Você sente uma dor forte ao levantar uma caixa. Alguns dias depois, a dor diminuiu, mas a caixa continua no chão. Antes mesmo de tocá-la, alguma coisa já mudou: você se aproxima com cuidado, contrai o corpo, calcula o movimento e presta atenção naquela região que doeu. A caixa ainda nem saiu do chão.
Em outra situação, uma pessoa recebe uma mensagem dizendo que o chefe quer conversar no fim da tarde. Nenhuma informação adicional. Durante as horas seguintes, começa a reconstruir a última reunião, procura erros no trabalho, imagina uma demissão e percebe o coração acelerar toda vez que olha para o relógio. Às quatro da tarde, descobre que a conversa era sobre outro assunto.
O sofrimento experimentado durante aquelas horas não foi inventado. O organismo respondeu a uma possibilidade que ainda não havia acontecido.
Boa parte da nossa relação com o mundo funciona assim. O cérebro não espera passivamente que cada acontecimento chegue para só então começar a interpretá-lo. Experiências anteriores ajudam a criar expectativas sobre aquilo que provavelmente acontecerá depois.
Isso é extremamente útil. Também pode nos colocar em situações curiosas quando aquilo que aprendemos no passado continua influenciando a maneira como percebemos o presente.
O cérebro trabalha com previsões
Imagine entrar todos os dias em uma cozinha conhecida. Você não precisa examinar cuidadosamente cada objeto para descobrir onde está a geladeira, o que aquela forma sobre a mesa provavelmente é ou qual distância existe entre você e a parede.
O cérebro utiliza informações sensoriais que chegam naquele momento junto com conhecimento adquirido anteriormente. Contexto, memória, atenção e expectativa participam da interpretação.
Essa capacidade de antecipação aparece em inúmeras situações. Quando ouvimos uma frase, nosso cérebro utiliza o contexto para lidar com o que provavelmente virá depois. Quando atravessamos uma rua, fazemos previsões sobre velocidade e trajetória dos carros. Quando encontramos uma pessoa conhecida, experiências anteriores influenciam aquilo que esperamos daquele encontro.
O sistema nervoso está constantemente lidando com probabilidades. Isso ajuda a entender por que expectativa não é simplesmente “pensamento positivo” ou “pensamento negativo”. Grande parte desse processamento acontece sem que formulemos conscientemente uma frase sobre ele.
Você pode entrar em uma situação já mais atento a determinados sinais porque aprendeu, em experiências anteriores, que eles eram importantes.
A experiência anterior muda aquilo que esperamos
Depois de uma intoxicação alimentar, o cheiro do alimento envolvido pode provocar náusea muito tempo depois. Após uma queda, determinado movimento pode despertar apreensão. Uma pessoa que viveu repetidamente conversas que terminavam em conflito pode perceber mudanças corporais assim que reconhece o tom de voz que costumava antecedê-las. O organismo aprende relações.
Essa aprendizagem não significa que exista uma gravação perfeita do passado sendo reproduzida no presente. Memórias são reconstruídas, novas experiências modificam aquilo que aprendemos e o contexto influencia a resposta. Mesmo assim, o passado fornece informação para aquilo que o cérebro considera provável.
Na maior parte do tempo, isso economiza trabalho e aumenta nossas chances de responder rapidamente. Se alguma coisa realmente foi perigosa, faz sentido que sinais associados a ela recebam atenção no futuro.
A dificuldade aparece quando uma previsão construída em determinado contexto continua sendo utilizada depois que as circunstâncias mudaram.
A expectativa também participa da dor
A dor oferece um exemplo particularmente interessante porque sua intensidade não é determinada apenas pela quantidade de dano existente em um tecido.
Informações vindas do corpo são fundamentais, especialmente diante de uma lesão. Ao mesmo tempo, a experiência dolorosa é modulada por contexto, atenção, aprendizagem, significado atribuído à situação, estado emocional e expectativas.
Isso ajuda a compreender fenômenos como placebo e nocebo. Quando uma pessoa espera que determinado tratamento produza alívio, essa expectativa pode participar de alterações reais na experiência da dor. Quando espera piora, efeitos adversos ou maior intensidade dolorosa, também pode ocorrer modulação na direção oposta.
No efeito nocebo, por exemplo, expectativas negativas podem contribuir para sintomas e aumentar experiências desagradáveis. Isso não significa que a pessoa decidiu sentir mais dor ou que esteja imaginando aquilo que sente. A experiência é real.
Em experimentos, pesquisadores conseguem manipular expectativas sobre estímulos dolorosos usando informações ou pistas associadas a diferentes intensidades. O mesmo estímulo pode ser percebido de maneira diferente dependendo daquilo que o participante aprendeu a esperar.
Estudos de neuroimagem também encontraram alterações em sistemas cerebrais envolvidos no processamento e na modulação da dor relacionadas a essas expectativas.
O cérebro, portanto, não recebe um sinal corporal e simplesmente informa sua intensidade como um termômetro. A experiência resulta de um processamento muito mais complexo.
E quando a dor ensina a esperar dor?
Imagine alguém que sentiu dor várias vezes ao se abaixar. Depois de repetidas experiências, o próprio movimento pode adquirir outro significado. A pessoa começa a antecipar a dor antes de executá-lo, monitora intensamente a região, movimenta-se com mais rigidez ou evita determinadas atividades. Essa resposta pode ser bastante compreensível.
