O que conhecemos hoje como município de Campo Mourão, foi um dia território espanhol. O Capitão espanhol Riquelnu, depois de adentrar a mata, saindo de Guairá, encontrou entre os rios Piquiri e Ivaí, um campo aberto cercado por araucárias, que 208 anos depois, seria nomeado pelo Capitão português, Estevão Ribeiro Baião, como “Campos de Mourão” em homenagem ao governador (Santos Júnior, 2018, p.63 apud Wachowicz, 2002). Mas como Campo Mourão foi um dia espanhol?
01 de fevereiro de 2024 - Rafael Kovalik
O território que hoje está a cidade de Campo Mourão, era espanhol, por conta do Tratado de Tordesilhas. Tratado assinado no dia 7 de junho de 1494, por D. João II de Portugal e os Reis Católicos de Castela e Aragão da Espanha, que dividia (por linha imaginaria) a América em duas partes: portuguesa e espanhola.
Hoje, onde se encontra a região sul do Brasil, especificamente, Campo Mourão, pertencia aos espanhóis. Os espanhóis adentraram território para firmar a posse da terra e conter possíveis avanços dos portugueses.
Imagem 1: Tratado de Tordesilhas.
Em fevereiro de 1570, o capitão espanhol Ruy Dias de Melgarejo, fundou uma comunidade a leste da Ciudad Real, onde possivelmente existia minas de ouro. Segundo Probanzas de los servicios de Ruy Diaz Melgarejo, ele com 40 homens e 53 cavalos, fundou a Villa Rica del Espiritu Santo, a 60 léguas de Ciudad Real del Guairá (Parellada, 2009, p.61 apud Cardozo, 1970, p.49).
O objetivo era ocupar o território para aumentar os limites de Tordesilhas. E também escravizar cerca de 200 mil indígenas da região e conseguir acesso ao porto marítimo de Assunção no Atlântico por Paranaguá.
Os espanhóis para controlar os indígenas implantaram um sistema de institucionalização do “regime feudal” chamado encomiendas: comunidades indígenas submetidas a um colono (permanecendo em seu poder duas ou três gerações), por confio do rei, para a proteção e catequização. Em troca o encomendeiro recebia em bens ou dia de trabalho (Parellada, 2009, p.64 apud Haubert, 1990, p. 35). Era uma espécie de escravidão velada, camuflada, uma violência.
Os encomendeiros tinham em suas repartições núcleos nativos (pueblos) ou reduções naturais conduzidas por clérigos. Próximo a Villa Rica, havia Itacuru, Santa Ana, Itupá, Tambo e Cunhanguirá. Os pueblos eram distribuídos por toda Província del Guairá, nas margens dos rios Ivaí, Corumbataí, Piquiri e Tibagi (Parellada, 2009, p.65)
A relação entre Estado espanhol e a igreja sempre muito forte. Através dos textos das “Capitulaciones de la Real Provision de 1526” é relatado os fins espirituais da conquista, e os políticos (Paradella, 2009, p.65 apud Capsdequi, 1997, p.18).
Com isso, no ano de 1609, a pedido do Governador do Paraguai Hernandarias de Saavedra á Felipe III, foi criada a Província Jesuítica do Paraguai, a Companhia de Jesus, com início dos planejamentos das missões no Guairá, buscando a concentração, para efetiva evangelização indígena. O motivo das reduções era a desproporção da população indígena para espanholas, o que significava um perigo aos ibéricos.
De 1609 a 1632, as missões permaneceram ativas, entretanto, sempre com conflitos. Quem incentivou o desenvolvimento das missões, provocou seu fim. Com o desenvolvimento das missões, foi fortalecendo um desentendimento entre colonos espanhóis e os jesuítas. O intenso embate entre espanhóis que procuravam aumentar a mão de obra cativa na extração de erva-mate e os jesuítas que a negavam (Parellada, 2009, p.74). Em vista disso, os colonos afirmavam seu estado de calamidade tinha suas causas nos jesuítas, pelo fato, de muitos índios fugidos das encomiedadas dos villariquenho, estavam se refugiando nas missões jesuítas, ondes os padres estavam protegendo. (Parellada, 2009, p.75).
