O planejamento da obra do Caos a Setealém envolveu três etapas de decisões preliminares. Primeiramente, nos deparamos com o problema da quantidade de parâmetros fornecidos pelo atrator para uma peça de violão solo, para a qual seria necessário extrair valores de alturas e durações. Decidimos que a lista referente ao eixo X seriam as notas e as durações seriam os valores retrógrados da lista X. O mesmo se aplicaria aos eixos Y e Z, gerando potencialmente 3 vozes.
Em seguida, escolhido o valor de 1917 iterações (ano de nascimento de Lorenz), dividimos esse valor em 3 partes de 639 iterações e cruzamos x1 (notas) com x3 (durações). O valor referente ao segundo terço seria utilizado apenas para notas, mantendo o ritmo livre. Em ambos os casos o material gerado beirava os 16 minutos, o que poderia tornar a peça extremamente maçante e cansativa. A escolha por muitas iterações deveu-se ao fato de que um sistema caótico pode apresentar uma maior diferença de valores a longo prazo e, portanto, optamos por não diminuir demasiadamente o número de iterações, o que descaracterizaria o sistema.
Em um terceiro momento, decidimos aumentar o número para 10.000 iterações e “pescar” pontos menores (proporcionais) que poderiam vir de qualquer trecho de qualquer eixo do atrator de Lorenz. Inicialmente tomamos 40 pontos do início e 40 do fim de cada eixo, para notas e durações respectivamente, depois invertemos. Qualquer trecho poderia ser extraído de qualquer eixo e mesclado a critério do compositor, tornando o atrator de Lorenz um fornecedor infindável de repositórios composicionais para qualquer formação instrumental.
Uma vez que o atrator de Lorenz oferece uma grande quantidade de material, especialmente por ser um sistema caótico tridimensional, cabe ao compositor estabelecer parâmetros e definir a utilização dos valores de x, y e z de acordo com seus interesses. Para a peça do Caos a Setealém, escrita para violão solo, definimos que seriam utilizadas três vozes onde as duas mais agudas possuiriam o mesmo ritmo e a mais grave um ritmo independente. A intenção foi gerar um baixo independente ao mesmo tempo em que existissem duas vozes homorrítmicas possibilitando a formação de acordes. Em alguns momentos, a utilização de uma das vozes foi suprimida em função da sonoridade ou viabilidade de se executar as três ao violão.
O atrator de Lorenz foi configurado com os valores padronizados (ρ=28, σ = 10 e β = 2,667) e programado para realizar 10.000 iterações. Tais configurações resultam em um gráfico tridimensional que lembra uma borboleta, como podemos ver na Figura 9. As alturas das camadas agudas foram extraídas da última fatia de 100 valores dos eixos x e y do atrator, ao passo que as durações foram extraídas da primeira fatia de 100 do eixo y. as durações foram formatadas em módulo cinco, fornecendo durações de uma a cinco semicolcheias. Para o baixo foram utilizadas as fatias da mesma região, porém todas referentes ao eixo z. Esse é o material central da peça (comp. 5 - 25), demonstrado na Tabela 2.
Atrator de Lorenz gerado em Python