CAPÍTULO 10

“a dimensão muda mas sua teimosia não.”

NARRADORA



Harry conhecia aquela música, lembrava de ouvi-la frequentemente em sua infância, tocando na vitrola de sua mãe, ao lado de todas as fotos dos marotos. 

Ao contrário da história que você conhece, Harry não é órfão, e ainda não enfrentou a guerra bruxa como deveria. Ele é só um garoto bruxo comum. Ou deveria ser. 

O sobrenome Potter carrega responsabilidades, especialmente quando seus pais fazem parte da Ordem da Fênix e são dois dos bruxos mais poderosos e ricos. Uma das coisas que sempre gostara, eram os cafés da manhã em família, por toda a cantoria e bagunça que seu pai e seus tios faziam. Aquilo desconstruia toda imagem de família intocável que o Profeta Diário tentava criar. 

 Foi um pouco difícil reconhecer a voz, claro, você sabe, realidades diferentes, detalhes diferentes, mas seria complicado uma essência como aquela mudar bruscamente, mesmo em outra dimensão. Sirius Black sempre foi inconfundível. E como e porque estava em Azkaban? A única que pôde tentar explicar uma possibilidade, foi May.

— Escutem, se estamos na realidade onde o que acontece nos livros é real, ele foi preso por... pelo assassinato de seus pais, Harry. — A menina diz, hesitante. 

O garoto se sentiu como se tivesse levado um soco.

— Calma! Não foi ele realmente, só o culparam. Quem traiu os Potter na verdade foi Peter Pettigrew.

— Vocês sabem que eu ainda posso os ouvir, não? — A voz de Sirius volta a ecoar. — E eu não sei que feitiço vocês usaram para descobrir tanto sobre minha vida, mas a menina está certa, não fui eu, aquele rato nojento matou meus melhores amigos, e nos traiu debaixo dos nossos narizes.

— Tio, olha... — Rony começa.

— Não me chame de tio, a única criança que tem esse direito não sabe que existo.

— Hã, Sirius, você precisa tentar nos entender... nós não somos daqui, desse mundo, realidade, e precisamos muito, muito, voltar. — Harry completa.

— Ah criança, eu também era assim, pregando peças em mais velhos, contando histórias sem sentido. 

— Que irônico, a dimensão muda mas sua teimosia não.

— Mais respeito meninho.

— Pede por respeito, mas sequer leva a sério o que estamos dizendo. Acha mesmo que se quiséssemos somente pregar uma peça veremos até Azkaban? Lugar qual sempre fomos ensinados a temer? Ou então, se nós já estivéssemos aqui antes, não acha que nos ouviria, e que deveríamos estar separados? Use mais a cabeça. 

Ao digerir todas as palavras, Black percebeu o quanto essa fala o lembrou a maneira como Lily te dava broncas. Talvez, ele pudesse tentar ajudá-los, mesmo não acreditando na história. Se saísse de lá, poderia rever seu afilhado, e cuidar dele, como um dia prometeu aos seus melhores amigos. Também teria Moony de volta.

— E se te incentiva, Peter ainda está vivo. — May fala.

Ele se decidiu imediatamente. Iria encontrar Perebas.

— Bem, talvez eu possa ajudá-los.

Era possível escutar suspiros aliviados.

— Ainda não acredito em vocês, e para me devolver o favor, terão de me ajudar a ir a Hogwarts, encontrar Harry e aquele rato, sem ser descoberto.  

Todos concordaram, afinal, voltar era a coisa mais importante no momento, ou talvez a segunda. 

[...]


O novo trio passou mais de quatro noites mal dormidas em Azkaban, e dia após dia, planejaram juntamente ao seu vizinho de cela, o que poderia ser considerada a melhor, ou pior e mais arriscada fuga possível. Mas no momento, era tudo, ou nada.

Quando o dia chegou, Rony se sentia um pouco enjoado e muito ansioso, enquanto May parecia entre o medo e a emoção. 

Harry não deixara nenhum sentimento transparecer. Sirius permanecia mais calado do que esteve durante todos os dias, esperando para agir.

Três toques na porta. Era a hora. 

— Nos encontramos na entrada. 

Os dementadores se aproximavam com a comida e Sirius assumia sua forma de animago, enquanto os amigos continuavam a esperar a aparição dos aurores.

Não foi difícil passar entre as grades da cela, já que estava mais magro do que já esteve em anos. 

Sirius percorreu os corredores da maneira mais calma e silenciosa que ele poderia. A torre da prisão era grande, as paredes escuras e frias, igualmente ao chão.  Ao chegar a porta, que só havia visto uma vez, parou, e esperou até que ouvisse os passos se aproximando.

Ele não sabia a data desde que foi preso, mas decorou a frequência com que os aurores visitavam e apreendiam criminosos. 

Dementadores são cegos, mas podem reconhecer pessoas saudáveis e doentes que entram na prisão. 

Ficou escondido por um tempo razoável em uma sombra num canto quebrado perto da entrada (e saída) até seus companheiros fugitivos chegarem, uma das vantagens de ser um cachorro, é você não precisar de muito esforço para se enfiar em lugares estranhos.

Quando olhou para o menino com quem conversou a maior parte desses dias, quase estragou tudo. Ele era a cópia de James. 

A vontade de choramingar despertou dentro dele, e por pouco foi impedido, sendo pego no colo contra sua vontade. Toda a tristeza foi guardada e deu lugar ao impulso de morder aquele adolescentezinho que se parecia demais com seu melhor amigo. 

Prongs estava certo, talvez ele precisasse de vacina para raiva.

Os quatro começaram a contornar o cemitério de Azkaban como o combinado. Até aquele momento, nenhum dementador interferiu.

Bem, só até aquele momento.

Somente bruxos muito poderosos e com muita prática poderiam lançar feitiços sem o uso da varinha. Não seria diferente com Rony e Harry. 

Eles eram muito poderosos, depois de conseguirem apagar os aurores não havia dúvidas, mas não tinham prática.

Minutos depois estavam acordados. 

Sem varinhas e trajes, mas nada os impedia de gritar.

O tumulto de dementadores começou e os amigos estavam cercados, assim como toda a torre. 

A varinha escolhe seu bruxo, mas a única opção seria lançar um feitiço para afastá-los. 

— Harry! — Rony exclamou como incentivo.

O garoto olhou para ele e acentiu. 

Tudo, ou nada.

— EXPECTO PATRONUM! 

Uma luz extremamente brilhante cobriu toda a ilha, afastando totalmente os dementadores e fazendo com que May, Rony e Sirius cobrissem os olhos.

A luz continuou a brilhar cada vez mais forte, e permaneceu assim até que a varinha começasse rachar.   

Os pedaços de madeira se lançaram no ar e a luz explodiu, lançando o grupo para trás e espantando todo o resto dos dementadores. 

Se levantaram rapidamente e correram para a água. As criaturas não demorariam a voltar.

— Para onde vamos primeiro? — May pergunta. 

— Vamos a Hogwarts. — Harry responde.

[...]


O trio de ouro. O grupinho do menino que sobreviveu. Os alunos da Lufa-Lufa, Sonserina e Grifinória. 

Em cada canto e realidade do multiverso, Harry e seus amigos são conhecidos de uma maneira.

Tantas memórias, tantos problemas. Todos com vidas agitadas, passando por mais um acontecimento crucial em sua vida.

Agora separados de sua família e das pessoas que consideram parte dela, Harry e Rony seguem nadando e pensando em como e quando tudo isso irá acabar.

Você sabe que esse não é o fim, não é?

A história só está começando.