Paredella descreve:
“O mais detalhado relato sobre Villa Rica del Espiritu Santo no início do século XVII é o Governador do Paraguai, Luís de Céspedes Xeria, descrevendo sua visita ao Guairá em 1628. Xeria enviou uma carta a Felipe IV, na qual destacava a pobreza de Ciudad Real e Villa Rica (Archivo de Íbdias, in Taunay 1925, p 191) [...] havia pouca também pouca abundância de viveres, além de mandioca, só havia laranjas e milho, não tendo nem gado nem ovelhas.” (Paradella, 2009, p.74).
A próxima imagem demonstra como estava o território espanhol, a República del Guairá, com as missões e cidades.
Imagem 2: República del Guaira
Dada realidade, os paulistas aproveitaram do conflito entre jesuítas e colonos espanhóis, para se laçaram no sertão espanhol. Os sertanistas tinham como objetivos: o principal conseguir mão de obra indígena; encontrar pedras preciosas e ouro; aumentar os limites territoriais. O interesse dos portugueses nessa região remonta ao século XVI, ocorrendo capturas de indígenas nesse período, mas somente em 1627, com Raposo Tavares aconteceu a destruição da primeira missão, a de Santo Antônio.
Conhecendo esses fatores, dizimar as reduções seria a maneira mais eficaz, de legitimar a posse da terra e escravizar os indígenas. O desejo dos paulistas de lançar ao sertão, comenta o historiador John M. Monteiro que a “necessidade crônica de mão-de-obra indígena para tocar os empreendimentos agrícolas dos paulistas” (Monteiro, 1994, p.57). Os paulistas começaram a assaltar as missões, porque, lá havia concentrado uma grande quantidade de indígenas. Monteiro comenta:
“Neste sentido, os paulistas passaram a assaltar as reduções não por motivos geopolíticos ou morais - como quer uma vertente da historiografia paulista - mas, simplesmente, porque era justamente nelas que se encontravam números consideráveis de Guaranis” (Monteiro, 1994, p.70).
De missão a missão, as 13 missões foram destruídas, ou abandonadas pelos indígenas e padre jesuítas. Os bandeirantes assolaram o território espanhol, e em 1632, não restava mais nada. Com o território espanhol dizimado, houve então a necessidade de regulamentar a expansão territorial, por causa do avanço dos paulistas, rompeu-se o tratado de Tordesilhas, instituindo novos, o Tratado de Madrid (1750) e Santo Ildefonso (1777)
Ambos asseguram o acordo entre as duas metrópoles e especificamente, segundo Jessica Correa e Paulo Godoy (2013, p.3), o tratado de Madrid era “[...] reconhecer oficialmente os territórios já ocupados por ambas as partes. O tratado tinha por finalidade oficializar as margens fluviais, marítimas e terrestres, definindo os limites dos poderes das Coroas.”. A Espanha reconhecia o direito português sobre o território.
O argumento que legitimava a posse da terra para os portugueses, provinha dos romanos, o princípio de util possidetis, ita possideatis, que afirma que o direito pertence a quem está no local. Podemos observar a linha imaginaria do Tratado de Madrid, de como se comportava no território, estabelecendo o limite na próxima imagem, na cor amarela.
Imagem 3: Tratado de Madrid.
Com o Tratado de Madrid (1750), teremos informações de Villa Rica apenas em 1770, quando o Governador de São Paulo, D. Luis Mourão, enviou uma expedição a comando de Francisco Lopes Silva para reconhecimento. Até então, o território ficou esquecido.
No ano de 1761, conflitos políticos levaram Portugal e Espanha a entrarem em guerra, anulando o tratado. A invasão dos espanhóis crescia cada vez mais, tomado a colônia do Sacramento, e tomando os territórios que hoje se encontra o Estado do Rio Grande do sul e a ilha de Santa Catarina.
Era questão de tempo para os espanhóis chegaram na capitania de São Paulo, e como medida de segurança, foi nomeado Dom Luis Antônio de Souza Botelho Mourão como governador. Medida aplicada com grande sucesso, pois, a tranquilidade foi estabelecida no território e foi contido o avanço espanhol (Santos Junior, 2018, p.65 apud Martins, 1995). Nas imagens seguintes segue, o decreto que nomeia Dom Luis governador e sua imagem.
Imagem 4: Decreto que nomeia D. Luis governador.
Imagem 5: Decreto que nomeia D. Luis governador.
Nesse mesmo período, os paulistas, apresentaram um plano, para o ministro de Dom José I, o Marques de Pombal, para a colonização do sertão do Tibagi. Proposta que foi aceita, com uma cláusula: ficaria a cargo do governador Dom Luís de não deixar os paulistas descobrirem as minas de ouro do sertão. O principal interesse, era a legitimação da posse da terra, via paulistas, porque acreditavam que as Missões do Jesuítas do Rio Uruguai, estivessem próximas do limite de Madrid, prestes a romper.
