Maria de Lourdes Pinheiro nasceu em Jaguaribe no estado do Ceará no dia 14 de janeiro de 1940 tendo 79 anos atualmente. Aos 05 anos de idade, foi morar em Pereiro, uma cidade cearense bem interiorana que fica na serra e onde passou a infância e adolescência. Lourdinha, como é conhecida em Roraima, lembra com saudade dos tempos de criança e adolescente já que essas épocas foram maravilhosas. Por ser de família numerosa, não faltou à menina Lourdinha, amigos para brincar de tudo quanto era brincadeira. A partir da segunda metade da década de 1940, ela passou a frequentar o grupo escolar de Pereiro e lembra que naquele tempo, escola era um lugar de disciplina, obediência e respeito aos professores.
Os estudos da adolescente Lourdes, já na década de 1950, foram feitos em escolas públicas: naqueles tempos, eram as melhores. Ao entrar para o ginásio (Ensino Fundamental II de hoje) ela passou a estudar em uma escola pública, porém sob o comando de um religioso católico. Lourdinha tinha muito orgulho de sua escola assim como seus colegas: desde cedo foi ensinada pela família a valorizar aquele ambiente e os seus professores.
Lourdinha conta que os professores de seu tempo de escola básica possuíam destaque em todos os lugares onde chegavam e eram muito respeitados pela sociedade. Para as pessoas de sua época, eram os professores que detinham o saber e, ao ensinar, transferiam esse conhecimento coisa que era bastante valorizado pelas famílias naquela época. Na escola de Lourdinha, ela relembra que havia um método inovador: os alunos aprendiam fazendo e funcionava assim: os professores orientavam os alunos, davam a parte ‘teórica’ e esses tinham que desenvolver a prática como se fosse uma “metodologia ativa”.
Ao passar do nível ginasial para o cientifico, a jovem Lourdinha tinha adquirido uma base bastante forte para continuar aprendendo e indo além dos conhecimentos que já tinha: ela amava estudar e aprender as novidades que os professores traziam para sala de aula. Em suas recordações, ela observa que todos os alunos tinham como obrigação, ler livros de grandes autores da literatura brasileira e mundial para que depois, em sala de aula, fizessem a exposição do que leram contando a história para colegas e professores. Ela não se recorda de algum colega se negando a fazer o trabalho pois, estando na escola, todos sabiam que tinham que fazer o que era pedido. Lourdinha gostava de ser cobrada pelos professores porque sabia que aquilo era o comprometimento do professor e obrigação dela dar o retorno de seu aprendizado.
Formada em técnica de contabilidade, no ano de 1958, a jovem Maria de Lourdes se mudou para São Paulo onde viveu até 1977. Em São Paulo, ela também estudou e trabalhou em uma faculdade: ficar parada não era com ela. Cedo na vida, Lourdinha se mostrou diferente da maioria das mulheres de sua época. Ela não queria depender de marido para sobreviver e, por isso, estudou e se preparou para poder trabalhar fora de casa. Como qualquer jovem, ela sonhava com amor e claro, namorava normalmente como as moças e rapazes de todas as épocas costumam fazer. Sobre o amor, ela sempre soube a quem dedicar: Raimundo Pinheiro, um cearense como ela.
Logo no início da sua vida em São Paulo, ela arrumou emprego e passou a trabalhar em escritório. Lourdinha gostava da liberdade, ter seu dinheiro assim como em ser dona do próprio nariz: definitivamente ela não tinha vocação para ser só dona de casa. Ao sair do Ceará e vir pra São Paulo, Lourdinha se encontrou com Raimundo pois, já namoravam a distancia. O amor que Lourdinha sentia por Raimundo nunca foi motivo para que ela desistisse de sua vida: ela sempre deixou claro que queria ter sua independência financeira e trabalhar fora de casa e, ele sabia, nada impedia Lourdinha de alcançar o que desejava. Trabalhando e levando a vida, Lourdinha estava feliz em São Paulo e namorou com Raimundo durante 10 anos até que, Raimundo quis voltar para o Ceará. Lourdinha foi bem clara com o amado: não iria voltar para o Ceará, mas, disse que se ele quisesse realmente ficar com ela, se casariam e ficariam em São Paulo. Aos 26 anos então, ela contraiu matrimônio e, na década de 1970 lhe nasceram a filha mais velha e as duas filhas gêmeas. O namoro, iniciado ainda no Ceará, durou 10 anos vindo após esse tempo, o casamento. Casados, Lourdinha e Raimundo ficaram por 47 anos. Em 2006, Raimundo partiu desse mundo material deixando o coração de Lourdinha cheio de saudade da vida feliz que tiveram juntos.
