O sistema locomotor do corpo humano é todo sustentado e articulado pelos ossos. A organização óssea tem ainda a função de proteger certas partes do corpo. O crânio protege o cérebro; o tórax protege o aparelho cardiorrespiratório; grande parte do fígado e todo o baço são protegidos pelas costelas inferiores; a medula encontra-se dentro do canal medular, formado pelas vértebras.
O sistema locomotor pode ser afetado por lesões traumáticas ou por situações clínicas. As condições clínicas não apresentam a mesma gravidade das lesões traumáticas, mas algumas delas podem ter consequências graves para as vítimas. É o caso da artrite piogênica e da osteomielite aguda.
As lesões traumáticas podem assumir proporções desastrosas se não atendidas com o primeiro socorro adequado. A maioria das lesões traumato-ortopédicas não apresenta muita gravidade.
A nossa atuação como socorristas resume-se a ações de ordem preparatória para um atendimento especializado. Todas as lesões traumato-ortopédicas são extremamente dolorosas, desde as mais simples entorses até as fraturas expostas com hemorragia.
Antes de entrarmos nos procedimentos de primeiros socorros, para cada caso, é importante tecer algumas considerações a respeito das lesões traumato-ortopédicas e sobre a conduta de quem irá socorrer e os cuidados iniciais com o acidentado.
Considerações Gerais sobre Lesões Traumato-Ortopédicas: Na maioria dos casos a conduta final mais importante é a imobilização da parte afetada. A imobilização é, muitas vezes, suficiente para aliviar a dor e estabelecer condições favoráveis à cura da lesão.
Conduta de quem prestará os primeiros socorros: a atitude inicial do acidentado e das pessoas que prestarão os primeiros socorros pode representar, muitas vezes, um fator importante, determinando a evolução posterior do traumatismo. Toda a delicadeza é pouca. Manobras desorientadas e descontroladas provocam a laceração de partes moles e até mesmo, perfurações da pele, o que transforma uma fratura fechada em aberta (exposta), de prognóstico muito pior.
Um acidentado de queda, por exemplo, sofre fratura da perna. O traumatismo produz simples descontinuidade do esqueleto, sem maiores consequências para o eixo do membro atingido, nem para as partes moles vizinhas. O deslocamento inadequado do acidentado; sua movimentação precipitada; a falta de uma avaliação correta do caso; e outras atitudes descuidadas podem provocar lesões graves do tipo:
- Desvio da fratura
- Deslocamento do periósteo
- Lesão do músculo
- Penetração do osso através do foco de fratura
- Perfuração da pele
- Laceração de vaso sanguíneo
- Hemorragia
- Fratura exposta
- Alto risco de infecção
Todo acidentado de lesão traumato-ortopédica necessita obrigatoriamente de atendimento médico especializado. O sofrimento do acidentado e sua cura dependem basicamente, da proteção correta do membro atingido, do transporte adequado do acidentado e do atendimento especializado imediato.
Outros fatores importantes que devem ser permanentemente lembrados são o estado geral e as condições das vias aéreas superiores do acidentado.
Nos casos de alteração da consciência o acidentado tende a aspirar secreções, sangue e vômito. Precisamos ficar atentos para a necessidade de limpar rapidamente a boca do acidentado, apoiar a cabeça lateralizada e, às vezes, fazer uma suave tração da língua.
Nos casos de fratura exposta, pode ocorrer hemorragia. Será preciso contê-la.
Para a profilaxia do estado de choque é importante a contenção da hemorragia. O acidentado deve ser protegida contra frio, coberta com peças de roupa, mobilizada o menos possível e mantida em decúbito.
A proteção da parte atingida assume grande importância. Antes de considerar o transporte do acidentado, a região atingida deve sempre ser imobilizada com a utilização de qualquer material disponível para improvisação como almofadas, travesseiros, ou peças de papelão, papel grosso, madeira; as articulações podem ser protegidas por almofadas.
Algumas sugestões para imobilização serão dadas a seguir, nos procedimentos de primeiros socorros nos casos mais comuns de entorse, luxação e fratura.
