“Bar por bar, o melhor é aqui!”
23 de janeiro de 2024 – Acadêmicos: Aline Cristina Ambrósio, Francieli Machado Bengozi e Karine Lopes dos Santos.
A construção de Campo Mourão teve vários telespectadores que acompanharam a evolução e transformação da cidade, muitos desses relatos contribuem para a perpetuação da história, são fontes orais de valor inestimável que transmitem não apenas a memória, mas também o respeito pelo passado que se mantém por gerações.
Nesta entrevista, vamos contar com uma personalidade muito conhecida no Município, Luiz Carlos Aristides, mais conhecido como Carlinhos do Bar do Amigos.
Casado há trinta anos e pai de dois filhos, Carlinhos tem uma história de vida dedicada ao comércio local, então iniciado por seu pai. Ao longo dos anos, Carlinhos construiu uma extensa rede de amizades e experiências. Ele concordou em compartilhar suas memórias, oferecendo um vislumbre das histórias fascinantes que acumulou ao longo de sua jornada no comércio.
Então vamos a elas!
Eu acho que sou família, pai de família, amigo e comerciante, iniciei minha vida dentro do comércio e fiquei no comércio. O Comércio faz com que você conheça as pessoas e com o tempo você vai entendendo o comportamento e descobrindo como que esse é, como que aquele é, o que ele gosta. E dentro da minha família não é diferente, você como qualquer outra família você tem, um esse, um aquele. Ninguém pode ser igual, ninguém pode ser. Então eu acho que eu procuro ser agradável, carismático e acima de tudo bondoso. Porque na qual você não ser fraterno você não chega a lugar nenhum, você tem que compartilhar e o que eu acho, conhecimento, se você não tem, você busca, e a partir do momento que você encontra o conhecimento de alguma coisa, você passa para frente, senão não tem sentido nenhum.
"Nossa... meu pai foi o homem da nossa família, da nossa geração. [...] era uma pessoa que andava a cavalo para ouvir notícias de rádio do vizinho, ele contava que tinha de 8/9 anos ele ia de Avencas que é patrimônio de Marília para receber todas as notícias para passar para a família".
Porque meu pai foi um homem assim muito diferente, porque era o mais velho da família. Ele nasceu em Marília/SP e quando ele veio para Campo Mourão já casado com a minha mãe ele trouxe todos os irmãos e as irmãs. E trouxe pai e mãe dele juntos que são meus avós juntos, e se estabeleceram em Peabiru.
Ele era do tipo antigo, pouca risada, mas muito sério, determinado, honesto, trabalhador e ele conduziu a família inteira, tanto irmãos quanto irmã e Deus foi tão bom que ele ficou com o pai e a mãe dele, dentro dessa casa até eles falecerem. Então meu pai, foi um homem assim diferente, eu tenho certeza, com 5 ou 6 anos ele já lia e escrevia, para uma pessoa que nasceu em 22, 29, 30 ele já lia e escrevia, dentro da família ele foi o primeiro. E com 18/19 anos já estava casado, ele casou com a minha mãe ela fez 18 anos e na outra semana minha mãe casou com o meu pai, eles casaram muito novo, porque se casava novo porque casava bem novinho e ele tinha assim, aquele espírito de comerciante de saber das coisas.
Então ele foi um homem que sempre leu e escreveu e procurou jornal, ele procurou informação e como comerciante ele foi da lavoura para o comércio.
Ele que criou o Bar dos Amigos, comprou o terreno, construiu com a mão dele. A gente fala que foi em 63, mas ele veio terminar de construir, porque estava fazendo a construção aos poucos, em 65 foi quando a gente mudou para cá. Os antigos faziam de tudo, ele era pedreiro, carpinteiro, eles eram de tudo, se quisesse água tinha que furar um poço. E aqui não foi diferente, para ter água aqui a primeira coisa que ele fez foi furar um poço. E essa parte para lá toda, o Bar dos Amigos, foi meu pai quem fez. Ele fez o prédio.
O estudioso ele não era. Mas arteiro sem dúvida, fazia parte da gente e eu tinha muitos amigos aqui em volta, quando eu cheguei já com 5/6/7 anos aqui, aqui em volta eu tinha pelo menos uns 14 amigos, as famílias tinham bastantes filhos.
Na verdade, eu só fui nascer em Peabiru. Porque a minha avó, mãe do meu pai foi a parteira de muitos primos e primas. Então eu saia ali do sítio onde meu pai morava, na Vila Roberto Brzezinski, chama-se Alto Alegre, sentido Goioerê e a gente ia lá na casa da vó em Peabiru, minha avó, a mãe do meu pai foi parteira de muitos anos. Porque quando eles vieram de Marília eles ficaram em Peabiru, e o meu pai seguiu com a minha mãe e com os filhos e foi para Alto Alegre, Vila Roberto Brzezinski lá ele comprou um sítio e ficou lá, na época que eu fui nascer foi lá na casa da minha vó, ela era parteira.
