Uma roraimense nata: assim é Shéridan Estefany de Oliveira. Ela nasceu em 11 de abril de 1984, na cidade de Boa Vista e tem dois irmãos: Bruno e Alexandre. Seus pais, Estefson Pinheiro e Eridan Oliveira são funcionários públicos aposentados. A infância de Shéridan foi em Roraima. Sua família não era de classe social alta e ela não foi criada com muitas regalias mas, teve uma infância muito feliz correndo na rua atras dos caminhões-pipa, brincando com a criançada do bairro e frequentando o Parque Anauá. Ela lembra de uma parte importante da história da família que se refere a sua avó. A avó teve 7 filhos e, para cria-los fazia comida e vendia na feira. Ela estudou em escolas públicas em todas as etapas da escolarização básica e considera que teve uma boa educação tanto dos pais quanto da escola.
Aos 16 anos, Shéridan engravidou e se tornou mãe de Julia, enfrentando muita dificuldade pois, muito nova, não tinha maturidade. Porém, a filha não a impediu de estudar, mas, como mãe, ela tinha uma criança para cuidar e amar e foi uma grande responsabilidade que ela teve que desenvolver desde cedo. Ela considera que não teve adolescência por conta da responsabilidade com a maternidade além de ter começado a trabalhar muito cedo, também aos 16 como empreendedora individual no ramo de cestas de café da manhã. Nesse trabalho ela dava tudo de si para fazer a melhor cesta, a mais bonita e mais recheada buscando a excelência no trato com seus clientes.
Shéridan sempre foi muito comunicativa e seu sonho era ser apresentadora de televisão. Pensando nisso ela fez a faculdade de Comunicação Social se tornando jornalista. A vontade de ser apresentadora de telejornal foi deixada de lado, porém, por conta de que, por falar muito e rápido, ela teria que reaprender a pausar e moderar na quantidade de palavras. No entanto, Shéridan trabalhou algum tempo em veículos de comunicação de Boa Vista atuando na área de formação. Posteriormente, ela foi chefe de comunicação de uma das casas legislativas em Boa Vista e, logo em seguida, deixou a área para trabalhar com gestão de órgão publico no SETRABES. Quando ela estava atuando nesse órgão governamental, ela fez a faculdade de Psicologia devido a gostar de estudar como também porque seu trabalho demandava uma relação muito próxima com todos os tipos de pessoas e a psicologia lhe ajudava nessa questão.
Casada com o então governador Anchieta Junior, entre os anos de 2007 e 2014, Shéridan foi secretaria de estado para área de políticas sociais e por atuar nessa área, se tornou bastante conhecida o que favoreceu sua candidatura a deputada federal no ano 2014, sendo eleita com grande soma de votos. Logo após, ela e Anchieta se divorciaram e atualmente, Shéridan é solteira.
Atuando em Brasilia, DF como deputada federal pelo PSDB, Shéridan se tornou a primeira mulher a ser relatora de uma reforma política no Brasil e ela considera que o fato é muito importante para a representação da mulher que, ainda está em desvantagem numérica na representação do congresso nacional assim como de outras esferas políticas. Ela observa que na época em que foi eleita e assumiu o mandato de deputada, as mulheres deputadas no congresso não representavam nem 10% do quantitativo total de deputados: 513. Ou seja, mesmo que as mulheres sejam, numericamente, em maior quantidade do que os homens no Brasil, elas não têm representatividade no Legislativo nacional havendo, portanto, uma disparidade entre a população e a representação política dessa população.
Sobre a reforma política onde Shéridan foi relatora, ela considera que foi uma oportunidade de mostrar a sociedade que as mulheres têm capacidade de organizar leis e tratar de assuntos importantes do mundo político por mais que, ainda existam pessoas que não acreditam nisso e ainda subestimem as mulheres. Ela ressalta que um dos pontos principais da reforma política foi acabar com as coligações partidárias, processo esse que sempre trouxe muita confusão aos eleitores pois, vota-se em uma pessoa, mas elege outra (exemplo). Outra questão foi a divisão dos recursos financeiros entre partidos o que, sem a reforma, dava direito a um partido sem nenhum eleito, de ganhar dinheiro do fundo partidário. A reforma política então, acabou com essa prática.
