Saudade


Não sou do tipo que alimenta saudade, seria este um terrível defeito ou uma bela qualidade?


Tenho em alta estima algumas pessoas, mas não me sinto emocionalmente dependente de nenhuma delas. Me adapto com a condição que se apresenta, podendo me acostumar com a presença ou com a ausência de alguém e, até hoje, tive em ambas certa facilidade. No entanto, não é que eu não sinta nada, mas meu olhar sobre a saudade é mais analítico do que sentimental.


Na morte, por exemplo, sinto falta do sentimento que era compartilhado, do amor que eu dava e do amor que eu recebia. É notável o excesso de "eu" nesta frase, o egocentrismo disso me incomoda bastante e me faz pensar.


Seria a saudade um sentimento egoísta, de quem sofre, não pelo outro, mas pelo que deixa de ter do outro? Ou um sentimento de posse, como se a vida do outro fosse sua também, como se algo que lhe pertence lhe fosse tirado? Ou seria ainda mais profundo, um vazio interno preenchido com alguém, mas quando esse alguém não se faz presente o que sobra é um buraco (por que o vazio nunca deixou de existir)?


Neste contexto, ao chorar por uma morte, choramos pela vida perdida ou pelo tempo que não teremos mais com a pessoa? Estamos chorando por ela ou por nós? Sinceramente não me agrada nem um pouco a ideia de ser uma pessoa egoísta, dependente ou possessiva, talvez por consequência eu esteja passando a imagem de fria e sem sentimentos, algo igualmente detestável, mas esta é uma dubiedade com a qual preciso aprender a conviver.


27 de abril de 2022