Tânia Maria Brandão Vasconcelos nasceu no dia 26 de novembro de 1963 na cidade de Boa Vista. Filha de Pedro de Sousa Vasconcelos e Orlandina Brandão Vasconcelos, a hoje presidente do TRE pela segunda vez, teve uma infância feliz brincando nas ruas da cidade de Boa Vista – ruas essas que não eram asfaltadas naquela época. Ela lembra que haviam muitos parquinhos na região onde ela e a família viviam, perto da Igreja Católica Matriz e região do Centro Cívico. Como criança, Tânia gostava de andar de bicicleta e relembra que andou pela cidade toda com a sua. Ela brincava com os amigos e irmãos de pega-pega, 31 alerta, amarelinha e também gostava de praticar esportes: foi ginasta e ganhou muitas medalhas e certificados pelas participações em eventos esportivos.
Em se tratando da escolarização, Tânia frequentou escolas públicas iniciando no Jardim da infância Princesa Isabel. Ao ter idade para iniciar o primeiro grau (hoje ensino fundamental) foi para o Grupo Escolar São José. Terminada essa fase, ela foi para Escola Gonçalves Dias, escola onde fez o segundo grau, finalizando assim a educação básica. Tânia destaca como algo importante da época em que era aluna das escolas públicas, o fato de as escolas engajarem os alunos na prática de atividades físicas e eventos escolares. Para ela como aluna, a época dos jogos escolares (de 07 a 13 de setembro) era muito esperada pois havia dedicação dos alunos para participar da melhor forma possível. Ela considera que esse amor que havia pelas atividades escolares, era advindo da própria escola que incentivava nos alunos a responsabilidade, a motivação para que tudo o que fizessem fosse o melhor. Tânia considera que a época de escola foi uma das melhores de sua vida. Seus pais sempre deram aos filhos a oportunidade e os meios para estudar, incentivando todos a se dedicarem aos estudos e, isso, Tânia considera como algo muito importante em sua vida.
Em 1980, quando Tânia tinha 17 anos e ainda não tinha terminado o segundo grau, o pai dela faleceu. Era costume, na época, os pais terem grande influência na decisão dos filhos em seguir uma carreira profissional e com Tânia, não foi diferente. A irmã mais velha de Tânia naquela época, era médica, outra era alta funcionária de um banco e o irmão estava estudando engenharia em Manaus. Tânia, como a mais nova, ainda estava pra iniciar os estudos superiores e não sabia exatamente a carreira que iria seguir. Foi aí que entrou em cena sua mãe que, viúva, precisava de um advogado na família pois, proprietária de algumas casas de aluguel, tinha medo de ser enganada por um espertalhão ou coisa parecida. Sendo assim, ela disse pra Tânia que escolhesse o curso de Direito o que garantiria a ela proteção em seus interesses já que, nessa área o profissional tem que conhecer as leis. No início da década de 1980, o então território federal de Roraima ainda não tinha curso superior ou faculdade o que obrigou Tânia e seus irmãos a se mudarem para Manaus, local onde Tânia prestou vestibular e cursou a faculdade de Direito.
Já cursando a faculdade de Direito e indo muito bem, Tânia decidiu se casar aos 21 anos com um rapaz, também estudante e com a mesma idade. Ela considera que foi precipitada essa decisão porque o casamento aliado a dedicação aos estudos acumulou grandes responsabilidades para uma mulher que ainda estava saindo da fase adolescente. Além do mais, logo ela se tornou mãe e isso triplicou suas responsabilidades pessoais. No entanto, ela teve o apoio incondicional de sua mãe que sempre esteve ao seu lado para ampara-la, ajudando-a de todas as maneiras. Tânia considera que o papel de sua mãe, Orlandina, foi decisivo na construção do caminho profissional que ela ainda começava pois, sem esse apoio tudo seria mais complicado. Estando casada, com filho pequeno e estudando, era muito difícil para Tânia trabalhar fora de casa, porém, mesmo assim ela trabalhou como professora de OSPB e Educação Moral e Cívica no Colégio Brasileiro em Manaus, durante um ano.