Entorses e Luxações: São lesões dos ligamentos das articulações, onde estes esticam além de sua amplitude normal rompendo-se. Quando ocorre entorse há uma distensão dos ligamentos, mas não há o deslocamento completo dos ossos da articulação.
As formas graves produzem perda da estabilidade da articulação às vezes acompanhada por luxação.
As causas mais frequentes da entorse são violências como puxões ou rotações, que forçam a articulação. No ambiente de trabalho a entorse pode ocorrer em qualquer ramo de atividade.
Uma entorse geralmente é conhecida por torcedura ou mau jeito.
Os locais onde ocorre mais comumente são as articulações do tornozelo, ombro, joelho, punho e dedos.
Após sofrer uma entorse, o indivíduo sente dor intensa ao redor da articulação atingida, dificuldade de movimentação, que poderá ser maior ou menor conforme a contração muscular ao redor da lesão. Os movimentos articulares cujo exagero provoca a entorse são extremamente dolorosos e esta dor aumentará em qualquer tentativa de se movimentar a articulação afetada.
As distensões são lesões aos músculos ou seus tendões, geralmente são causadas por hiperextensão ou por contrações violentas. Em casos graves pode haver ruptura do tendão.
Primeiros Socorros:
- Aplicar gelo ou compressas frias durante as primeiras 24 horas.
- Após este tempo aplicar compressas mornas.
- Imobilizar o local como nas fraturas. A imobilização deverá ser feita na posição que for mais cômoda para o acidentado.
Antes de enfaixar uma entorse ou distensão, aplicar bolsa de gelo ou compressa de água gelada na região afetada para diminuir o edema e a dor. Caso haja ferida no local da entorse, agir conforme indicado no item referente a ferimentos; cobrir com curativo seco e limpo, antes de imobilizar e enfaixar. Ao enfaixar qualquer membro ou região afetada, deve ser deixada uma parte ou extremidade à mostra para observação da normalidade circulatória. As bandagens devem ser aplicadas com firmeza mas sem apertar, para prevenir insuficiência circulatória.
Luxação: São lesões em que a extremidade de um dos ossos que compõem uma articulação é deslocada de seu lugar. O dano a tecidos moles pode ser muito grave, afetando vasos sanguíneos, nervos e cápsula articular.
São estiramentos mais ou menos violentos, cuja consequência imediata é provocar dor e limitar o movimento da articulação afetada.
Nas luxações ocorre o deslocamento e perda de contato total ou parcial dos ossos que compõe a articulação afetada. Os casos de luxação ocorrem geralmente devido a traumatismos, por golpes indiretos ou movimentos articulares violentos, mas, às vezes uma contração muscular é suficiente para causar a luxação. Dependendo da violência do acidente, poderá ocorrer o rompimento do tecido que cobre a articulação, com exposição do osso.
As articulações mais atingidas são o ombro, cotovelo, articulação dos dedos e mandíbula. Nos ambientes de trabalho a luxação pode se dar em qualquer ramo de atividade, devido a um movimento brusco.
Sinais e Sintomas: Para identificar uma luxação deve-se observar as seguintes características:
- Dor intensa no local afetado (a dor é muito maior que na entorse), geralmente afetando todo o membro cuja articulação foi atingida.
- Edema.
- Impotência funcional.
- Deformidade visível na articulação. Podendo apresentar um encurtamento ou alongamento do membro afetado.
Primeiros Socorros: O tratamento de uma luxação (redução) é atividade exclusiva de pessoal especializado em atendimento a emergências traumato-ortopédicas. Os primeiros socorros limitam-se à aplicação de bolsa de gelo ou compressas frias no local afetado e à imobilização da articulação, preparando o acidentado para o transporte.
A imobilização e enfaixamento das partes afetadas por luxação devem ser feitas da mesma forma que se faz para os casos de entorse. A manipulação das articulações deve ser feita com extremo cuidado e delicadeza, levando-se em consideração, inclusive, a dor intensa que o acidentado estará sentindo.
Nos casos de luxações recidivantes o próprio acidentado, por vezes, já sabe como reduzir a luxação. Neste caso o socorrista deverá auxiliá-lo.
