Morales: Iniciei na perícia criminal como técnico em perícias, concurso de nível médio, em 2005. Atuei neste cargo por dois anos, trabalhando no necrotério, na clínica e na parte administrativa. Em 2008 fui aprovado no cargo de perito criminal, que comecei a exercer em 2009. Desde então, a maior parte da minha carreira foi dedicada ao exame de local de crime. Também assumi a chefia da seção de levantamento de local de crime por dois anos e a chefia da assessoria técnica de inteligência por 4 anos. Sou consumidor voraz da literatura médico-legal e criminalística, além da cultura true crime. Por isso, acabei me dedicando também a lecionar palestras sobre o tema e ministrar aulas sobre estes temas. Devido a minhas pesquisas e estudos relacionados à perícia de local de suicídio, sou professor do curso de formação de peritos de IGP nesta disciplina. Depois de 4 anos nas redes sociais, percebi a curiosidade das pessoas em relação ao meu trabalho. Por isso, escrevi dois livros (vestígios 1 e 2) relatando a realidade da perícia criminal através de casos que participei.
O que levou o senhor a escolher essa carreira? Acredita que o entretenimento tenha influenciado de alguma forma a sua escolha ou de outros profissionais que conheça?
Morales: Sempre fui fá de livros de detetive e de mistério, mas nunca tinha pensado em atuar na área. Foi somente na faculdade de direito, quanto tive aulas de medicina legal que decidi investir nesta carreira. Além de ter sido influenciado por Sherlock Holmes, o detetive de Arthur Conan Doyle, a série CSI que havia iniciado por volta dos anos 2000 também foi fundamental na minha escolha de carreira.
Há um ou mais casos que o senhor possa citar que tenha marcado sua carreira?
Morales: Já são 17 anos dedicados à perícia criminal. Foram muitos casos que acabaram marcando. Muitos destes eu relato nos meu livros. Casos com crianças são sempre muito perturbadores, então lembro de um que atendi no dia 12 de outubro de 2013, onde um pai matou o filho de cinco anos a pauladas. Também atendi um caso de decapitação causado por uma queda e um exame pericial em um templo satânico.
O que mudou na perícia no que se refere aos avanços tecnológicos desde a época em que ingressou até agora? Alguma similaridade com o que vemos na ficção?
Morales: Em todos estes anos é possível ver grandes avanços na área da computação forense e dos exames de DNA. Mas raramente o que é mostrado na ficção se aproximada da realidade.
No mundo da ficção uma investigação possui equipes dedicadas para cada caso, além de contar com uma gama de equipamentos de alta tecnologia que auxiliam no trabalho. Em que isso difere da realidade, considerando o cenário nacional e internacional?
Morales: No Brasil, o número de crimes é altíssimo e o quadro dos servidores da segurança pública é precário, o que dificulta uma dedicação muito aprofundada a todos os casos. Via de regra, raros são os governos que investem corretamente na perícia criminal. Existe muita tecnologia que nos ajudaria, mas devido ao alto preço do equipamento, raramente temos acesso.
No mundo da ficção há sempre muita complexidade e emoção em cada caso. Na atuação real, com quais sentimentos, bons e ruins, o senhor costuma lidar?
Morales: Como perito criminal, eu lido com apenas uma parte de cada caso. Faço o exame do local de crime e relato tudo isso em um laudo que fará parte do inquérito policial e deverá ser usado pelo delegado e investigadores para conduzirem a investigação. Raramente participo além disso. Os exames dos locais sempre são muito complexos, são muitos vestígios a serem analisados. Talvez, por fazer isso há tanto tempo, raros são os locais que apresentam alguma emoção. Mas ainda há aqueles que fogem da curva. Infelizmente, os sentimentos ruins predominam, pois meu trabalho é lidar com mortes e crimes.
Na sua opinião, quais as principais diferenças da Investigação Forense e a Perícia Crimina retratada no mundo da ficção para a atuação real?
Morales: Na ficção é muito romanceado e tudo tem solução. Nem sempre chegamos a uma conclusão, nem sempre há um culpado. Não se trata de uma ciência exata. Outra diferença é que na realidade, o perito participa apenas da perícia e não da investigação.
Em seus momentos de descanso costuma ler ou assistir filmes, séries e/ou documentários criminais/investigativos? Consegue se identificar com alguma personagem no que se refere à sua atuação profissional? Se sim, de qual forma?
Morales: Eu já fui mais consumidor da literatura e mídia true crime e de filmes e séries sobre o tema ou de investigação. Tenho dado um tempo a este tipo de mídia, pois já são muitos anos dedicados a isso. Ainda costumo consumir muita literatura técnica sobre o assunto, então acabo deixando a ficção um pouco de lado. Já assisti muito CSI, Criminal Minds, Dexter, Sherlock. Como citei anteriormente, me inspiro muito no Sherlock Holmes mas também me identifico um pouco com a seriedade do Gill Grissom do CSI Las Vegas.
Poderia citar livros, filmes ou séries, que na sua opinião, são mais "viajados" e outros que são mais "coerentes" com a realidade?
Morales: As últimas temporadas do CSI Las Vegas realmente são muito “forçadas”. A maioria dos livros de ficção que li sobre o tema também são pouco plausíveis. Dentre aqueles que se aproximam um pouco da realidade posso citar “O colecionado de ossos” de Jeffery Deaver e “Dragão Vermelho” de Thomas Harris.
Algo a acrescentar sobre o tema?
Morales: Com a evolução dos meios de comunicação através da internet temos acesso a muitas informações que não tínhamos antigamente. Todo mundo pode saber mais sobre a realidade da perícia criminal através de algumas pesquisas nos sites de busca ou até mesmo em redes sociais. Mas é necessário saber filtrar a informação pois ainda há muito conteúdo equivocado.