Entretanto, o acordo não prosperou. Com os impedimentos de os paulistas de não ficarem com as riquezas que encontrassem e de não escravizarem os indígenas, logo o acordo encerrou.
Era necessário encontrar uma outra forma de firmar a posse da terra, e Morgado de Mateus (como era conhecido também, D. Luis), encontrou uma forma: convencer os soldados da capitania e conquistar o sertão de Tibagi. Para inauguração da alternativa, Dom Luis, envio seu primo, Afonso Botelho de São Payo e Souza, que era coronel.
Afonso obteve sucesso. No intervalo dos anos de 1768 a 1774 foram concretizadas onzes expedições militares de conquista, que seguiam pelos rios. Os soldados, para expedição eram convocados de Paranaguá, Iguape e Cananéia, que possuíam habilidades nas embarcações, o que felicitava o reconhecimento das matas e a descoberta dos campos.
A primeira expedição (a segunda de Botelho), saiu do porto de São Bento no rio Tibagi no dia 20 de junho de 1769. O comandante era o Capitão de Auxiliares, Estevão Ribeiro Baião, da freguesia de São José dos Pinhais. A expedição era composta por sete canoas, 75 homens matriculados de Curitiba e dos Campos Gerais. Havia tambem o reverendo Frei Antônio de Santa Tereza do Espírito Santo, religioso de São Bento.
A expedição andou perdida até o final de novembro, quando encontrou o rio Ivaí, que rebatizaram de “Rio Dom Luís”, (mais a frente será explicada o motivo do nome das descobertas) a partir, começaram a percorrer, até, alcançarem a margem de outra grande afluente, que nomearam de Rio Mourão. Próximo ao rio, existia uma quantidade expressiva de arvores frutíferas, resquícios da antiga província espanhola Del Guairá.
A navegação permaneceu no curso do Ivaí, após adentraram o rio Paraná, e direcionando sentido sul avistaram as “Setas Quedas”, no dia 6 de janeiro de 1769. Após, a expedição subiu novamente o rio Paraná e entrou a direita, por seu afluente, o Iguatemi e alçou a Praça de Nossa Senhora dos Prazeres, onde se encontravam os paulistas.
Neste percurso a expedição se deparou com um imenso campo que foi batizado como “Campos do Mourão” em homenagem ao governador Dom Luís. Campo que é hoje a cidade de Campo Mourão. Afonso Botelho, a caminho de Curitiba, trouxe consigo a ordem de registrar as novas descobertas com o nome do Governador D. Luis. Após, informou a ordem ao capitão da expedição que colocou em prática.
Capitão Baião teve seu fim trágico, ficou enfermo e acabou falecendo em sua casa. A expedição foi conduzida ao fim por Francisco Lopes da Silva, que encontrou as ruinas de Villa Rica del Espiritu Santo em 10 de março de 1770, às margens do rio Ivaí, hoje arredores de município de Fênix. Lopes da Silva providencio o necessário para a subsistência, com o plantio de roças, e encontrou de uma quantidade expressiva de arvores que produzem frutos.
Em 1774, o território do futuro estado do Paraná foi reconhecido, e firmado sua posse. E assim, foi descoberto “Os Campos de Mourão”. Um dia nossa cidade foi colônia espanhola, e depois de inúmeros conflitos, expedições, no ano 1769, foi visto o enorme campo aberto, que foi nomeado com o nome do governador, e hoje, 254 anos depois, é nossa casa.
Referências bibliográficas
SANTOS JÚNIOR, Jair Elias dos. A descoberta dos “Campos do Mourão”. In: SANTOS JÚNIOR, Jair Elias dos. Campo Mourão: a construção de uma cidade. Campo Mourão: Midiograf, 2018, p.63-72.
PARELLADA, Claúdia Inês. O Paraná Espanhol: Cidades e missões jesuíticas no Guairá. In: ARANTES, A. I. dos Brasil; PARELLADA, C. I. et al. Missões: conquistando almas e territórios. Curitiba: Cultura, 2009, p. 59-81.
MONTEIRO, John Manuel. O sertanismo e a criação de uma força de trabalho. In: MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra: Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das letras, 1994, p.57-91.
-------------------------------------------------------------