Se colocar a mão no fogo queimou, retirar a mão e evitar o fogo é uma aprendizagem excelente. A dificuldade aparece quando situações diferentes passam a receber a mesma previsão de perigo.
Em alguns quadros de dor persistente, medo relacionado ao movimento, hipervigilância, expectativas negativas e comportamentos de evitação podem participar da manutenção da incapacidade e do sofrimento. Isso não permite concluir que a dor esteja sendo “causada pela mente”. Também não significa que basta pensar diferente para fazê-la desaparecer. Significa que aprendizagem e expectativa passaram a fazer parte de uma experiência que continua sendo corporal.
A ansiedade também vive no futuro
Existe uma proximidade evidente entre expectativa e ansiedade. A ansiedade envolve, entre outras coisas, antecipação de possíveis ameaças. Isso pode ser extremamente funcional. Se amanhã há uma prova importante, alguma ansiedade pode levar você a estudar. Se existe risco real em determinada situação, antecipá-lo ajuda a se preparar.
O problema clínico é mais complexo do que simplesmente “esperar coisas ruins”. Nos transtornos de ansiedade participam fatores biológicos, psicológicos, ambientais e de aprendizagem, com diferenças importantes entre diagnósticos e entre pessoas. Incerteza, percepção de ameaça, atenção seletiva, experiências anteriores e formas de interpretar informações ambíguas podem ter papéis relevantes.
A expectativa participa da experiência. Não explica tudo. Uma pessoa também não escolhe livremente quais previsões seu sistema nervoso produzirá. Dizer a alguém ansioso que “é só parar de esperar o pior” ignora justamente o fenômeno que precisa ser compreendido.
Quando a incerteza incomoda mais do que a resposta
Há ainda uma situação particularmente interessante: saber que alguma coisa desagradável acontecerá pode ser diferente de saber que pode acontecer a qualquer momento.
Imagine que você precise receber uma injeção. Em uma situação, alguém informa exatamente quando ela acontecerá. Na outra, você sabe que ocorrerá nos próximos minutos, mas não sabe quando. A ameaça é semelhante. A experiência da espera pode mudar bastante.
A imprevisibilidade e a incerteza têm papel importante no estudo da ansiedade e das respostas ao estresse. Para algumas pessoas, não saber quando ou se alguma coisa acontecerá mantém a atenção voltada para possíveis sinais de ameaça. É fácil reconhecer isso fora do laboratório.
Esperar o resultado de um exame. Aguardar uma resposta depois de uma entrevista de emprego. Perceber que alguém importante “precisa conversar” sem saber o motivo.
Enquanto faltam informações, o cérebro tenta trabalhar com aquilo que possui. E frequentemente produz possibilidades.
O passado não desaparece quando entendemos o presente
Aqui surge uma experiência frustrante: podemos compreender racionalmente que uma situação mudou e continuar reagindo como se alguma coisa antiga ainda fosse provável.
A pessoa sabe que aquele movimento é seguro e continua receosa. Sabe que o parceiro atual não é a pessoa com quem viveu anteriormente e ainda percebe determinadas reações diante de um conflito. Sabe que uma palpitação pode ocorrer durante ansiedade e continua assustada quando o coração acelera.
Conhecimento explícito e aprendizagem emocional não são processos idênticos. Novas experiências podem modificar expectativas, especialmente quando aquilo que acontece repetidamente contradiz aquilo que era previsto. Esse é um dos motivos pelos quais diferentes tratamentos psicológicos trabalham, de maneiras próprias, com exposição, aprendizagem, comportamento, atenção, interpretação e novas experiências.
A mudança também não obedece a uma regra de 21, 30 ou 45 dias. O tempo necessário para aprender alguma coisa depende do comportamento, da pessoa, do contexto, da frequência das experiências e de muitos outros fatores. O cérebro adulto permanece plástico, e a mielina é apenas uma parte de uma história biológica muito maior do que a versão segundo a qual nossas “autoestradas cerebrais” estariam praticamente definidas depois da juventude.
Expectativa não é destino
Saber que expectativas influenciam percepção pode produzir uma conclusão tentadora: se esperamos melhor, viveremos melhor. O mecanismo não funciona com essa simplicidade.
Uma pessoa pode esperar que um tratamento funcione e não melhorar. Pode ter medo de um movimento e realizá-lo sem dor. Pode antecipar uma conversa terrível e descobrir que estava certa. Pode entrar tranquila em uma situação que realmente termina mal.
Previsões existem porque precisamos agir antes de conhecer completamente o que acontecerá. Algumas serão bastante precisas. Outras carregarão informações que já perderam utilidade.
Quando uma expectativa produz sofrimento persistente, observar de onde ela veio, o que a mantém e o que acontece quando a realidade a contradiz pode ser mais útil do que tentar substituí-la à força por uma afirmação positiva.
Voltando à caixa no chão: depois de algumas experiências seguras, talvez aquela pessoa se aproxime dela com menos apreensão. Pode precisar de muitas experiências. Pode continuar sentindo algum receio. Se houver uma condição dolorosa, pode precisar de avaliação e tratamento.
O cérebro continuará fazendo previsões. A diferença é que agora terá experiências novas para usar quando tentar adivinhar o que acontecerá em seguida.