Não sabia o que fazer, não sabia quem estava fazendo essa brincadeirinha de muito mal gosto, mas sabia que minha irmã nunca faria isso comigo. Ela estava dormindo.
Esperei algumas horas, perambulando por todos os cômodos da casa. Estava apavorado: como um irmão faz isso com a própria irmã? Como eu pude deixá-la sozinha? Me sinto tão ingênuo, mas ao mesmo tempo tão… tão culpado.
Esperei mais um pouco, até que algum barulho surgiu, um barulho de munição, me parece que seja lá quem ou o que for aquilo não estava apenas com uma faca. Não ouvi gritos, parecia que minha pequena Diana ainda estava dormindo. Mas não importava, se eu não entrasse lá agora, haveria sangue e um cadáver em cima da cama de baixo.
Peguei a chave do quarto, abri, junto com uma faca de cortar carne, que mamãe havia deixado em cima da pia. Ou eu corria ou morria, e não estava disposto a perder minha vida nessa casa. Planejei algo muito mais especial para minha morte supostamente próxima.
Quando abri a porta, não vi nada além de uma escuridão extrema. Se aquilo que me ameaçava era humano - como parecia ser -, também estava cercado de escuridão. Confiei em meu instinto de que outros seres vivos não sabem escrever, portanto, quem estava fazendo isso era sim um humano, mas não tinha certeza de nada ainda. Não liguei a luz: tenho a planta de meu quarto inteiramente em meu cérebro, sabia onde deixei minha irmã antes de passar para fora da porta. Não senti ninguém deitado na cama, cacei mais um pouco, e minha irmã segurou meu braço, me puxou para perto e disse: “Me tira daqui, irmão”. Peguei ela no colo, e ela voltou a dormir, não sei ao certo se havia dormido ou desmaiado, mas sei que estava perdendo muito sangue. Tenho certeza que aquela coisa tentou matar minha irmã.
Liguei para a ambulância. Demorou, mas chegou. Levaram-na em uma maca, na parte de trás do carro. Fiquei ao lado. Nunca mais sairia de perto dela depois do que deixei acontecer. A culpa me consumia, lágrimas salgadas desceram pelo meu rosto, jamais deixaria minha irmã sozinha se eu soubesse o que iria acontecer. Nem sei o que deu em mim… ela é tão pequena.
Quando chegamos no hospital, eles a trataram e doparam e eu liguei para minha mãe, mas ninguém atendeu. Liguei para o meu pai e, novamente sem resultado, ninguém da minha família atendeu. Na hora estava tão preocupado que nem pensei que poderia ter ocorrido algo. Dizia meu pai: “adultos sabem se defender”, então, para que me preocupar?
A médica que atendeu minha irmã sabia bem o que era quase perder um irmão por culpa sua, então pagou um Uber para nós, e voltamos seguros para nossa casa.
Chegando lá, por alguma razão a porta do meu quarto estava trancada. Revirei a casa e nada, devia ter esquecido a chave para dentro, e a porta deve ter emperrado. Como minha irmã estava dopada, precisava descansar até que a anestesia passasse. Então a coloquei na cama dos meus pais, tomei um banho, e fui dormir junto com ela.
Quando acordei, era por volta de umas nove horas, e meus pais ainda não haviam
voltado. Haviam, contudo, deixado mensagem no tablet que eles guardavam em cima da prateleira do quarto:“´Desculpa se assustamos vocês, querido Miguel, mas estamos na casa de uma amiga da mamãe, a tia Marian, voltaremos por volta das 17:00, com amor, Mamãe e Papai”. Agora, mais tranquilizado, saí do quarto e fui em direção ao banheiro que ficava ao lado esquerdo do quarto que estava com a porta trancada na noite passada e, por alguma razão, aquela porta…. aquela porta estava aberta!,
Na noite passada, a porta estava trancada; como poderia ter sido aberta de repente, durante uma curta madrugada? Acordei minha irmã - não cometeria o mesmo erro duas vezes - peguei meu celular e chamei a polícia (o que de fato já deveria ter feito há horas). Ela chorava, dizia ter tido um pesadelo, no qual uma mulher alta, com olhos extremamente vermelhos, corria tentando pegar alguém no condomínio em que moravam; na mão esquerda, ela tinha um grande revólver e, na direita, uma faca de chef . O pesadelo a fez acordar às quatro horas da manhã. Ela ainda disse que tentou me acordar, mas falhou. Expliquei para ela que, se por um acaso, ela tivesse cogitado a ideia de me acordar, eu acordaria no pulo, já que meu sono é extremamente leve e também disse a ela que esse pesadelo era porque ela havia tomado muitos remédios e deve ter ficado bem cansada.
Depois de poucos minutos, consegui entrar em contato com a polícia. Disseram que trariam uma viatura para averiguar a situação.Ao chegarem, procuraram qualquer resquício de seres humanos que poderiam estar na casa além de nós dois, e não acharam nada. O policial mais velho olhou diretamente para mim e me questionou:
- O rapaz acha certo passar trotes para a polícia? Ainda mais quando não há nenhum adulto para educá-lo- onde estão seus pais?
- Senhor, eu não lhe passei um trote. Ouvi barulho de munição de arma vindo do quarto no qual eu tenho absoluta certeza que a porta estava emperrada na noite anterior, abrindo-se hoje cedo. Meus pais foram a uma balada e ainda não voltaram, vão voltar daqui a poucas horas.