O nome do Bar dos amigos, foi que quando ele comprou o terreno e foi contar para os amigos e os caras falou assim, você não tem coragem que colocar um bar lá. Aquilo não tem nada lá, a rodoviária era de madeira lá em cima, não tinha nada, o que você vai fazer lá Toninho. Eu vou colocar lá, e vou fazer comércio e residência, o que eu tenho aqui em Alto Alegre eu vou para lá, fazer isso lá. Aí ele falou vou por um nome diferente vou colocar o nome de Bar dos Amigos.
Nossa Senhora! Eu não me vejo em outro lugar morando. Se falam em loteria não sei o quê... outro dia eu pensei, se eu ganhar na loteria, como vai ser difícil eu sair daqui.
E o Progresso veio e eu fiquei perto de tudo, eu ando 100 metros tem uma farmácia, ando 200 metros tem um pronto socorro, ando 100 metros tem qualquer laboratório, ando 100 metros tem qualquer clínica, se anda 400 metros você tem uma faculdade estadual, gratuita com muitos cursos de nome né. Você na frente você tem um colégio, uma faculdade, ao lado você tem outra faculdade, hoje tá fácil de estudar, se você não tem dinheiro financia, tem muitos cursos para você fazer.
"Quando você mora há muito tempo em um único lugar, você passa a fazer parte desse lugar, não é?!"
A gente ficou, meus primos, a família de Marília, fala como você ficou bem colocado. Passou-se 60 anos, não é um dia. Aí veio circular, vizinhos. Esses dias até encontrei com uns amigos, e eles falaram “Oh Carlinhos, faz 10 ou 15 anos que fui para Londrina, peguei quantas vezes a circular para ir para minha casa em Piquirivaí, depois vim morar em Mamborê aí me formei”.
Eu fui trabalhando com o meu pai, desde os 13 anos no Bar. Nós somos eu meu pai, minha mãe, e minha irmã, Maria Santina sempre ajudava, a minha irmã Rose já era mais nova, aí aconteceu que quando eu estava chegando aos 18 anos em 80, o meu pai já teve problemas de saúde, teve derrame, e a coisa ficou muito difícil para ele, e ele ficou acamado e o Bar ele já não conseguia, mas aí eu tinha a minha mãe, que foi o pé direito de tudo, foi alicerce de tudo, foi a minha mãe que fez uma diferença absurda na família, positiva, tanto para ele, e ela dentro do comércio. E aí eu fiquei, quando ele melhorou de saúde, já estava fazendo 20 anos, eu falei, pai como vai ficar essa situação?! Porque graças a Deus eu tive um grande amigo que me orientou muito e começou a passar esse tipo de coisa. Porque há 40 anos atrás não se ficava pensando nisso, hoje tem gente que não pensa isso, e se meu pai morrer, e se minha mãe morrer, e se acontecer alguma coisa comigo, e ele me chamou e começou a me dar orientação. E eu fui falar com ele, e ele disse: “Vamos resolver isso já. Vamos transferir esse bar para você”. Fizemos aquele processo até ele chegar a aposentadoria e desse momento em diante ele transferiu o bar para mim. Peguei uma coisa andando, peguei um comércio com nome, tradição, mas quando você 18/20 anos você não entende isso, você só quer trabalhar, mais tarde que eu vim perceber o que meu pai tinha me passado. Passou uma vida, uma história. Porque ele por mais que ele estivesse doente, se tinha uma coisa que ele tinha era um pensamento bom, as atitudes dele eram muito corretas, fortes e ele conseguia pensar lá na frente, só que eles não sabia transmitir isso né, mas ele entendeu que na verdade o Carlinhos não estudava, estava terminando o segundo grau, mas eu não tinha aquela vontade de dar sequência no estudo, principalmente, porque ele estava daquele jeito querendo trabalhar, foi aí que ele percebeu e disse que eu ficaria no comércio.
Dentro do bar e foi indo. No bar nós tivemos dois tipos de coisas, os clientes amigos que permaneceram com o tempo, mais os que a gente vai adquirindo é lógico, e os estudantes que apareceram no ano de 98, que até então era colégio supletivo à noite, que foi também de fato muito importante. Comercialmente para mim conseguiu me manter nos anos 80, aí até fui criado com a escola pública de segundo grau, primeiro grau, que é supletivo gratuito e aí deixou de ser supletivo. Que o supletivo aí dentro era pago, aí passou a ter esses órgãos públicos, se eu não engano CEBEJA, criado em 90.