Tânia terminou a faculdade de Direito em 1987. Como as coisas ainda estavam meio indefinidas em sua vida, Tânia objetivou que até os seus 30 anos de idade, ela teria que ter sua carreira profissional consolidada, queria vencer na vida as custas de seu trabalho e profissão. Tomada a decisão, ela passou a estudar com afinco para ingressar no serviço público através de concursos. Sua trajetória da época envolveu estudos e concursos sendo a mesma aprovada como procuradora do INCRA e, também aprovada para Promotora de Justiça do estado do Amazonas. Aos 24 anos, Tânia se tornou promotora de Justiça no Amazonas fazendo parte do Ministério Público. Naquela época, ela ainda não via o seu papel como importante no judiciário e atribui isso a pouca idade que tinha. No entanto, considera que a carreira profissional se iniciou ali assim como sua conscientização da importância de seu papel como promotora de justiça. Talvez pela pouca idade, ela não se impunha no local de trabalho só tendo essa percepção depois de que um outro promotor disse que ela era tão importante no sistema quanto qualquer outro promotor mesmo que esse, estivesse ali a vários anos. Tânia também diz que teve um colega que, usando de sua inexperiência, passava o trabalho dele pra ela fazer e ela tinha que fazer o dela e o dele. Novamente, o promotor que havia dito pra ela que eles eram iguais, lhe avisou que ela não era estagiária ali e sim a promotora e que ela não tinha que fazer o serviço de outros colegas mas, somente o dela.
Os aprendizados que Tânia vivenciou nesse primeiro local de trabalho, ela destaca como importantíssimos pois lhe deram a percepção de que ela era uma mulher exercendo um cargo importante e que deveria ter uma atitude condizente com a sua condição. Os homens de seu ambiente de trabalho lhe ensinaram muito tanto em como deveria se olhar quanto sobre o que não ser ou fazer. Em qualquer situação, o que se tirava do fato era o aprendizado: tudo era uma lição. Além de ter trabalhado em Manaus, ela trabalhou no município de Novo Airão, local esse que só se chegava de barco. Ela conta que em uma dessas voltas desse município, o Prático, do barco onde ela estava, dormiu no leme e com isso, o barco enveredou para o barranco. Nesse momento, Tânia pensou que iria morrer pois era madrugada, estava tudo escuro e o barco poderia naufragar com o impacto do barco no barranco. Felizmente, Tânia observou que a velocidade do barco foi diminuindo o que facilitou a parada do mesmo sem que houvesse danos na estrutura. Depois dessa ela quis desistir de ir pra esse município, porém, tomou a decisão de enfrentar o medo de voltar a estar em uma embarcação novamente. Na última vez que teve que estar em Novo Airão, ela foi e voltou ao lado do Prático para garantir que ele não iria dormir segurando o leme. Esse é um dos desafios que ela nunca esqueceu e que esteve relacionado ao exercício de sua profissão.
A Promotora de Justiça Tânia, de forma alguma parou de estudar. Ela sempre considerou que para ser excelente em sua carreira, era necessário nunca parar de estudar. Ela diz que sem esforço a pessoa não vai conseguir nada, tem que lutar pelo que se quer. Foi assim que, após Roraima ter se tornado um Estado da Federação Brasileira (1988), Tânia decidiu fazer concursos que estavam abertos no poder judiciário local. Ela desejava voltar para sua terra natal e, para isso, tinha que estar empregada. Assim, ela fez um novo concurso sendo aprovada. Dessa forma, Tânia se tornou a primeira mulher a ocupar um cargo na magistratura – de juíza- em Roraima em novembro de 1991.
