Zeneide Sarmento Pereira, nasceu no dia 20 de agosto de 1959 em uma fazenda que hoje pertence a terra indígena Raposa Serra do Sol e que, atualmente, faz parte do município de Normandia, estado de Roraima.
A infância de Zeneide se passou totalmente no interior da fazenda, no meio dos animais, bebendo leite tirado direto das vacas e tomando banho nos igarapés. Seus pais, indígenas assim como ela e seus cinco irmãos, trabalhavam na fazenda e assim, tanto a infância quanto a adolescência de Zeneide foi nesse mundo calmo e de trabalho puxado. Das lembranças que ela guarda da infância e da adolescência, está o fato de que a locomoção dos municípios para Boa Vista tinha que ser feita por meio aéreo, pois, naquele tempo (década de 1960), não existiam as estradas que ligavam uma cidade a outra. Segundo Zeneide, era a Força Aérea Brasileira que fazia a ligação dos municípios no transporte aéreo. A viagem, geralmente uma vez por semana, pegava pessoas em Normandia, Bonfim, Pacaraima, Uiramutã, Amajari e outros locais com destino final em Boa Vista. Assim, a pessoa passava o dia todo viajando e, quando Zeneide tinha que vir pra capital, chegava morta de cansaço da viagem longa que durava um dia inteiro.
Em Normandia, na época de escola de Zeneide, quase que só tinha quarteis. As pessoas que davam aula para a menina e seus colegas eram em sua maioria homens militares, mas, também haviam as mulheres (geralmente esposas desses militares). Os militares que estavam a serviço das Forças Armadas na cidade eram, em sua maioria, de outros estados do Brasil e se encarregavam da organização do espaço assim como da escola local. Zeneide admirava muito suas professoras, se identificava com elas e, aos 12 anos, decidiu que queria ser professora também. Uma dificuldade que Zeneide enfrentou nesse período foi que não haviam escolas do ginásio (na época era assim que denominavam o ensino fundamental II) tendo ela que esperar até que a escola fosse inaugurada em Normandia o que acabou atrasando sua vida escolar.
O ginásio chegou e Zeneide começou a frequentar. Ela foi destaque na sala de aula de tanto que gostava de estudar e aprender. Por conta desse destaque, foi convidada por uma professora para ajudar’ no processo de alfabetização tanto de crianças quanto de jovens e adultos. Assim, aos 16 anos, em 1975, Zeneide já estava atuando como professora mesmo fazendo a quinta série ainda. Para ela foi um desafio e uma alegria esse convite pois, ela não tinha formação específica para o magistério assim como estava realizando um sonho de ser professora. As professoras da época, ajudaram-na para que se desenvolvesse na área: em horário oposto ao do trabalho, elas trabalhavam com ela no planejamento, nos conteúdos e atividades. Ela lembra que um rapaz, de 18 anos, um dia lhe chamou para agradecer por ela ter ensinado a ele, escrever seu nome pois, o mesmo, iria servir as forças armadas e precisava saber escrever o próprio nome.
A dificuldade para continuar estudando em Normandia (que naquele tempo não tinha ainda todas as etapas da educação básica) fez com que Zeneide pedisse aos pais para ir estudar em um internato na região do Surumu (próximo do município do Uiramutã) pois havia sido convidada devido a ser uma boa aluna. A mãe dela, no entanto, não permitiu sua mudança porque tinha medo que acontecesse algum coisa ruim com a filha. Segundo Zeneide, a década era 1970 e os costumes eram bastante rígidos principalmente com as filhas mulheres (medo de gravidez, namoros sem futuro, etc,) sem contar que os filhos obedeciam aos pais e se esses dissessem não, era mesmo não e não havia o que discutir. Por mais que ela não tenha gostado da resposta dos pais, Zeneide se conformou e, quando completou 18 anos, pediu para vir pra Boa Vista estudar o segundo grau. Foi aí que a mãe dela a surpreendeu, autorizando sua vinda pois, a filha havia provado que era digna de confiança.
Na década de 1980, Zeneide passou a frequentar a escola Gonçalves Dias. Em Boa Vista, recebeu um convite das irmãs do Convento Nossa Senhora da Consolata onde permaneceu por 12 anos. Zeneide foi consagrada pelos votos de pobreza e castidade e se tornou freira. Porém, após 12 anos, Zeneide decidiu repensar sua vida fora da congregação e foi para São Paulo lá ficando por seis meses. Durante o período em que foi freira, ela permaneceu professora trabalhando na escola técnica e na agro técnica onde eram as irmãs que dirigiam.
Nos anos 1990, Zeneide entrou para faculdade de História na UFRR, se formou e fez especialização na UFMG. Ela tem mestrado e doutorado em História Social na UFRJ e atualmente dá aula de História na Escola Estadual Gonçalves Dias, local onde ela estudou quando mais jovem. Sobre a época da graduação, ela lembra que foi um período em que a questão indígena estava bastante em alta devido a demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol e naquela época, havia um certo acirramento nas discussões sobre a identidade indígena. Ela não considera que tenha vivido algum tipo de preconceito por ser mulher e indígena, mas, viu, nos anos 1990, uma certa dificuldade na aceitação do indígena nas salas de aula porque o indígena ainda era visto através dos estereótipos de que deveria ficar na aldeia, por exemplo.
Ao deixar o hábito religioso, Zeneide se casou e teve uma filha que hoje mora no Rio de Janeiro. Sobre essa questão da família que construiu, ela diz que o marido sempre foi parceiro dividindo as tarefas domésticas assim como os cuidados com a filha. Zeneide fez graduação, especialização, mestrado e doutorado sendo esses três, fora de Roraima. Quando viajava para longe para estudar, o marido que ficava responsável pelos cuidados com a filha do casal, cuidava da casa e das atividades domésticas mesmo quando ela estava na cidade. Ele sempre deu muita força para ela estudar e conseguir alcançar seus objetivos profissionais por isso, segundo ela, foi sempre um parceiro de valor. Desse modo, ela considera que não teve tantas dificuldades em conciliar a maternidade, vida pessoal com a profissional sendo muito feliz no casamento e na vida em família.
A maior influencia de Zeneide foi e é sua mãe. Ela diz que a mãe sempre foi um exemplo de sabedoria, de tratamento com os outros além de ter sido uma mulher que sempre trabalhou apesar de não ter tido estudo. Sendo uma mulher que desde cedo teve que batalhar e dar duro na vida, ela ensinou os filhos a ver o trabalho como algo que enobrece e não criou os filhos sem que os mesmos aprendessem a trabalhar e se virar sozinhos. A mãe de Zeneide tem 85 anos atualmente e ela, junto com os irmãos, cuidam da mãe dando todo carinho que a mãe sempre lhes dispensou e ainda dispensa.
Tendo uma grande experiencia de vida, Zeneide acredita que as mulheres devem lutar pelos seus objetivos, não desistir daquilo que querem porque é possível realizar. O maior poder que as mulheres tem, é de gerarem vida e, isso, para ela, é magnifico, divino, uma coisa que só as mulheres podem. Se elas podem gerar vida, então podem fazer qualquer coisa. As mulheres devem acreditar que tem capacidade de serem aquilo que quiserem ser.
Escrito por Larissa Santos, Juliane Costa e Micheel Anabela Abache La Rosa
Orientadora: Rutemara Florencio