O acidentado deverá ser mantida em repouso, na posição que lhe for mais confortável até a chegada de socorro especializado ou até que possa ser realizado o transporte adequado para atendimento médico.
Fraturas: É uma interrupção na continuidade do osso. Constituem uma emergência traumato-ortopédica que requer boa orientação de atendimento, calma e tranquilidade por parte de quem for socorrer e transporte adequado. Apresentam aparência geralmente deformante devido ao grau de deformação que podem impor à região afetada.
A fratura ocorre quando existe não solução de continuidade de um osso. Ocorre geralmente devido à queda, impacto ou movimento violento com esforço maior que o osso pode suportar.
O envelhecimento e determinadas doenças ósseas (osteoporose) aumentam o risco de fraturas, que podem ocorrer mesmo após traumatismos banais. Estas lesões são chamadas fraturas patológicas.
A fratura pode se dar por ação direta, por exemplo, um pontapé na perna, levando à fratura no local do golpe, ou por ação indireta, por exemplo, a queda em pé de uma altura considerável, ocorrendo fratura da parte inferior da coluna vertebral, isto é, o impacto foi transmitido através dos ossos da perna e bacia até a coluna vertebral. Ainda se pode dar por ação muscular, sendo, neste caso, a contração muscular com força suficiente para causar fratura.
Nos ambientes de trabalho a fratura pode ocorrer devido a quedas e movimentos bruscos do trabalhador, batidas contra objetos, ferramentas, equipamentos, assim como queda dos mesmos sobre o trabalhador; portanto pode ocorrer em qualquer ramo de atividade, ou durante o trajeto residência-trabalho-residência.
A pessoa que for prestar os primeiros socorros deve ser muito hábil na avaliação e decisão da conduta a ser tomada nestes casos. Aqui, a dor do acidentado e as lesões secundárias resultantes do traumatismo são mais graves e perigosas do que nos outros casos de emergências ortopédicas. As sequelas nas fraturas podem ocorrer com maior probabilidade e gravidade. A imobilização deve ser cuidadosa; as lesões secundárias, atendidas com redobrada atenção, e o transporte para atendimento médico só poderá ser feito dentro de padrões rigorosos.
Suspeita-se de fratura ou lesões articulares quando houver:
- Dor intensa no local e que aumente ao menor movimento.
- Edema local.
- Crepitação ao movimentar (som parecido com o amassar de papel).
- Hematoma (rompimento de vasos, com acúmulo de sangue no local) ou equimose (mancha de coloração azulada na pele e que aparece horas após a fratura).
- Paralisia (lesão de nervos).
Antes de descrevermos as condutas básicas do primeiro socorro em fraturas, vamos conhecer os tipos de fraturas mais comuns.
As fraturas podem se classificadas de acordo com sua exteriorização e com a lesão no osso afetado:
Fratura Fechada ou Interna: São as fraturas nas quais os ossos quebrados permanecem no interior do membro sem perfurar a pele. Poderá, entretanto romper um vaso sanguíneo ou cortar um nervo.
Fratura Aberta ou Exposta: São as fraturas em que os ossos quebrados saem do lugar, rompendo a pele e deixando exposta uma de suas partes, que pode ser produzida pelos próprios fragmentos ósseos ou por objetos penetrantes. Este tipo de fratura pode causar infecções.
Fratura em Fissura: São aquelas em que as bordas ósseas ainda estão muito próximas, como se fosse uma rachadura ou fenda.
Fratura em Galho Verde: É a fratura incompleta que atravessa apenas uma parte do osso. São fraturas geralmente com pequeno desvio e que não exigem redução; quando exigem, é feita com o alinhamento do eixo dos ossos. Sua ocorrência mais comum é em crianças e nos antebraços (punho).
Fratura Completa: É a fratura na qual o osso sofre descontinuidade total.
Fratura Cominutiva: É a fratura que ocorre com a quebra do osso em três ou mais fragmentos.
Fratura Impactada: É quando as partes quebradas do osso permanecem comprimidas entre si, interpenetrando-se.
Fratura Espiral: É quando o traço de fratura encontra-se ao redor e através do osso. Estas fraturas são decorrentes de lesões que ocorrem com uma torção.