Não, nós nunca tivemos. Os funcionários foram o Sr. Antônio, Dona Rosa, Carlinhos, a minha irmã Santina, quando solteira ajudava, minha irmã Rose. Depois eu namorei e casei com a Sônia, e mesmo antes de casar a Sônia já estava no bar me ajudando.
Sim. Nós nunca tivemos funcionários, nem para fazer uma limpeza, sempre foi nós que se viramos.
Nunca, nunca, nunca. Se teve uma coisa que eu sempre percebi e tive certeza foi o que eu poderia ser, fornecer, o que eu poderia fazer em outra situação em outro local. E uma vez eu ouvi: “bar por bar, aqui é o melhor bar”. Ouvi isso de um amigo que bebia um monte. Mas ele era cara quando fica bêbado fala cada coisa, mais era umas coisas muito interessante. (...) e uma das coisas que ele falava quando bebia muito era que um dia mais tarde, todo mundo teria sua televisão, nada de sentar e assistir a mesma coisa, cada um iria sentar e assistir o que quiser, e eu falava: “vai carregar uma TV nas costas”. Mas não era isso, dizia esse amigo: “alguém vai fazer um jeito de você ver e assistir o que quiser”. (...) Ele morreu logicamente sem conhecer um celular, sem conhecer um carro automático. (...) No bar dos amigos tinha muita gente inteligente demais, dentro do bar certo?! E você sabe que no passado não tinha conhecimento de uma depressão que hoje domina a situação do mundo a doença e essas pessoas descarregavam muito isso em bebidas certo?! Então tivemos fregueses com conhecimento fora do comum, se eles estivessem nos dias de hoje eu acho que procurariam fazer chover, porque eram demais, tinha gente dentro do bar que concertavam qualquer equipamento elétrico de rádio, geladeira, televisão, sem ter pisado numa escola, nós tínhamos gente no bar que não concluiu faculdade nenhuma e falava tudo quanto é língua, nós tínhamos gente no bar que era torneiro mecânico, e fresa que eles trabalharam em porto, em altas construções, então gente muito inteligente, tivemos gente no bar que abria qualquer projeto da construção civil e não precisava de um “a” que executavam qualquer obra.
Começando de amigos que depois se tornou até compadre da gente, mais tarde ainda bem mais tarde largou, separou, a gente acabou dentro do bar falando, talvez até por uma brincadeira: “poxa você ainda está solteira, está na hora de você conhecer fulano”, conhecer e passar a namorar e casar, poxa aí teve muitos casos, tivemos um amigo uma vez que falamos: “aonde você tá indo”, ele: “tô indo numa festa num lugar”, falei: “não te convidaram para ir na festa do fulano”, ele disse: “não vou não”, aí falei: “vai lá”. Acabou indo e lá conheceu uma garota, e namorou e casou, aí me considerava assim, “poxa Carlinhos você é meu padrinho”. Tivemos várias situações dessas. Nós temos ainda cliente, freguês no bar do ano de 73, que frequenta até hoje.
Acho que a maior dificuldade que enfrentei principalmente no meu bar foram as crises econômicas, que foram muito pesadas, esses tempos estava analisando, aí eu falei: “meu Deus como foram pesadas”. A gente chega a esquecer, no que passou nos anos 70 e tinha dois agravantes, que existia inflação o país era governado diferente, com pouca liberdade e mais uma, o desemprego era forte. Então isso traz muito pra dentro de qualquer comércio, você está desempregado, não gasta e quem trabalhava e ganhava pouco, o gasto era muito restrito. Agora nos anos 80 de 84 a 89 mais ou menos, um prazo de uns 5, 6 anos, foi muito difícil, teve muito planos, a inflação era muito violenta, e tudo que os governos faziam, não conseguimos fazer com que o comércio andasse, muita gente desempregada demais, e aí o consumo é muito baixo, você não conseguia dar conta, como eram anos diferentes, também não existia tanto gasto que hoje se tem, porque hoje qualquer coisa que se faz precisa de muito dinheiro, pouco dinheiro você não faz nada, naquele tempo as pessoas, muitas famílias se faziam mesmo só pra comida, então acho que a parte econômica do país era muito difícil, acho que isso daí era um peso muito grande.