Foi nos anos de 1970 que Lourdinha e a família vieram para Roraima – que naquela época era ainda território federal com poucos moradores. O marido, Raimundo, havia vencido uma licitação do Exército para o 6º BEC (ele era dono de uma empresa de terraplanagem) e mesmo sem conhecer muito a respeito do local (na época a comunicação era muito difícil assim como os deslocamentos terrestres) resolveu se mudar com a mulher e as filhas.
Lourdinha, que nunca foi de ficar parada, compartilhava com o marido os afazeres da empresa do casal e ao mesmo tempo, foi trabalhar como voluntária em um órgão do governo similar ao que hoje chamamos de SETRABES. Esse órgão tratava de questões ligadas ao apoio as pessoas mais carentes e Lourdinha tinha contato direto com essas pessoas ajudando-as em suas necessidades mais urgentes assim como orientando-as em várias questões.
Naqueles anos de voluntariado, Lourdinha conheceu o governador da época que era o Brigadeiro Otomar de Sousa Pinto. Ele, observando como ela se relacionava com a população, convidou-a para filiar-se ao PTB e ser candidata a vereadora pela cidade de Boa Vista. Nessa questão, Raimundo, o marido, não concordou, pois, segundo Lourdinha, ele não gostava de política. No entanto, Lourdinha que já vinha de uma família que praticava a política/partidária no Ceará, não sossegou até convence-lo a apoia-la nessa empreitada. Ele, enfim, concordou com a esposa dizendo que, se aquilo iria faze-la feliz, que ela assumisse a candidatura. Aqui cabe um detalhe interessante: Lourdinha foi vereadora por muitos anos tendo sempre o apoio do marido, mas, esse, nunca pôs os pés na câmara de vereadores e nem foi as suas posses. Segundo ela, nem por isso brigaram ou ela se sentiu desprezada por ele já que sabia que ele não gostava dessa área, porém, ele respeitou sua autonomia assim como ela, a dele.
A entrada de Lourdinha na política, ela atribui ao exemplo de sua mãe que foi a primeira mulher a se candidatar a vereadora no estado do Ceará no final da década de 1950. Lourdinha foi candidata no pleito de 1982 e ganhou a cadeira na câmara de vereadores de Boa Vista assumindo em 1983. Ela foi a segunda mulher a se tornar vereadora pela cidade de Boa Vista e a primeira mulher a ser presidente da Câmara de Vereadores da mesma cidade. Aqui cabe um destaque: A primeira mulher que foi vereadora na cidade de Boa Vista, foi Maria Habib Fraxe que esteve presente na primeira legislatura da Câmara Municipal de Boa Vista - 1969 a 1972 e se tornou vice-presidente da instituição. Nessa época, os vereadores não recebiam salários mas, não podiam ter cargos em outras esferas do poder público e, por isso, a professora Maria Habib Fraxe teve que renunciar.
Lourdinha passou a ocupar a função de vereadora de Boa Vista em janeiro de 1983, porém, ela não tinha apenas esse trabalho para desenvolver na vida. Além de ser vereadora, ela era mãe, dona de casa e ainda era o braço direito do marido na empresa da família. Como as sessões do legislativo eram duas vezes na semana, ela desenvolvia os trabalhos na empresa, organizava a casa e levava as filhas para escola fazendo questão de acompanhar todo o roteiro escolar das meninas. Nessa parte ela conta que nunca permitiu que outras pessoas fizessem o trabalho de transporte de suas filhas, sendo ela responsável por todos os passeios e saídas. Lourdinha acredita que sua vida pessoal não foi afetada pela profissional, pois, conseguia fazer tudo o que tinha que fazer.
Ao completar 14 anos, a filha mais velha de Lourdinha e Raimundo passou a trabalhar na empresa do pai como secretária e, foi nessa época que a vereadora deixou o local sob a responsabilidade do marido e da filha. Ela continuou com as outras atividades na Câmara Municipal e em casa, tendo uma rotina bastante agitada e cheia de atividades políticas. Ela diz que sempre buscou aprender as coisas que não sabia, com humildade mesmo sendo a pessoa com mais idade dentre o grupo dos vereadores. Fez muitos cursos, estudou e se preparou para aprender as regras da política, o desenvolvimento de projetos e o posicionamento adequado para o exercício daquela função pública.
