Um barulho alto vinha do quarto em que deixei minha irmã pequena dormindo. Ela tinha acabado de cair da beliche (havia colocado ela na cama de cima, considerei mais seguro), felizmente ela não se machucou muito, fiz apenas um pequeno curativo em seu joelho. Virei as costas, fui à porta da pequena sala de estar, observei o corredor por meio do olho mágico - não havia ninguém. Voltei ao quarto, coloquei Diana na cama de baixo (a cama dela) com três cobertores: ela tremia muito, talvez de medo, talvez de frio. Nunca presenciei uma noite tão fria, deve estar fazendo, pelo menos, dez graus.
Minha irmã adormeceu, o telefone da casa tocou, o porteiro do condomínio que estava na linha, dizia, de maneira raivosa:
-Olá, menino.
-Olá, seu Luís.
-Seu macarrão chegou. O entregador está com pressa, venha rápido.
-Avise o homem que estou indo, espere três minutos, estarei descendo.
-Sim, senhor.
Fui até o quarto de meu pai, abri a terceira gaveta do armário mais próximo da porta: era a chave do meu quarto e de minha irmã. Tranquei as janelas do quarto e tranquei a porta. Espero que ela não acorde, e senão vai ficar desesperada.
Desci os seis lances de escadas em menos de um minuto, já que tinha pressa. O entregador não retirou o capacete, entreguei os quarenta e cinco reais do macarrão, peguei e subi as escadas novamente.
Mantive a porta trancada, seria melhor assim. Abri o macarrão e separei macarrão por macarrão, para que minha irmã não brigasse comigo. No fim, encontrei um papel, a gramatura parecia de bíblia - talvez pelo fato de estar sujo de macarrão - mas consegui entender bem o que estava escrito. Lá dentro, escrito com uma letra estranha e suspeita: Cuidado com quem você tranca no seu quarto, Miguel Nunes.