Amor


Se a saudade tem o egoísmo em sua essência, capaz de nos fazer lamentar até a morte de quem vivia em agonia. O amor, por outro lado, é seu antídoto, pois este sim é um altruísta. O amor é o sentimento que nos faz tornar o outro prioridade, mesmo que para isso tenhamos que anular nossos desejos, mesmo que para isso sejamos infelizes. Por este motivo a fama de que "amor é dor" acompanha este sentimento tão benévolo, mas ouso dizer, que o amor só dói quando não é genuíno, pois uma mãe jamais lamentará ter dado a seu filho o último pedaço de pão. Preferirá ter fome à vê-lo faminto, então mesmo em agonia se alegra. No entanto, agora acredito que não tenha usado o melhor dos exemplos, pois falar de mãe e como evocar os deuses, já que boas mães são seres sagrados capazes de tudo, é um golpe baixo citá-las.


Voltando ao amor, devo dizer então que seu altruísmo nos faz incentivar os sonhos de alguém, mesmo que esses sonhos não nos incluam, nos contentamos com a felicidade daquele que viaja para tentar a vida em outro lugar, alegramo-nos com as boas notícias, ainda que em segredo a ausência nos cause um grande vazio. No entanto, a cada novo contato, escondemos as lágrimas e estampamos no rosto um sorriso sincero, fazendo torcida pelo êxito de quem tanto queremos bem.


Em suma, no amor a nossa vontade não estará em primeiro plano, jamais nossa alegria irá sobrepor a alegria do outro, por isso, as vezes machuca, as vezes dói. Nem sempre a alegria do outro é ao nosso lado e, nem sempre a vontade do outro é a nossa vontade. Claro que não devemos ser apenas aquele que se doa, nem apenas aquele que recebe. Amar é estar disposto a solicitar e a fazer concessões o tempo todo, é um constante jogo de pender e ganhar. Viver o amor é buscar diariamente uma sinfonia harmônica perdida no ruído caótico da realidade.


19 de maio de 2022