Minha irmã se fez de muda, não deu um “ai” sequer durante minha longa conversa com o policial. Mesmo depois da minha queixa, ele virou as costas e saiu andando. Provavelmente ele deve achar que sou um tipo de maluco.
Quando o relógio afirmou ser 12:00, Diana começou a chorar pedindo comida. Então aqueci o macarrão que ela não havia comido na noite passada, e ela comeu. A gente já estava dentro de casa, bem seguro, quando ouvi três batidas na porta. Olhei pelo olho mágico, não havia ninguém. Então abri a porta. Em frente aos meus pés havia uma carta, com o mesmo símbolo que havia recebido na anterior, Li a carta antes que minha irmã pudesse perceber meu rosto indicando preocupação. Queria nunca ter lido aquela carta
Na carta, sem assinatura, havia uma história, confusa, não teria certeza de seu significado:
Outubro de 1950. Na noite de halloween, um jovem adulto chamado Aib Nunes dormia tranquilamente sozinho em
seu quarto 10x10, ele estava ansioso para que seus pais o acordassem falando que nunca iriam abandoná-lo, como sempre faziam, às 8:00, mas dessa vez, algo de estranho ocorreu. Três horas da manhã, estavam todos dormindo, menos Aib: o espertinho quis ficar acordado até mais tarde, e acabou ouvindo o que não deveria, três batidinhas na porta, ele olhou pelo olho mágico -igual você- quando viu que não tinha nada abriu a porta e em frente aos seus pés havia uma carta nela eu explicava o que ele deveria fazer, mas ele descumpriu as regras, saiu de seu esconderijo em um tempo curto, e teve seu destino acabado. O garoto era tão jovem, e sua irmã Daniela, então, literalmente uma recém nascida. Aib Nunes, um sobrenome familiar, pai de Marcelo Nunes Medeiros, sogro de Michelle Medeiros. Uma trajetória em comum.
Marcelo Nunes? Michelle Medeiros? M-meus pais…. Aib Nunes? Meu avô falecido, morto por assassinato, ninguém sabe quem o matou ou o quê, mas acho que estou prestes a saber.. meu pai? Meu pai está vivo, e nunca teve nenhum tipo de indício no qual tenha passado por um quase homicídio, nada, minha mãe nunca comentou nada, e digamos que ela não saiba guardar segredo, não muito bem, não que eu saiba pelo menos.
Minha irmã não estava se importando muito com eu procurando uma solução, andando de lá para cá, esperando que algo acontecesse magicamente ou que o que seja la o que for aquilo mandasse outra mensagem, ou melhor dizendo, eu esperava que ela mandasse uma carta com o que ela disse que meu avô fez, para que eu faça também.
O despertador do celular tocou, indicando que havia dado 15:00, faltavam apenas duas horas para meus pais chegarem da casa da amiga da minha mãe, e aquilo mandou outra carta:
Esperando por mim? HAHÁ, todos ficam perdidinhos enquanto me esperam, acho que deve estar no mínimo ansioso.
Apague as luzes da casa, vamos jogar um joguinho divertido.
1- Adoro locais onde se guardam o pão de cada dia.
2- Não ouse lavar a louça durante a nossa brincadeira.
3-Onde você dorme é meu lugar preferido.
4-Não deixe para mim a tarefa de desligar a televisão.
5- Cheiro de sabonete me atrai.
Você terá três minutos para se esconder, não se esqueça de manter as luzes apagadas. Três minutos apartir de agora…. 1….2…
P.S: Sua mãe mandou mensagens em seu tablet.
Entendi a brincadeira! As pistas são onde ela ou ele vai procurar, pelo que entendi eu só não posso me esconder nos seguintes locais:
1- Dispensa
2- Embaixo da pia.
3- Embaixo ou em cima da cama.
4- Embaixo da pia do banheiro ou dentro do box.
Espera? Minha mãe mandou mensagem? Será pegadinha? Não, eu sei como funcionam os filmes de terror, é pegadinha com certeza! Não vou ser mais um defunto dentro dessa casa, de idiota já basta meu avô! Tenho ainda dois minutos. Primeiramente escondi minha irmã embaixo do sofá da sala, disse, quase cochichando:
-Não faça barulho e não saia daqui!
-Tá bom.
Os dois minutos se finalizaram e a porta rangeu pontualmente conforme o que me dissera, me segurei entre as paredes do armário, a asma atacou e eu não estava com a bombinha, e mesmo se estivesse ela faz muito barulho,e faz muito tempo que não utilizo.
Lembro-me de ter lido algo na carta que dizia que ele só teria doze minutos para procurar, para uma casa pequena daquela, acho muito, mas eu não iria debater com o que poderia ser o próprio demônio reencarnado. Para minha sorte, estava com um relógio de pulso em meu braço, consegui ver a hora tranquilamente.
De repente, com ainda menos ar, eu escutei algo que me lembrou um grito... DIANA?
Não, não faz sentido, me mantive dentro do armário, vai que o ser humano mesmo que gritou? 15:11, aquilo tinha só mais um minuto, e eu ouvi um barulho de vidro quebrando, gritos e mais gritos vindo da sala de estar, meu medo me paralisou, não queria me mexer, não CONSEGUIA me mexer, 15:12 e a porta se abriu novamente, seja lá o que for aquilo, foi embora exatamente como tinha chegado.
Fim….