Degustação
Emanuel Escarlata, um homem de aproximadamente 60 anos, entra correndo na sala de sua linda casa, gritando apavorado:
— Socoorro!!! Socoorro!!!
Atrás dele, entra o seu filho, Rafael Escarlata, aparentando estar drogado, empunhando uma grande faca de cozinha e gritando:
— Eu te mato! Eu te mato!!
A estória por trás dessa tentativa de assassinato na família Escarlata começou em 1999. Neste ano, a família Escarlata era composta de Emanuel Escarlata ou Nuel com 40 anos, um empresário de sucesso, dono de uma rede de concessionárias de automóveis, a sua esposa Samanta Andrade Escarlata ou Sam, advogada, professora universitária e conferencista de renome e os dois filhos pequenos do casal, Rafael ou Rafinha e Rosane ou Rô, que eram muito mimados por ambos. Emanuel não tinha outros parentes. Samanta tinha apenas um irmão, Dejair Andrade ou Dê. Dejair era 10 anos mais velho do que Samanta, casado com Lourdes Bezerra Andrade e ambos tinham uma filha pequena, Carolina ou Carol. A família Andrade era agropecuarista e morava na fazenda Meu Paraíso em Jales, a 660 km de São Paulo.
Dejair viajava frequentemente para São Paulo a negócios e aproveitava essas oportunidades para visitar a família Escarlata. A família Escarlata, por sua vez, costumava passar algumas férias e feriadões na fazenda Meu Paraíso.
Rafael e Rosane adoravam ir para a fazenda Meu Paraíso por causa da prima Carolina e de Vitória ou Vi, a filha de um dos empregados de confiança de Dejair. Algumas vezes, Rafael e Vitória trocavam beijinhos e prometiam que iriam se casar quando crescessem.
Apesar de Dejair, Emanuel, Lourdes e Samanta gostarem de estar juntos, havia alguns conflitos entre eles. Muitos desses conflitos ocorriam porque Dejair e Lourdes eram CACs registrados, isto é, caçadores, atiradores e colecionadores de armas, ferrenhos defensores dos valores familiares e porque Dejair costumava dizer para Emanuel e Samanta: “Vocês precisam de uma arma! Todo cidadão de bem deveria possuir uma arma para ter como proteger a si, a sua família e a sua pátria! Além disso, um povo armado jamais será escravizado!”
E Samanta costumava responder: “Nós jamais teremos arma alguma! Nós não acreditamos em armas! A proteção do cidadão é dever do estado! Quem tem arma em casa ajuda a armar os criminosos!” Noutras vezes, esses conflitos ocorriam porque Emanuel e Samanta costumavam minimizar a importância da família, defender o politicamente correto, o desarmamento, a desmilitarização da polícia, o direito das minorias, a sustentabilidade, o direito ao aborto, a descriminalização das drogas, a politização das escolas, a ideologia de gênero, a estatização das empresas, o paternalismo estatal, a submissão das religiões ao estado, o uso de pronomes neutros, os políticos que lutavam por essa pauta e tentar convencer Dejair e Lourdes a entrarem nesse grupo.
Apesar desses conflitos, a relação entre Dejair, Emanuel, Lourdes e Samanta sempre foi muito cordial e divertida. Algumas vezes, Emanuel e Samanta caçoavam de Dejair e Lourdes chamando-os de Jeca e Bezerra, respectivamente. Noutras, Dejair e Lourdes caçoavam de Emanuel e Samanta, chamando-os de Mané e Anta. No entanto, a relação deles começou a se deteriorar com o passar do tempo, pois à medida que Rafael e Rosane cresciam foram se tornando cada vez mais voluntariosos, inconvenientes e desrespeitosos. Foram inúmeras as vezes, que Dejair disse para Samanta e Emanuel: “Ocês precisam impor limites pra essas crianças ou elas poderão se desviar do caminho do bem!”
Geralmente, ambos ignoravam Dejair ou lhe diziam algo assim: “Deixa de ser Jeca, Dê! A repressão é maléfica para o desenvolvimento das crianças!”
E Dejair retrucava dizendo:
“Besteira, Anta (ou mané)! É a educação que molda a sociedade! Se os pais deixarem as crianças fazerem o que quiserem, a sociedade virará uma merda!”
E Emanuel ou Samanta costumavam dizer: “Os tempos são outros, Jeca! Nós somos prafrentex!”
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