Ao chegar a Câmara dos Deputados em 2015, Shéridan confessa que não sabia direito como funcionavam as coisas por lá. Ela aproveitou a oportunidade para aprender sobre tudo e, em 2016 foi presidente da comissão dos direitos da mulher tratando de tudo o que se relacionasse com as mulheres, violação de direitos ou mesmo de luta pelos direitos. Com esse trabalho, ela percebeu que ainda há muito que avançar para que a mulher tenha o reconhecimento e a segurança que pela lei, já são tratadas, mas que, na prática, ainda não recebe. Ela cita questões como o alto índice de violência de que as mulheres são vitimas tais como a física, psicológica e assedio além das diferenças salariais e outras questões relacionadas. No seu entender, a luta pela igualdade de tratamento como também de direitos também é uma luta dos homens porque só assim, a sociedade exerce a democracia e a justiça entre os sexos.
Em relação a projetos aprovados e ações relacionadas a atenção social via politicas públicas, Shéridan destaca que os trabalhos que mais marcaram sua trajetória politica tem relação com o desenvolvimento de ações para atenção a pessoas com necessidades especiais em Roraima ( o VIVA Comunidade) como também as mulheres que sofrem escalpelamento, dando a essas últimas, atendimento prioritário no SUS (esse projeto foi como deputada federal).
Shéridan relata que já foi vítima de ameaças por parte de homens políticos do estado de Roraima, onde os recados diziam “vou lhe ensinar a respeitar homem” tendo ela que buscar a polícia para ser protegida, pois, sabendo que culturalmente o “respeito” que muitos homens querem é imposto através do uso da violência física, ela se sentiu ameaçada em sua integridade física. Também foi hostilizada pela atuação política, sempre com referencias de menosprezo a seu sexo: mulherzinha, deputadazinha, entre outros nomes, na intenção de diminui-la por ser ela, mulher.
Para Shéridan, se ela, que é uma mulher representante de tantas outras e outros, possuindo até certo poder de atuação na sociedade, passa por intimidação e ameaça, o que dizer das mulheres que não tem visibilidade e estão a mercê de todo tipo de violência seja ela relacionada a física ou psicológica? Assim, ela considera que tem a obrigação de lutar por transformações que contribuam para formar outro tipo de atitude com relação as mulheres.
A mudança da lei, obrigando aos partidos terem um percentual de mulheres candidatas em eleições, para Shéridan, é superficial pois, há necessidade de que haja uma sensibilização da sociedade e das mulheres para que ocupem, de fato, o lugar do exercício da política nos locais públicos. É necessário que mais mulheres se tornem representantes da população nacional, porém, ela acredita que para isso, tem que ter uma transformação de mentalidade nos grupos sociais como a escola, por exemplo. Segundo ela, há que se discutir a participação da mulher na vida social e, a partir disso, desenvolver ações que tragam resultados efetivos para causa.
O fato de as mulheres estarem ocupando cada vez mais, posições políticas no poder Executivo é visto por Shéridan como algo bom e, as boas práticas dessas mulheres podem ser consideradas exemplos para que outras queiram disputar tais cargos. Para ela, capacidade não tem sexo e qualquer pessoa pode tanto ser competente quanto incompetente seja homem ou mulher. No entanto, em se tratando das mulheres, elas podem inspirar, através do exemplo, outras mulheres a estarem onde desejarem estar. Ela entende que, cada pessoa deve querer fazer o seu melhor para obter sucesso e se preparar para isso.
Shéridan tem em sua vida, muitas inspirações de outras mulheres, mas, ela destaca que sua filha mais velha, hoje com 19 anos, foi realmente uma inspiração para que ela lutasse. Sendo mãe aos 16 anos, ela viu na filha um motivo para ser a melhor mãe, a melhor profissional além de servir de exemplo para ela e para sua filha mais nova, de 12 anos.
Como mãe e deputada federal já reeleita para o mandato 2019/2022, Shéridan observa que tem que se virar nos 30 para dar conta da vida pessoal e da ação enquanto deputada. Para ela, ser mãe é uma tarefa desafiadora, ainda mais os filhos estando na fase adolescente, pois pessoalmente se cobra por fazer o melhor para as filhas. Nesse sentido, há uma culpa que as mulheres, de um modo geral, sentem por conta de trabalharem fora de casa deixando os filhos sem sua presença. Ela observa que essa culpa está sempre na cabeça das mulheres que se exigem porque não acham que estão fazendo tudo que podem para família, para o marido, para as amigas, para os filhos... Apesar do tempo curto para se dedicar as filhas, essas lhe apoiam na vida corrida que Shéridan possui e participam da vida profissional da mãe deputada vendo-a como exemplo a ser seguido.
Escrito por José Vieira e Raquel Souza - Dezembro/2018
Orientadora: Rutemara Florencio