Degustação
A identificação do Eu constitui um dos maiores desafios à racionalidade do ser humano. Provavelmente, a maioria das pessoas deve considerar essa identificação totalmente inviável. No entanto, este livro foi escrito para demonstrar exatamente o contrário. O primeiro passo para demonstrar isso será dado a partir do modo de ver o Eu.
O modo de ver o Eu pode variar muito. Algumas pessoas acham que o Eu é algo misterioso ou sobrenatural. Outras, já acham que o Eu é algo natural, mas que surge casualmente. Apesar dessa divergência, a maioria das pessoas concorda nos seguintes pontos: a) Na dificuldade de identificar e explicar o que é o Eu; b) Na certeza da existência do Eu. Para descobrir o porquê dessa concordância, é necessário analisar cada um desses pontos separadamente.
Os principais motivos para a dificuldade de identificar e explicar o que é o Eu são os seguintes: 1) A intangibilidade do Eu, pois é muito difícil identificar e explicar aquilo que não se consegue ver nem tocar; 2) A impossibilidade de usar as ciências para essa finalidade, pois estas somente podem ser utilizadas em fenômenos cujas variáveis ou componentes possam ser manipulados e medidos em ambientes controlados. Apesar das dificuldades para identificar e explicar o Eu, há um caminho inteiramente lógico para contorná-las. Esse caminho é, propositadamente, a estrutura desta obra.
A convicção da existência do Eu se fundamenta na percepção de que as capacidades de querer, fazer, sentir, aprender, pensar etc. somente podem se manifestar devido a algo que há nos seres humanos. A propósito, o filósofo, físico e matemático, francês, Renée Descartes se fundamentou nessa percepção para criar a famosa frase: “Penso, logo existo!” Quem, em sã consciência, pode duvidar que o pensar seja uma das principais evidências da existência do seu Eu? A relação entre o Eu e o pensar é um argumento muito forte a favor da existência do Eu. No entanto, esse argumento sozinho é insuficiente para possibilitar a identificação do Eu. Para embasar essa identificação são necessários muitos outros argumentos. Além disso, esses argumentos somente podem ser considerados válidos se partirem de premissas que sejam verdadeiras. Uma das maneiras de chegar a essas premissas é adotando uma visão básica do Eu, como a que será apresentada a seguir.
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