CAPÍTULO 5
“Ignore isso, nós já sofremos por tempo demais.”
HARRY POTTER
Nosso quarto é simplesmente brilhante. Claro - você deve pensar - muitas coisas para ele são brilhantes depois de viver anos em péssimo estado com os Dursley - mas após meus onze anos eu fui para Hogwarts, o que é, literalmente, uma escola de magia. Para um trouxa-não-trouxa como eu era, Hogwarts era uma espécie de universo alternativo, e durante um pequeno período, meu paraíso na terra. Não me entenda mal, eu amo aquele lugar, é minha casa, mas ultimamente tudo se resumia em voldemort, voldemort, voldemort e voldemort. Os únicos momentos em que relaxavámos eram quando Fred e George nos convenciam a fugir para a floresta proíbida ou em assaltos à cozinha, como o último, que por um acaso resultou em nossa vinda para cá. Mas aqui é realmente aconchegante, além de luxuoso (sala e cozinha acopladas, 4 suítes e uma sacada/ mini varanda não são tão comuns em hotéis), faz com que me sinta... leve.
É, acho que leve seria a palavra correta, em tempos, tenho finalmente a sensação de que posso andar por aí sem temer quebrar uma regra, perder pontos ou precisar me proteger de algum ataque inesperado. Posso considerar esse acidente uma porta para momentos de paz.
— Eu não acredito! Essa mulher é uma víbora! — Rony estava na bancada da cozinha, comendo marshmallow e assistindo a alguma novela dramática no televisor portátil em sua frente.
— Quem é uma víbora? — Hermione chega à sala e pergunta.
— A Leda! Será que ela ainda não entendeu que não vai conseguir conquistar o Carlos Daniel? Pelo amor, já está ficando ridículo.
— Meu Merlin, enlouqueceu de vez... — Gina, que estava lendo um guia turístico no sofá, resmunga me despertando uma risada.
Me dirijo até a sacada.
— Vocês também se sentem como se um peso fosse retirado de suas costas? Tem sensação de leveza e paz por não ter mais que se preocupar com tantas regras e riscos?
Os três me encararam e permaneceram em silêncio por um momento, e então, Hermione foi a primeira a responder.
— Por incrível que pareça, mesmo eu respeitando muito os regulamentos e sempre dizendo o quão necessários são, de vez em outra me sinto cansada, não só das regras, mas de toda a nossa situação. Tudo isso é desgastante, querendo ou não. Nós somos adolescentes, acabamos de entrar em uma fase onde tudo que precisamos é errar, aprender, errar novamente e descobrir quem somos.
Rony sem querer pressionou o controle do televisor e o volume aumentou, fazendo com que a música de abertura de seu programa preenchesse o espaço: La ursupadoraa, esperando por tu amor...
Todos gargalhamos.
— Nós estávamos em um momento muito reflexivo, mas é claro que quando se tem Ronald Weasley na conversa é impossível haver seriedade. — Gina diz e seu irmão mostra a língua como uma criança de cinco anos, nos fazendo voltar a rir.
— Sabe, mesmo estando de certo modo em paz, algo em meu interior ainda alerta que isso não é apenas uma situação das trevas - sinto que é muito além de Voldemort e seus comensais.
— Ignore isso, nós já sofremos por tempo demais. — A weasley mais nova foi a primeira se manifestar, me surpreendendo um pouco com sua fala. — Papai uma vez chegou em casa cantarolando uma música trouxa que dizia para viver uma vida de se lembrar, e eu não quero apenas momentos trágicos para as minhas memórias, já os tenho suficiente. Quando chegar a hora de lutarmos e enfrentarmos tudo isso de frente, nós faremos, mas por enquanto, vamos apenas deixar isso em segundo plano e tirar tudo de bom possível do agora. Sem preocupações com o futuro.
— Normalmente deixar os problemas em segundo plano e ignorá-los não é uma escolha saudável, mas você tem razão, precisamos viver.
É, parece que minhas amigas estão certas. Nós precisamos de uma pausa.
[...]
Quando finalmente anoiteceu, todos estávamos reunidos no quarto dos gêmeos com Cedric e Neville, maratonando a novela que Rony assistia mais cedo.
— Ah não, isso é MUITO injusto! Cara, a Paola traía o Carlos Daniel, mas pelo menos não era na frente de todo mundo. Pelo amor, a Leda chegou, deu um beijo nele na frente da Paola/Paulina, ele retribuiu e ainda ficou feliz porque ela ficou brava. Dai-me paciência. — Mattheo diz completamente indignado.
Ele tem razão, como a Paulina ainda consegue aguentar isso? É muita hipocrisia e falta de vergonha do Carlos Daniel, eu já teria lançado tudo para o ar sem me importar com a verdadeira Paola ou com o casamento dela.
Batidas suaves na porta ecoam pelo ambiente.
— Minha nossa, quem será a essa hora? — Neville diz.
Realmente, o relógio marcava mais de 21 horas, não imagino quem poderia ser a essa hora além do serviço de quarto. Fred é quem vai atender a porta.
— Olá, olá... aah, você é a filha do Derek, não?
— Sim, a May.
— Uhm... entre.
Ouço Draco resmungar uma reclamação ao meu lado.
— Oi gente, tudo bem? — Todos respondem com cumprimentos animados. — Hã, então... eu vim para convidá-los para uma festa de Halloween aqui no hotel. Nós fazemos mais para os amigos e família, mas hóspedes também são convidados, caso vocês queiram ir, nós podemos ir comprar suas fantasias amanhã, eu estou livre e com grande disposição para um passeio no shopping.
Nem um segundo após, Malfoy é o primeiro a falar.
— Muito obrigada, mas...
— É claro que vamos! — George o corta. — Só nos diga o horário.
May abre um sorriso de orelha a orelha.
— Ótimo, podemos ir às 11 e almoçamos em algum restaurante mesmo. — ela faz uma pausa ainda sorrindo. — Bom, era só isso, desculpe por ter perguntado assim tão tarde. Vejo vocês amanhã. Ah e meninos, eu não ficarei no hotel hoje, as chaves do quarto estão dentro do vaso da porta. — Ambos acenam.
— Sem problemas, até amanhã. — Eu respondo e todos acompanham se despedindo e sorrindo também. Parece que não só eu penso que essa festa será memorável.