Nossa eu acho que a Covid, acho não certeza, a Covid foi um atrapalho violento, me causou medo, a verdade é essa, ansiedade, porque ninguém sabia com o que estava lidando e a gente tem um comércio, você lida com pessoas e para pegar esse vírus e passar é rapidinho né?! A gente foi perdendo vizinhos, amigos, perdi vizinha com 39 anos de idade, na flor da idade com uma saúde tremenda , perdi amigos que jogava bola comigo, meu Deus, pegou covid e não durou 5 dias, então tudo isso assustou, a Covid eu chego a pensar assim que a fé que a gente teve rezando um monte à Deus para que não acontecesse o pior porque na vida não se faz nada sem fé, o ser humano sem fé ele não chega a lugar nenhum, é uma pessoa vazia, independente de religião, você tem que amar a Deus sobre tudo, e a gente, eu fiquei muito assustado nossa... o primeiro ano foi muito pesado, o primeiro ano da covid a gente só aguentou porque a gente é família e mora aqui, comercialmente, desse tipo de comércio que eu tenho com a covid não tinha como aguentar, não se mantém o comércio com o que aconteceu, muitos meses fechados, lockdown, lei seca, aconteceu tudo isso em 2020, então foi muito difícil de lidar, a gente teve amigos que nós recebíamos pelos fundos, eram 3 ou 4, que não podia ser 10, na maior restrição com medo, Nossa Senhora, amigos de dentro da casa da gente, não de dentro do bar, porque comércio é residência, você chega num momento que você não tem mais só clientes, eles passam a fazer parte da nossa família, os problemas deles são problemas nossos, e os nossos são deles, então a gente recebia os amigos pelos fundos 3/4 colocava uma mesa longe aqui outra ali, álcool em gel aqui, se agarramos para passar a ano, o ano de 2021 foi um pouco mais leve, que já houve as vacinas e fomos levando, mas isso com o maior cuidado, mascaras, álcool em gel, longe, pega dinheiro e lava a mão, porque a informação você não tinha, o tratamento não sabia se era esse remédio ou aquele, e você chega num momento que você está arriscando a pegar outro tipo de doença que você não sabe o que é, então foi muito assustador, mas a gente venceu. Acho que um ponto chave foi que a gente estava colocado, estabelecido, família trabalhando, e residência própria, senão esse tipo de comércio não tinha como aguentar esses dois anos.
Eu entendo que o atendimento de coração é diferenciado em qualquer comércio, muitas vezes você vai numa loja de roupa e não retorna porque foi muito mal atendido, então atendimento eu acho pra mim, que é o diferencial em tudo quanto é setor, aquela chamada na economia que eles falam moderna, gente, gestão, não é isso que eles falam hoje é moderno isso, você vai numa loja de uma amiga sua, andou 10 km e foi na loja dela, aí você entra numa loja famosa e fala: “Jesus amado que atendimento”, porquê eu preservo muito isso, você tem atender, mas atender bem, não interessa que tipo de mercadoria, está vendendo, se você não atender bem não vai, porque não é de boniteza que se vive, certo?! Então, você tem que carregar um monte de coisa junto, atendimento, conhecer do produto que você está vendendo, eu acho que isso faz com que você consiga ir. Agora no sentido de eu ter aguentado muito é o seguinte, esses comércios, às vezes, não aguentam, porquê o comércio hoje em qualquer que seja, possui um custo muito violento, muito pesado para você ter qualquer tipo de comércio. O comércio meu de 60 anos é um seguimento de muito tempo na qual eu, na reta final não conseguiria mudar para outra coisa ou fazer uma coisa diferente, que a gente às vezes nem quer mais, mas esses que começaram, eles começaram com pouca experiência, e talvez com bastante dinheiro injetado naquilo na qual nem era do ramo que ele estava suposto a fazer. Se você pegar um comércio antigo, muitos deles não conseguiram passar nem para família porque hoje a família poucos que tocam o comércio de quem tinha e deu sequência, hoje os filhos vão estudar, procurando outras profissões, então eu falo que o Bar dos amigos para comigo e com a Sonia minha esposa.
Tenho certeza que ele para comigo e com minha esposa. Porque os filhos hoje eles praticam outra profissão, foram estudar, querem ser profissionais de uma área e de outra, e comercialmente não entraram no meu comércio, no meu Bar dos Amigos. Então o Bar dos Amigos fica por aqui mesmo, não sei se mais 1 ano, 2 ou três, ou 5 né?! Uma coisa eu falo em particular pra família, lógico que eu vou diminuir, mas pisar no freio nunca! Diminuir a hora de trabalho, é muito bom, eu acho que é uma conquista. Não trabalhar mais 15 horas, apenas 4 horas, está muito bom trabalhar só duas horas está muito bom, mas parar de vez não, você não pode, com alguma coisa você tem que dar sequência, parou perdeu o fio da meada.
Nota da redação:
É inegável que a trajetória comercial, iniciada com o pai do Sr. Carlinhos, assim como a sequência dessas atividades, contribuíram para o advento de memórias afetivas que contam e criam histórias diariamente. Assistir à evolução e transformação da cidade de Campo Mourão é um privilégio para poucos, e nesta entrevista aprendemos que resiliência, trabalho e perseverança fazem parte de uma trajetória de sucesso.
Agradecemos ao Sr. Carlinhos por compartilhar conosco esses insights valiosos e inspiradores sobre sua carreira comercial. Obrigado pela sua participação!