Lourdinha foi vereadora por 07 vezes e ocupou uma cadeira na câmara de vereadores por 30 anos. Ela começou sua trajetória política como voluntária em ação social pois, segundo diz, tinha prazer em ajudar as pessoas naquilo que fosse: uma informação, uma reivindicação, um projeto de lei, entre outras ações. Sendo procurada em seu gabinete, o que ela pudesse fazer, mesmo que fosse apenas ouvir as pessoas que ali chegavam, ela fazia. Atualmente, mesmo sem cargo político, Lourdinha continua atuando junto à comunidade local, fazendo trabalhos sociais e levando um pouco de solidariedade a aqueles que precisam.
Aprender sempre e cada vez mais é o lema de Lourdinha que não vê sua idade como empecilho para o trabalho. Durante o tempo que foi vereadora, ela conseguiu aprovação de vários projetos importantes para sociedade tanto na área da educação quanto na área da saúde. É dela o projeto de se trabalhar a questão do Bullying nas escolas municipais, o uso de sinais em libras como também a regularização e organização da Liga Roraimense de Combate ao Câncer, em parceria com a Dra. Ginecologista Magnólia Rocha que hoje também é vereadora em Boa Vista.
Lourdinha acredita na força da mulher em todos os sentidos e garante que viu, em todos esses anos de vida, as mulheres lutando por espaço e ganhando essas lutas. No entanto, ela diz que gostaria que as mulheres, principalmente as de Roraima, continuassem buscando educação, lutando por dignidade e melhorando de vida tendo como espelho outras mulheres que conseguiram atingir seus objetivos.
Apesar de ver a participação das mulheres na política de forma positiva, Lourdinha observa que ainda não é o suficiente em números para igualar a participação dos homens. Ela diz que as mulheres devem estudar política, que podem se considerar capacitadas para ocupar vagas no legislativo e executivo sem prejuizo em outras esferas da vida. Lourdinha quer ver as mulheres do estado de Roraima engajadas nessa luta e nesse mundo da democracia, principalmente as mulheres jovens.
Lourdinha, mesmo em seus quase 79 anos não se considera totalmente realizada já que tem alguns objetivos a alcançar como ver os netos se formando. Ela observa sua familia como lugar de felicidade e sabe que suas filhas sempre viram na mãe, a segurança necessária para enfrentar as dificuldades quaisquer que sejam elas. Como herança para as filhas, Lourdinha diz que quer deixar o seu nome: um nome limpo, que representa o amor e a gratidão, respeito pelas pessoas que fizeram parte de sua vida assim como em relação a Raimundo, que sempre foi modelo de honestidade e trabalho para ela e as filhas, o amor em sua vida.
As maiores emoções na vida de Lourdinha foram o casamento com Raimundo (que sempre foi seu grande amor) e o nascimento das filhas. Também considera importante sua primeira eleição e vitória para vereadora. Ela diz, considerando sua própria experiencia de vida, que as mulheres não devem desistir de suas aspirações por nada, indo sempre em frente com trabalho e ousadia sem prejudicar outras pessoas. Por mais que tenha um olhar positivo pela vida, ela também passou e passa por dificuldades, mas, nunca desistiu. Sua mãe sempre foi seu modelo de mulher, aquela mulher em quem Lourdinha se espelhou: foi uma guerreira e batalhadora que ficou viúva quando Lourdinha tinha 01 ano e 09 meses, tendo que voltar a morar com os pais que a acolheram com os filhos. Porém, mesmo morando com os pais, ela entrou pra política e foi em frente sendo ajudada pela filha Lourdinha, na época uma jovem adolescente.
Dona Lourdinha, como é conhecida em Roraima, não gosta de lembrar das coisas ruins que ocorreram em sua vida de quase 80 anos: ela prefere viver o presente, lembrar das coisas boas e fazer planos para o futuro. Da vida política, ela tem boas recordações; do marido Raimundo, saudades eternas, mas, o presente, ela vive em paz com as filhas, genros e netos que tornam seus dias mais felizes.
Escrita por Ranielly Sousa da Silva e Isabele Cristina Pinheiro Marques
Orientadora: Rutemara Florencio