Valdeane Alves de Oliveira nasceu no dia 30 de novembro de 1981 na cidade de Vitorino Freire, estado do Maranhão sendo a oitava filha de Dona Isabel. De família pobre, Valdeane sempre teve como inspiração sua mãe que lutava diariamente para criar os filhos, praticamente sozinha porque o marido havia deixado ela e as crianças com a desculpa de ter que ir pra um garimpo. A situação então, não era das melhores, porém, mesmo em situação financeira desfavorável, Valdeane teve uma infância feliz ao lado dos irmãos relembrando que brincou muito e foi conformada com aquilo que podia ter. Sua mãe, desde cedo, incentivou os filhos a estudar pois, sempre dizia que era o caminho do estudo que daria um futuro melhor a cada um deles. Dona Isabel era muito enérgica em matéria de cuidar da vida escolar dos filhos. Valdeane tinha os cadernos revistados todos os dias pela mãe que cobrava a filha com relação a lição e atividades que a professora passava: Dona Isabel passava os olhos pelas folhas do caderno observando se estava tudo bem escrito e feito.
Valdeane sempre foi uma boa aluna, mantendo tudo em ordem pois, a mãe não se deixava enganar e caso encontrasse alguma coisa diferente daquilo que desejava, o negócio ficava feio. Obedecer a mãe sempre foi um hábito da filha Valdeane, mas, ela não sabia que, apesar de Dona Isabel cuidar pessoalmente dos estudos e dos cadernos dos filhos, a mãe não sabia ler. Anos mais tarde, já uma adolescente, foi que Valdeane descobriu o fato e deu ainda mais valor ao que a mãe fazia por ela e os irmãos exigindo que estudassem e fossem ótimos alunos na escola. Ela entendeu que a mãe queria para os filhos aquilo que ela mesma não havia tido além de considerar que estudando, os filhos iriam conseguir uma vida melhor que a dela. Dona Isabel, para Valdeane, foi e é o modelo de mulher a ser seguido porque mesmo com uma vida muito difícil, ela ensinou os filhos a serem bons, a terem princípios e valores morais sempre respeitando o próximo, sendo honestos e trabalhadores.
Em 1988, a Assembleia Nacional Constituinte transformou o então território federal de Roraima em Estado autônomo. A nova situação exigiu que o agora estado passasse a organizar o aparato burocrático institucional nas áreas de educação, saúde e segurança pública além dos outros mecanismos que compõem o Estado como um todo. Desse modo, ao longo do tempo foram sendo organizados os quadros do funcionalismo público estadual através de concursos. Ao longo da década de 1990, muitos migrantes chegaram em Roraima (para se juntar a aqueles que aqui já se encontravam) em busca de oportunidades de trabalho, ou melhor, fazer concurso. Valdeane chegou a Roraima junto com a família em 1995, aos 14 anos e foi no estado que terminou o ensino médio tendo então 18 anos. Seu sonho era cursar a faculdade de Direito para ser advogada ou juíza. Porém, a situação financeira não lhe permitia se dedicar apenas aos estudos por um longo período pois ela tinha que arrumar um emprego ou um trabalho mais duradouro. Assim, ela decidiu estudar para fazer os concursos públicos aproveitando a oportunidade em Roraima onde vagas estavam sendo ofertadas tanto no nível estadual quanto no federal.
Valdeane iniciou sua vida de concursos fazendo prova para Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Tribunal de Justiça, entre outros. No ano de 2000, fez concurso também para Policia Militar postulante ao cargo de soldado. Nessa questão, um de seus irmãos, que já era policial militar de Roraima, foi um incentivo a mais além de referência profissional para ela na área militar. Feito o concurso, veio o resultado positivo: agora Valdeane Alves de Oliveira iria se tornar policial militar sendo essa sua primeira atividade profissional. Se por um lado, Valdeane estava ingressando em seu primeiro emprego, ela também encabeçava um pioneirismo com relação a entrada de mulheres dentro da corporação da PM em Roraima que até então não as admitia em seus quadros.
Até o ano de 2000, somente homens faziam parte da Policia Militar em Roraima o que fazia da corporação, um grupo totalmente masculino. Com o primeiro concurso abrindo as portas para as mulheres, uma nova situação estava sendo criada: como tratar as mulheres em uma corporação voltada estritamente aos hábitos masculinos? Valdeane, que vivenciou esse momento histórico dentro da corporação, relembra que não havia preparo institucional ou de infraestrutura para atender as mulheres que ingressaram, juntamente com ela, na corporação. Ela relata que os homens policiais não sabiam como lidar com elas, onde as colocar pra trabalhar, enfim, havia receio por parte do comando em coloca-las até mesmo dentro das viaturas por considera-las frágeis demais ou sem capacidade suficiente para lidar com situações de violência ou conflito eminentes. Sendo assim, Valdeane e as colegas daquela época passaram por dificuldades de adaptação assim como seus colegas homens devido a mudança de paradigma dentro da corporação.
Ao entrar para corporação, fazer o curso de soldado e já estar nas ruas policiando, Valdeane teve nova oportunidade já no ano seguinte que foi o concurso para oficiais da policia militar. Ela novamente se pôs a estudar e passou no concurso. Desta feita, ela deixaria a função de soldado e faria o curso de formação de oficiais os quais compõem o quadro principal na hierarquia militar: aspirante a oficial, segundo tenente, primeiro tenente, capitão, major, tenente coronel e por último, coronel. Valdeane então, se mudou para Brasilia que era o local onde se fazia o curso de formação de oficiais (CFO) uma vez que em Roraima daquela época, a polícia militar ainda não dispunha de uma Academia de Polícia destinada a formar o quadro de oficiais militares. Aqui vale uma nota: atualmente a PM de Roraima já dispõe de uma academia não sendo necessário que seus oficiais saiam do estado para serem formados.