Fratura Oblíqua: É quando o traço de fratura lesa o osso diagonalmente.
Fratura Transversa: É quando o traço de fratura atravessa o osso numa linha mais ou menos reta.
O indivíduo que sofre uma fratura apresenta dor, que aumenta com o toque ou os movimentos, incapacidade funcional (impossibilidade de fazer movimentos) na região atingida, acentuada impotência funcional da extremidade ou das articulações adjacentes à lesão; inchaço, alteração da cor da área afetada; presença ou não de pulso no membro atingido, pode haver, ainda, fragmentos de ossos expostos e angulação ou curvatura anormal da região afetada. A pessoa que está atendendo não deve esperar deparar com todo este quadro, em todos os casos; encontrando duas destas características, já há uma forte suspeita.
Primeiros Socorros:
- Observar o estado geral do acidentado, procurando lesões mais graves com ferimento e hemorragia.
- Acalmar o acidentado, pois ele fica apreensivo e entra em pânico.
- Ficar atento para prevenir o choque hipovolêmico.
- Controlar eventual hemorragia e cuidar de qualquer ferimento, com curativo, antes de proceder a imobilização do membro afetado.
- Imobilizar o membro, procurando colocá-lo na posição que for menos dolorosa para o acidentado, o mais naturalmente possível. É importante salientar que imobilizar significa tirar os movimentos das juntas acima e abaixo da lesão.
- Trabalhar com muita delicadeza e cuidado. Toda atenção é pouca; os menores erros podem gerar sequelas irreversíveis.
- Usar talas, caso seja necessário. As talas irão auxiliar na sustentação do membro atingido.
As talas têm que ser de tamanho suficiente para ultrapassar as articulações acima e abaixo da fratura.
Para improvisar uma tala pode-se usar qualquer material rígido ou semi-rígido como: tábua, madeira, papelão, revista enrolada ou jornal grosso dobrado.
O membro atingido deve ser acolchoado com panos limpos, camadas de algodão ou gaze, procurando sempre localizar os pontos de pressão e desconforto.
Prender as talas com ataduras ou tiras de pano, apertá-las o suficiente para imobilizar a área, com o devido cuidado para não provocar insuficiência circulatória.
Fixar em pelo menos quatro pontos: acima e abaixo das articulações e acima e abaixo da fratura.
OBS: Sob nenhuma justificativa deve-se tentar recolocar o osso fraturado de volta no seu eixo. As manobras de redução de qualquer tipo de fratura só podem ser feitas por pessoal médico especializado. Ao imobilizar um membro que não pôde voltar ao seu lugar natural, não forçar seu retorno.
A imobilização deve ser feita dentro dos limites do conforto e da dor do acidentado.
- Não deslocar, remover ou transportar o acidentado de fratura, antes de ter a parte afetada imobilizada corretamente. A única exceção a ser feita é para os casos em que o acidentado corre perigo iminente de vida. Mas, mesmo nestes casos, é necessário manter a calma, promover uma rápida e precisa análise da situação, e realizar a remoção provisória com o máximo de cuidado possível, atentando para as partes do acidentado com suspeita de lesões traumato-ortopédicas.
- Providenciar o atendimento especializado o mais rápido possível.
- Fraturas expostas requerem cuidados extra.
- Ficar atento para o controle de hemorragia arterial.
- Não tentar jamais recolocar o osso exposto de volta para o seu lugar.
- Limpar o ferimento provocado pela exposição do osso.
- Colocar um curativo seco e fixá-lo com bandagens.
- Não tocar no osso exposto.
- Manter o acidentado em repouso, tranqüilizando-o, enquanto se procede à imobilização da mesma maneira que se faz para os casos de fratura fechada.
Fraturas de Membro Superior
Braço: Colocar algodão ou pedaços de pano para acolchoar debaixo da axila, em seguida usar talas dos lados externo e interno do braço, com comprimento suficiente para ir até o cotovelo. Fixar com tiras de pano ou atadura.
Fazer uma tipóia para imobilizar o braço com o antebraço flexionado em ângulo reto, e fixá-la junto ao tórax.