivemos.
Há uma observação bastante concreta por trás de conceitos filosóficos e religiosos muito mais amplos: queremos que experiências agradáveis permaneçam e que experiências desagradáveis terminem. Mas a realidade não se organiza de acordo com essa preferência.
Aquilo de que gostamos muda. Relações mudam, o corpo envelhece, circunstâncias desaparecem e pessoas morrem. Mesmo experiências prazerosas podem carregar alguma insatisfação quando começam a ser acompanhadas pelo medo de perdê-las.
Isso não significa que o budismo proponha gostar da dor ou abandonar qualquer tentativa de modificar circunstâncias difíceis. Reconhecer que algo está acontecendo e agir para modificá-lo podem fazer parte do mesmo momento. Uma pessoa pode aceitar que sente dor agora e marcar uma consulta médica porque deseja não senti-la amanhã.
A diferença está em quanto sofrimento adicional construímos ao exigir que a experiência presente já seja diferente antes mesmo de conseguirmos agir sobre ela.
A obrigação de sair melhor
Apesar das diferenças entre essas tradições, muitas interpretações contemporâneas acabam conduzindo todas ao mesmo lugar: o sofrimento seria uma oportunidade de crescimento.
Essa ideia pode ser reconfortante depois que alguma transformação realmente aconteceu. Torna-se mais complicada quando é apresentada a alguém que ainda está no meio da experiência.
Quem sofre já costuma ter bastante coisa para administrar. Acrescentar a obrigação de encontrar uma lição pode transformar a própria reação à dor em mais uma coisa a ser avaliada. A pessoa não apenas está mal; começa a se perguntar por que ainda não conseguiu transformar aquilo em força, gratidão, propósito ou evolução.
Algumas experiências produzem mudanças importantes. Outras deixam consequências difíceis. Muitas fazem as duas coisas ao mesmo tempo.
É possível amadurecer em determinados aspectos depois de uma perda e continuar profundamente triste por ela. É possível desenvolver recursos durante uma doença e continuar preferindo nunca ter adoecido. Alguém pode reconstruir uma vida depois de uma violência sem precisar atribuir à violência qualquer mérito pela pessoa que se tornou. A transformação pertence a quem conseguiu construí-la.
O que fazemos depois
Nietzsche, o estoicismo, Frankl e o budismo não oferecem uma resposta única para a dor, e talvez seja justamente por isso que colocá-los lado a lado seja interessante. Em um encontramos perguntas sobre a relação entre adversidade e transformação; em outro, os limites do controle; Frankl nos aproxima da construção de sentido diante do inevitável; o budismo investiga nossa relação com sofrimento, mudança, apego e aversão.
Nenhuma dessas perspectivas impede que uma dor continue sendo indesejável.
Podemos procurar tratamento para aquilo que pode ser tratado, sair de situações que podem ser interrompidas, lamentar aquilo que foi perdido e reconhecer os acontecimentos que já não podem ser modificados. Em algum momento, também podemos decidir o lugar que aquela experiência ocupará na história que contamos sobre nós mesmos.
Esse lugar não precisa ser bonito. Uma experiência dolorosa pode continuar sendo algo que preferiríamos não ter vivido, mesmo depois de termos conseguido seguir adiante. O que construímos posteriormente não precisa transformar o passado em necessário.
Às vezes conseguimos encontrar sentido no que aconteceu. Em outras ocasiões, o sentido aparece somente no que fazemos depois.