Tânia trabalhou em diversos municípios do estado de Roraima, empenhada nas varas de Família, nos juizados onde ela destaca o da justiça itinerante, que desde 2002, se tornou uma realidade em Roraima. Ela considera esse tipo de ação judiciária, algo muito importante porque ele se coloca próximo das pessoas, fazendo com que o conceito de cidadania se torne real assim como o de inclusão. Com o passar do tempo, ela foi acumulando várias atividades relacionadas ao poder Judiciário tais como juíza eleitoral, membro da turma recursal, coordenação dos juizados, presidente de associação da magistratura, entre outras responsabilidades relativas ao cargo. Em 2010, Tânia se tornou a primeira mulher a ocupar uma vaga no Tribunal de Justiça, após ela se tornou a primeira mulher a ser Presidente do TJ e a primeira mulher a ser presidente do TRE/RR. Foi também a primeira mulher a ser Corregedora de Justiça. Tânia diz que, como foi a primeira mulher a entrar para magistratura em Roraima, é natural que vá ocupando os cargos e funções de acordo com a trajetória profissional.
Atualmente, Tânia ocupa, pela segunda vez, a função de Presidente do TRE/RR onde uma de suas atribuições é diplomar os eleitos tanto do poder Executivo quanto do Legislativo roraimense. Ela não se considera vaidosa por ser a primeira mulher a ocupar tantos cargos e funções no poder judiciário local, porém, segundo um primo que ela tem, ela será imortal pois os primeiros nunca são esquecidos. No caso dela, ela diz que ser a primeira mulher a ter uma carreira tão importante no judiciário é importante porque abriu caminhos para outras mulheres que hoje estão ocupando tantos lugares nessa área. Ela considera que os desafios de sua carreira foram lhe amadurecendo porque na verdade todos tem seus medos e dificuldades, mas, o que torna uns diferentes dos outros é o interesse e a oportunidade.
Ao refletir sobre a trajetória das mulheres na história, Tânia diz que a 40 ou 50 anos atrás, as oportunidades de carreira para mulheres eram muito restritas, pois, as mulheres eram criadas para atividades relacionadas a atividades domésticas, principalmente. Apesar disso, capacidade intelectual e de trabalho todas sempre tiveram e pra atuar em qualquer area. Para Tânia, quando existe a oportunidade e interesse em vencer os desafios, tanto homens quanto mulheres podem ocupar cargos quaisquer que forem eles já que não é o sexo que define maior ou menor capacidade.
Tânia, considera que a rotina da sua vida é puxada porque ela tem muitas responsabilidades e as 24 horas do dia são poucas para tanto que tem que realizar. Ela é filha, mãe e avó e, apesar de desde cedo trabalhar muito, seus filhos não são traumatizados. Ela tem uma rotina doméstica parecida com a de tantas outras mulheres: lava, passa, cozinha, vai ao supermercado sabendo dividir bem as coisas dentro de seus respectivos horários. Quando os filhos nasceram, ela cuidou, amamentou, ficou noites em claro, assim como tantas outras mães. Estando em casa ou atuando no judiciário, Tania se dedica totalmente em suas atividades sejam elas domésticas ou profissionais porque não costuma fazer corpo mole para nada. Ela cuida de sua mãe, Orlandina, que atualmente está com 97 anos e está às vésperas de lhe nascer o terceiro neto. Com tantas atividades, Tânia ainda arruma tempo de fazer grandes aventuras como subir o Monte Roraima e ser voluntária em ações sociais.
Tânia considera que nunca foi vitima de preconceitos por ser mulher, mas, considera que a ascensão de alguém as vezes pode suscitar a inveja além de criar inimigos, muitas vezes mais “inimigas”. Nesse caso, é uma escolha sucumbir a determinadas situações ou avançar contra as circunstâncias desfavoráveis. Para ela a competição por posição profissional não é uma questão de gênero apesar de considerar positiva a participação cada vez maior das mulheres nos espaços do poder político e no judiciário. Tendo em sua mãe, sua maior inspiração de vida e de companheirismo, Tania não considera os obstáculos grandes o bastante para quem decide o que quer fazer de sua vida.
Escrito por Renato da Silva Lima
Orientadora: Rutemara Florêncio