Durante três anos, Valdeane e a mãe, D. Isabel, moraram em Brasilia, DF com a finalidade de estudar. Passado esse tempo, voltaram para Roraima e Valdeane agora era aspirante a oficial, cargo esse que coloca a pessoa 06 meses em um certo estágio probatório. Após passar no estágio probatório, ela foi promovida a segunda Tenente onde ficou por 02 anos vindo agora a promoção para primeira Tenente, tendo ficado nesse ponto por 03 anos. Durante as promoções, o trabalho da oficial Valdeane era o mesmo que o dos homens: comandando operações, batalhões, andando na viatura, autuando a bandidagem, fazendo o trabalho ostensivo nas ruas e cuidando da segurança da população: não era por ser mulher que o trabalho que ela desempenhava, assim como as companheiras policiais, era mais fácil que o dos homens. Na continuidade do trabalho diário de policial, vieram as outras promoções: Capitã, depois Major e atualmente, Tenente Coronel, sendo Valdeane a primeira mulher policial militar a chegar nesse grau hierárquico dentro da corporação. Possivelmente ela também será a primeira mulher Coronel da polícia militar em Roraima... um feito histórico.
Inicialmente, havia o questionamento sobre sua ação de comando porque, ao ser oficial da polícia militar, o homem ou a mulher é formado para ocupar o posto de comando e liderar pelotões em todo tipo de ações voltados a segurança. Sendo ela mulher, das primeiras oficiais, ela percebeu a desconfiança no meio da corporação sobre sua capacidade de liderar, exercer a autoridade e comandar centenas de soldados, porém, foi com o trabalho que desenvolveu e continua a desenvolver que ela mostrou capacidade em desempenhar adequadamente suas tarefas. Ao trabalhar no primeiro batalhão como subcomandante, ela tinha 120 policiais sobre seu comando e esse é só um exemplo para tantos outros postos que Valdeane vem ocupando dentro da corporação.
Valdeane considera que sua trajetória foi um tanto difícil, porque ela juntamente com outras mulheres, foram as primeiras a entrar pra Policia Militar ao mesmo tempo que abriram caminhos para que outras mulheres também ingressassem na carreira. Como policial militar, ela considera que os preconceitos existentes dentro da profissão que ocupa são relativos ao fato de que a polícia militar é uma corporação masculinizada historicamente sendo recente, portanto, a chegada das mulheres. Nesse sentido, há uma dificuldade por parte de alguns em receber ordens de uma mulher justamente por não entenderem que no exercício profissional não há diferenças. No entanto, através dela e suas companheiras militares, a sociedade e os homens militares perceberam que as mulheres podem muito bem desempenhar as funções e ações que eles praticam relacionados a postura e comprometimento da corporação não sendo o sexo biológico, motivo de diferenciação quanto a competência ou profissionalismo.
Depois de ter trabalhado na rua comandando Batalhão de Trânsito, Polícia Comunitária assim como diversos batalhões por toda cidade de Boa Vista, Valdeane foi convidada no início de 2015 a fazer parte da Casa Militar, que existe para tratar da segurança do governo estadual. Nesse caso, ela se tornou Ajudante de Ordem da ex-governadora Sueli Campos, que logo depois lhe designou para ser secretária adjunta da casa militar, posto esse de suma importância na instituição governamental e onde, pela primeira vez, uma mulher é conduzida a ocupar.
Em 2009, Valdeane conheceu aquele que viria a ser seu marido em 2013: Jânio, um gaúcho morador de Roraima a muitos anos. O casal tem uma filha, Isadora, com 5 anos e o bebe Lorenzo, de um ano de idade. Tendo Valdeane tantas atribuições profissionais atualmente é Jânio que se responsabiliza pela vida doméstica cuidando dos filhos e tomando conta das atribuições de casa. Por desempenhar uma atividade econômica que lhe permite ter horários flexíveis, é o marido que dá o suporte necessário aos filhos do casal sendo que, segundo Valdeane, o bebe Lorenzo as vezes nem reconhece a mãe pois, é o pai que está sempre presente no dia-a-dia. No entanto, quando ela tem tempo livre, procura destinar esse tempo à família saindo para passear com os filhos, com Jânio e dando atenção a sua mãe que já é idosa. Valdeane destaca que o papel de Jânio como marido tem lhe ajudado muito pois é compreensivo é realmente um companheiro que lhe dá tranquilidade para estar sempre ativa na profissão.
Valdeane considera que a luta da mulher pela conquista de espaços foi feita com muita luta e determinação e acha que não se pode recuar em relação aos direitos conquistados. Ela considera que as mulheres têm características diferentes dos homens, porém essas características, como o fato de conseguirem fazer muitas coisas ao mesmo tempo, fazem da mulher uma pessoa com grande capacidade e só melhoram os resultados das ações que essas desempenham. Ela diz que atualmente, no século XXI, as mulheres têm ocupado altos cargos como presidente da república, governo de estado, STF, entre outros, mostrando que é possível chegar onde historicamente, apenas homens chegavam. Nesse sentido, ela também está fazendo história.
Escrito por: Hizabela Martinha, Sabrina Oliveira e Karolyne em 25/11/2018
Orientadora: Rutemara Florêncio